Maneirismo é um estilo da arte europeia que surgiu nos últimos anos do Alto Renascimento italiano, por volta de 1520, difundindo-se por volta de 1530 e perdurando até o final do século XVI na Itália, quando o estilo barroco o substituiu em grande parte. O maneirismo nórdico continuou até o início do século XVII.
O maneirismo abrange uma variedade de abordagens influenciadas pelos ideais harmoniosos associados a artistas como Leonardo da Vinci, Rafael, Vasari e o jovem Michelangelo, e que reagem a eles. Enquanto a arte do Alto Renascimento enfatiza a proporção, o equilíbrio e a beleza ideal, o maneirismo exagera essas qualidades, resultando frequentemente em composições assimétricas ou de uma elegância artificial.Gombrich, E H. The Story of Art London: Phaidon Press Ltd, Notável por suas qualidades artificiais (em oposição às naturalistas), esse estilo artístico privilegia a tensão e a instabilidade composicionais em vez do equilíbrio e da clareza da pintura do Renascimento anterior. O maneirismo na literatura e na música é notável por seu estilo altamente florido e sofisticação intelectual.Art and Illusion, E. H. Gombrich,
A definição de maneirismo e as fases que o compõem continuam sendo objeto de debate entre historiadores da arte. Por exemplo, alguns estudiosos aplicaram o rótulo a certas formas de literatura do início da era moderna (especialmente poesia) e música dos séculos XVI e XVII. O termo também é usado para se referir a alguns pintores do final do período gótico que trabalharam no Europa Setentrional de cerca de 1500 a 1530, especialmente os maneiristas de Antuérpia— um grupo sem relação com o movimento italiano. O maneirismo também foi aplicado por analogia à Idade de Prata da literatura latina.
Etimologia A palavra deriva do termo italiano maniera, "maneira", indicando o estilo pessoal de determinado autor, e em sua origem no século XVI foi usada por Giorgio Vasari com conotações positivas, significando graça, leveza e sofisticação. Raffaello Borghini emprega o termo um pouco mais tarde para definir se um artista possui ou não um talento superior e original. Em seguida, escritores como Giovanni Bellori e Luigi Lanzi modificam o conceito e ele passa a significar artificialidade e virtuosismo excessivo, o que iria repercutir negativamente em todos os estudos posteriores até o século XX, quando o estilo começou a ser revisto e revalorizado, especialmente depois da contribuição de Arnold Hauser nos anos 1960.Maneirismo. Enciclopédia Itaú CulturalHAUSER, Arnold (1972-82). História Social da Literatura e da Arte. São Paulo: Mestre Jou, Vol. I. pp. 471-72
Historicamente, o Maneirismo vinha sendo considerado como a fase final e decadente do grande ciclo renascentista, mas hoje é reconhecido como um estilo autônomo e com valor próprio, e que já aponta para a arte moderna.TATARKIEWICZ, Władysław. History of Aesthetics. Continuum International Publishing Group, 2006. p. 152 O crescente prestígio da interpretação do Maneirismo como um estilo por seu próprio direito é reforçado pela tendência da crítica mais atual de rever a aplicação do conceito de Renascimento para a arte europeia do século XVI, na constatação de que comparativamente pouco havia sido feito em linhas classicistas fora da Itália até a década de 1510-1520, quando o saque de Roma de 1527 assinala o fim do Renascimento como um movimento unificado e o início "oficial" do Maneirismo italiano. Embora a esta altura elementos classicistas já estivessem sendo cultivados em vários pontos da Europa, tanto através da influência italiana anterior como de forma independente, é então que eles se expandem de forma decisiva e consistente para além dos Alpes, mas vão encontrar arraigadas tradições góticas ainda em pleno vigor. Da fusão dessas correntes resulta uma diversidade de sínteses ecléticas, a que se atribuiu o nome genérico de Maneirismo internacional. Por outro lado, diversos autores preferem evitar o termo Maneirismo para descrever o fenômeno da difusão europeia do Classicismo e do Humanismo ao longo do século XVI e vê-lo ainda como uma expressão legítima do Renascimento, ou tendem a usá-lo apenas para classificar seletivamente grupos de artistas ou regiões específicas, postulando a coexistência de ambos os estilos nesse período. Outros ainda empregam a expressão "italianização da Europa" em vez de defini-lo através de conceitos estilísticos ainda imprecisos. O debate está longe de chegar a um consenso.Renaissance. Encyclopædia Britannica on lineUm resumo da discussão se encontra em SCHNOOR, Gustavo. Considerações sobre a arquitetura francesa dos séculos XVI e XVII. UFRJ, sd. BURKE, Peter. The Uses of Italy. In PORTER, Roy & TEICH, Mikuláš. The Renaissance in national context. Cambridge University Press, 1992. pp. 6-ss BOUCHER, Bruce. Time and Place: Jacob Burckhardt and the "Renaissance" north of the Alps. In KAUFMANN, Thomas DaCosta & PILIOD, Elisabeth. Time and Place: A Geohistory of Art. Ashgate Publishing, Ltd., 2005. pp. 1-ss
Contexto O ambiente que deu origem ao Maneirismo foi marcado por profundas mudanças na economia, na política, na cultura e na religião. Na política a invasão da península Itálica pela França, Espanha e estados da Alemanha entre o fim do século XV e o início do século XVI levou a uma radical alteração no equilíbrio de forças do continente, culminando no Saque de Roma de 1527, que foi um imenso choque, causando uma devastação que causou espanto mesmo para os padrões da época e levando a uma fuga de artistas e intelectuais para outras paragens. Neste período Maquiavel sintetiza em seu O Príncipe, publicado em 1532, as práticas políticas correntes, legitimando o uso da força para controle dos súditos e pregando uma moral dupla e um pragmatismo frio e inescrupuloso na administração pública, obra que teve enorme repercussão em sua época e cujo realismo político influiu até mesmo na condução do Concílio de Trento. A agitação da Reforma Protestante pôs um fim à primazia do Catolicismo e do Papado, mas logo em seguida nasceu a Contrarreforma, numa tentativa de refrear a evasão de fiéis para o lado Protestante e a perda de influência política da Igreja, ao mesmo tempo tentando moralizar os hábitos corruptos e materialistas do clero, estabelecendo uma nova abordagem do conceito de Deus e alterando a atmosfera de relativa liberdade de pensamento da fase anterior para uma de dúvida, ceticismo, austeridade e medo, com o aparecimento de várias seitas de revivalismo religioso e filosofias contestadoras, e a eclosão de guerras religiosas.HAUSER, Arnold (1972-82). pp. 483-489EDELMAN, Murray. From Art to Politics. University of Chicago Press, 1995. p. 20 TATARKIEWICZ, Władysław. pp. 151-152LOHR, Charles. The Sixteenth-Century Transformation of the Aristotelian Division of the Speculative Sciences. In KELLEY, Donald & POPKIN, Richard (eds). The Shapes of Knowledge from the Renaissance to the Enlightement. Springer, 1991. pp. 49-57 thumb|230px|Maarten van Heemskerck: O saque de Roma de 1527|esquerdaNa economia, a abertura de novas rotas comerciais em vista das grandes navegações deixou a Itália fora do centro do comércio internacional, deslocando o eixo econômico para as nações do oeste europeu. Portugal e Espanha erguiam-se como as novas potências navais, acompanhados pela França, Inglaterra e Países Baixos. O ouro e outras riquezas das colônias americanas, africanas e asiáticas afluíam para eles em uma quantidade inaudita, e sustentavam a sua ascensão política. Nos meios de produção surge a industrialização em larga escala, e as oficinas e manufaturas se fundem em companhias cada vez mais poderosas que auferem lucros fantásticos e são dirigidas por capitalistas que separam o comércio e a produção das operações financeiras puramente especulativas, para onde se desloca o peso maior da economia. As atividades primárias declinam em prestígio, as classes mais baixas perdem toda a segurança e, como esse contexto é instável, ocorrem bancarrotas nacionais na França (1557) e Espanha (1557 e 1575), com consequências sérias para grandes massas da população.HAUSER, Arnold (1972-82). pp. 490-492 thumb|esquerda|230px|Michelangelo: O Juízo Final, 1534-41. Capela Sistina
Em face a tantas e tão drásticas mudanças, a cultura italiana não obstante conseguiu manter seu prestígio internacional, e a espoliação de bens que a Itália sofreu pelas grandes potências no fundo serviu também para disseminar sua influência para os mais afastados recantos do continente. Mas a atmosfera cultural reinante já era completamente outra. A convocação do Concilio de Trento (1545 a 1563) levou ao fim a liberdade nas relações entre Igreja e arte, a teologia assume o controle e impõe restrições às excentricidades maneiristas em busca de uma recuperação do decoro, de uma maior compreensibilidade da arte pelo povo e de uma homogeneização do estilo, e desde então tudo devia ser submetido de antemão ao crivo dos censores, desde o tema, a forma de tratamento e até mesmo a escolha das cores e dos gestos dos personagens. Veronese é chamado pela Inquisição para justificar a presença de atores e bufões em sua Ceia em casa de Levi, os nus do Juízo Final de Michelangelo têm suas partes pudendas repintadas e cobertas de panos, e Vasari já se sente inseguro de trabalhar sem a presença de um dominicano ao seu lado. Apesar disso, a arte em si não foi posta em questão, e as novas regras se dirigiam mormente ao campo sacro, deixando o profano relativamente livre. De fato, antes do que suprimir a arte, a Igreja Católica a usou maciçamente para propagar a fé em sua nova formulação e estimular a piedade nos devotos, e ainda mais como um sinal distintivo em relação aos Protestantes, já que Lutero não via qualquer arte com bons olhos e condenava as representações sagradas como idolatria. Variantes do Luteranismo como o Calvinismo foram ainda mais rigorosas em sua aversão à arte sacra, dando origem a episódios de iconoclastia.HAUSER, Arnold (1972-82). pp. 490-4BAILEY, Gauvin. Between Renaissance and Baroque: Jesuit Art in Rome, 1565-1610. University of Toronto Press, 2003. pp. 31; 265
O resultado disso tudo foi um grande conflito espiritual e estético, tão bem expresso pela arte ambivalente, polimorfa e agitada do período: se por um lado a tradição clássica, secular e pagã, não podia ser ignorada e continuava viva, por outro a nova ideia de religião e suas consequências para a sociedade como um todo destruiu a autoconfiança e o prestígio dos artistas como criadores independentes e autoconscientes, que foram conquistados a duras penas havia tão pouco tempo, e também revolucionou toda a estrutura antiga de relações entre o artista e os seus patronos e o seu público, sem haver ainda um substituto consolidado, tranquilo e consensual. A saída para uns foi se encaminhar para o puro esteticismo, para outros foi a fuga e o abandono da arte, para outros foi a aceitação simples do conflito como não resolvido, deixando-o visível em sua produção, e é nesse conflito entre a consciência individual do artista e as forças externas que demandam atitudes pré-estabelecidas que o Maneirismo aparece como o primeiro estilo de arte moderna e o primeiro a levantar a questão epistemológica na arte. A pressão deve ter sido imensa, pois, como diz novamente Hauser, thumb|220px|Rafael: Casamento da Virgem, 1504. Uma obra típica da Alta Renascença. Pinacoteca de Brera
"Despedaçados por um lado pela força e por outro pela liberdade, (os artistas) ficaram sem defesa contra o caos que ameaçava destruir toda ordem do mundo intelectual. Neles encontramos, pela primeira vez, o artista moderno, com o seu interior, o seu gosto pela vida e pela fuga, o seu tradicionalismo e a sua rebelião, o seu subjetivismo exibicionista e a reserva com que tenta readquirir o último segredo de sua personalidade. De então em diante, o número de maníacos, excêntricos e psicopatas, entre os artistas, aumenta de dia para dia".HAUSER, Arnold (1972-82). p. 505
Murray Edelman complementa a ideia dizendo que: