Faruque ​​( ; ; Cairo, 11 de fevereiro de 1920 – Roma, 18 de março de 1965) foi Rei do Egito e Sudão de 1936 até sua abdicação forçada em 1952.

Inicialmente popular, Faruque tornou-se conhecido por seu estilo de vida extravagante, enquanto seu governo enfrentava crescente oposição política e social. Contrário ao estabelecimento de um governo democrático representativo, aproximou-se do rei Abdalazize da Arábia Saudita, em uma relação que contribuiu para a formação da Liga Árabe. Durante seu reinado, o Egito enfrentou ameaças de intervenção estrangeira, profundas desigualdades sociais, corrupção administrativa, pobreza e crescente descontentamento popular. A derrota egípcia na Guerra Árabe-Israelense de 1948 agravou a crise de legitimidade da monarquia e enfraqueceu ainda mais a posição de Faruque. Em 23 de julho de 1952, Faruque foi deposto por um grupo de jovens oficiais do Exército pertencentes ao movimento clandestino dos Oficiais Livres, liderado por Gamal Abdel Nasser. Após sua abdicação, os militares decidiram enviá-lo ao exílio na Itália, em vez de condená-lo à morte.

Faruque abdicou formalmente em favor de seu filho de seis meses, que o sucedeu como Fuade II. Este reinou formalmente como último rei do Egito e do Sudão até a abolição da monarquia egípcia, em junho de 1953. Faruque faleceu em Roma, em 1965, aos 45 anos.

Biografia Primeiros anos e educação Faruque nasceu no Palácio de Abdeen, no Cairo, em 11 de fevereiro de 1920, filho mais velho do rei Fuade I e de rainha Nazli Sabri. Foi criado nos palácios reais sob rígido controle paterno e recebeu uma educação especialmente voltada para idiomas, tornando-se fluente em árabe, francês, inglês e italiano. Após ser reprovado nos exames de admissão para o Eton College, frequentou a Real Academia Militar de Woolwich, na Inglaterra, embora seus tutores criticassem seu desempenho acadêmico. Em janeiro de 1936, representou o Egito no funeral do rei Jorge V do Reino Unido na Abadia de Westminster.

Reinado Ascensão ao trono miniaturadaimagem|243x243px|O jovem rei Faruque, em 1937, pouco depois de sua ascensão ao trono. Em 28 de abril de 1936, Fuade I faleceu, e Faruque, então com dezesseis anos, retornou da Inglaterra para assumir o trono. Chegou a Alexandria em 6 de maio, sendo recebido por grandes multidões. Inicialmente muito popular e conhecido como al malik al mahbub ("o rei amado"), herdou também uma grande fortuna, estimada em US$ 100 milhões, incluindo terras, palácios, automóveis e iates. Seu biógrafo William Stadiem observou que, apesar de sua riqueza e popularidade, Faruque chegou ao trono com pouca preparação para governar.

Pouco depois de sua ascensão, Faruque tornou-se o primeiro soberano egípcio a dirigir-se diretamente à população pelo rádio:

Segunda Guerra Mundial esquerda|miniaturadaimagem|260x260px|Faruque com membros do segundo governo do primeiro-ministro Ali Maher, em 1939. O Egito permaneceu neutro no início da Segunda Guerra Mundial, mas, sob forte pressão do embaixador britânico Miles Lampson, Faruque rompeu relações diplomáticas com a Alemanha em setembro de 1939. Pelo tratado anglo-egípcio de 1936, a Grã-Bretanha tinha o direito de defender o Egito, que se tornou campo de batalha após a entrada da Itália na guerra e sua invasão do país em junho de 1940. Durante a guerra, cerca de dois milhões de soldados britânicos, australianos, indianos e neozelandeses passaram pelo Egito.

Faruque mantinha relações tensas com os britânicos e demonstrava simpatia por alguns setores contrários à sua influência. Em 1940, demitiu Ali Maher do cargo de primeiro-ministro após pressão de Lampson, mas recusou-se a nomear Mostafa el-Nahas, preferindo Hassan Sabry, sucedido por Hussein Sirri após sua morte em novembro daquele ano. Ao mesmo tempo, Faruque mantinha contatos com oficiais egípcios antibritânicos e com Hassan al-Banna, líder da Irmandade Muçulmana.

A ofensiva italiana no Egito foi interrompida em Sidi Barrani em 1940, e uma contraofensiva britânica levou as forças italianas de volta à Líbia. Em 1941, tropas alemãs comandadas por Erwin Rommel chegaram ao Norte da África, mas foram posteriormente derrotadas na batalha de El Alamein. Durante esse período, Faruque chegou a manifestar a Adolf Hitler sua disposição de colocar o Egito ao lado do Eixo caso as forças alemãs alcançassem o vale do Nilo. Após a derrota do Eixo no Egito, sua posição tornou-se progressivamente mais favorável aos britânicos.

Durante a guerra, o estilo de vida luxuoso de Faruque foi alvo de críticas, especialmente quando ele se recusou a apagar as luzes de seus palácios em Alexandria durante os apagões provocados pelos bombardeios. A guerra, contudo, também trouxe prosperidade aos grandes proprietários rurais egípcios devido à alta demanda por algodão, principal produto de exportação do país.

Em fevereiro de 1942, após uma crise política, Lampson pressionou Faruque a nomear um governo liderado pelo Wafd. Em 4 de fevereiro, tropas britânicas cercaram o Palácio de Abdeen, e Lampson apresentou ao rei um ultimato para que nomeasse Nahas como primeiro-ministro ou abdicasse. Faruque acabou cedendo, e Nahas formou um novo governo. O episódio, conhecido como Incidente do Palácio de Abdeen, provocou forte ressentimento contra a Grã-Bretanha e o Wafd e contribuiu para aproximar parte do Exército egípcio do rei.

Após a vitória britânica em El Alamein, Faruque adotou uma posição mais favorável aos Aliados. Em 1944, finalmente demitiu Nahas e nomeou Ahmed Maher como primeiro-ministro. No ano seguinte, o Egito declarou guerra à Alemanha e ao Japão, permitindo sua participação na Conferência de São Francisco e na criação da Organização das Nações Unidas.

Durante a guerra, Faruque também manteve contatos com outros líderes árabes e manifestou interesse em ampliar o papel regional do Egito. Em 1944, o país aderiu à Liga Árabe, enquanto as relações anglo-egípcias se tornavam cada vez mais tensas. Ao final da guerra, Faruque passou a defender uma nova relação com a Grã-Bretanha e a retirada das forças britânicas do Egito.

Declínio, abdicação, exílio e abolição da monarquia miniaturadaimagem|260x260px|Conjunto de móveis para quarto em estilo Império, pertencente ao rei Faruque, conhecido por seu estilo de vida luxuoso. Após a Segunda Guerra Mundial, o Egito era economicamente próspero, mas sofria com forte desigualdade, pobreza rural e graves problemas sanitários. A concentração de riqueza e a resposta inadequada à epidemia de cólera de 1947 contribuíram para o desgaste da imagem de Faruque. Seu estilo de vida luxuoso e a influência de seu círculo de assessores também alimentaram as críticas à monarquia.

Faruque pressionou pela retirada britânica do Egito, mas as negociações fracassaram principalmente devido à questão do Sudão. Em 1946, concedeu asilo ao ex-rei Vítor Emanuel III da Itália e ao líder palestino Amin al-Husayni, cuja presença contribuiu para aumentar a importância da questão palestina na política egípcia. Faruque apoiou uma posição fortemente antissionista e, em 1948, decidiu intervir na guerra contra Israel, apesar das advertências de que o Exército não estava preparado.

A derrota na guerra prejudicou gravemente o prestígio de Faruque e fortaleceu a oposição à monarquia. A partir de 1950, o aumento dos preços do algodão trouxe ganhos aos grandes proprietários, mas também inflação e escassez de alimentos. A riqueza de Faruque e seus gastos extravagantes na Europa reforçaram a percepção de distanciamento entre o rei e a população. esquerda|miniaturadaimagem|260x260px|O Fim Iminente da Monarquia Constitucional: charge sobre a votação que levou à abolição da monarquia no Egito, realizada após a abdicação de Faruque. A imagem faz um trocadilho ao sugerir que o ex-rei já havia "perdido a cabeça" antes mesmo de ser atingido pelo trem, em uma alusão simultânea à queda do monarca e à decapitação. Em outubro de 1951, o Egito revogou o Tratado Anglo-Egípcio de 1936, intensificando o conflito com a Grã-Bretanha na região do Canal de Suez. Ao mesmo tempo, os Oficiais Livres ganharam influência no Exército, evidenciada pela vitória de Muhammad Naguib sobre o candidato apoiado por Faruque na eleição do Clube dos Oficiais.

Em janeiro de 1952, a Batalha de Ismailia, seguida pelo incêndio e pelos distúrbios do chamado "Sábado Negro" no Cairo, aprofundou a crise política. A sucessiva troca de primeiros-ministros não conseguiu restaurar a estabilidade, enquanto as tentativas de combater a corrupção enfrentavam resistência dentro do próprio círculo real.

A combinação de desigualdade social, corrupção, conflito com a Grã-Bretanha, derrota na Palestina, perda de prestígio da monarquia e crescente oposição militar deixou Faruque politicamente isolado. Em 23 de julho de 1952, os Oficiais Livres tomaram o poder e, sob pressão, Faruque abdicou em favor de seu filho, que se tornou o rei Fuade II. Faruque deixou o Egito em 26 de julho, enquanto um Conselho de Regência governava em nome do monarca ainda criança. Em 18 de junho de 1953, a monarquia foi oficialmente abolida e o Egito tornou-se uma república, encerrando o governo da dinastia de Maomé Ali.

Vida posterior e morte miniaturadaimagem|286x286px|Faruque em 1951. Após abdicar, Faruque deixou rapidamente o Egito e exilou-se inicialmente em Nápoles, estabelecendo-se depois em Roma. Embora afirmasse estar sem recursos, manteve um estilo de vida luxuoso e tornou-se conhecido como o "rei da noite" por sua presença frequente em clubes e restaurantes romanos. Em 1958, a República Árabe Unida revogou sua cidadania egípcia, e, em 1959, ele recebeu a cidadania de Mônaco.

Faruque passou seus últimos anos em Roma, onde continuou a frequentar cafés e restaurantes e viveu com a cantora de ópera italiana Irma Capece Minutolo. Em 18 de março de 1965, aos 45 anos, passou mal após uma refeição no restaurante Île de France e faleceu pouco depois no Hospital San Camillo, em Roma.

Seu desejo era ser enterrado na Mesquita de Al-Rifa'i, no Cairo, mas o governo de Gamal Abdel Nasser inicialmente recusou. Faruque foi enterrado na Itália, mas seus restos mortais foram levados secretamente ao Egito em 31 de março de 1965 e sepultados em Hosh al-Basha. Mais tarde, durante a presidência de Anwar Sadat, foram transferidos para a Mesquita de Al-Rifa'i, onde foram enterrados junto a outros membros da dinastia de Maomé Ali.

Casamentos, filhos e romances Primeiro casamento esquerda|miniaturadaimagem|292x292px|Faruque e sua primeira esposa, Safinaz Zulficar ("Farida"), no dia de seu casamento. Em 1937, Faruque anunciou seu noivado com Safinaz Zulficar, filha do juiz Youssef Zulficar Pasha. Ele mudou seu nome para Farida, acreditando que nomes iniciados com "F" davam sorte. O casamento, realizado em 20 de janeiro de 1938, foi celebrado com grande pompa e aumentou a popularidade do jovem rei, em parte por Farida não pertencer à tradicional aristocracia turco-circassiana.

O casal teve três filhas: Ferial, nascida em 1938, Fawzia, em 1940, e Fadia, em 1943. A ausência de um filho homem tornou-se uma preocupação para Faruque, pois as mulheres não podiam suceder ao trono. O casamento deteriorou-se durante a década de 1940, enquanto ambos foram alvo de rumores sobre relacionamentos extraconjugais. Faruque divorciou-se de Farida em 17 de novembro de 1948. O divórcio prejudicou sua imagem, pois ela continuava mais popular entre os egípcios do que o rei.

Segundo casamento miniaturadaimagem|244x244px|Faruque, sua segunda esposa, Narriman Sadek, e seu único filho varão, o futuro rei Fuade II do Egito.