A Cruzada Popular ou Cruzada dos Mendigos foi um movimento extraoficial da Primeira Cruzada. Uma peregrinação que reflectiu o misticismo da época, teve o seu início em 1095. Depois do Concílio de Clermont, o papa Urbano II planeou a partida da Cruzada dos Nobres, composta de homens de armas, para 15 de Agosto de 1096, no dia santo da Assunção de Maria.
Mas meses antes desta cruzada "oficial", um vasto número de plebeus e cavaleiros de baixa estirpe organizou-se para partir para a Terra Santa de forma independente. Liderados pelo monge Pedro o Eremita e pelo cavaleiro Gualtério Sem-Haveres, cerca de 40 000 peregrinos da Europa ocidental tentaram libertar a cidade de Jerusalém do domínio muçulmano, mas seriam mortos ainda na Anatólia em Outubro de 1096.
Pregação da cruzada Durante o Concílio de Placência de 1095, ao receber um apelo de ajuda do imperador bizantino Aleixo I Comneno para a luta contra os turcos, o papa Urbano II viu uma hipótese para acabar com o Grande Cisma do Oriente e reunir a Igreja cristã sob o domínio papal. A 27 de Novembro foi reunido o Concílio de Clermont, no qual o papa exortou a sua audiência a tirar o controle de Jerusalém das mãos dos muçulmanos, prometendo que quem morresse na Terra Santa ou a caminho dela, ganharia o seu lugar no Paraíso - isto é, a indulgência plena. A multidão reunida foi tomada de um tal entusiasmo frenético que interrompeu o seu discurso gritando «Deus o quer!» (em latim: Deus vult!), frase que seria repetida por toda a Europa. Durante 1095 e 1096, Urbano continuou a pregar a cruzada pela França e incentivou os seus bispos e legados a fazerem o mesmo nas suas dioceses da França, Germânia, e Itália.
Europeus de todas as camadas sociais coseram uma cruz vermelha nas suas roupas, o que lhes deu mais tarde o seu nome de cruzados. O entusiasmo era tal que muitos venderam ou hipotecaram todos os seus bens para obter as armas e o dinheiro necessários para a expedição. Nobreza e o povo comum procedente da França, do sul da Itália e das regiões da Lorena, Borgonha e Flandres, rapidamente formaram cruzadas separadas.
Depois de vários anos em que fora vítima de secas, fome e pestes, parte do povo da cruzada teria visto a expedição como uma fuga a este sofrimento. Por coincidência, desde o início de 1095 ocorriam fenómenos naturais que pareciam às pessoas da época serem sinais de uma bênção divina: uma chuva de meteoros, auroras boreais, um eclipse lunar e a passagem de um cometa, entre outros eventos.
thumb|esquerda|250px|Pedro o Eremita prega a cruzada ao povo (ilustração de Gustave Doré, século XIX)
Um surto de ergotismo, que geralmente propiciava peregrinações em massa, ocorrera pouco antes do Concílio de Clermont. O milenarismo, a ideia da iminência do fim do mundo popularizada no final do século X e início do século XI, ganharam popularidade. Deste modo, a resposta ao apelo do papado ultrapassou as expectativas: Urbano teria contado em reunir alguns milhares de cavaleiros, mas a empresa tornou-se numa migração de mais de 40 000 pessoas.
O papa ainda tentou proibir algumas pessoas (como mulheres, monges e os doentes) de participar na cruzada, mas isto revelou-se impossível. O apelo tivera sido tão forte que a maioria dos que tomaram a cruz não foram os nobres, mas sim o povo pobre e mal preparado para a guerra, numa expedição que incluía mulheres e crianças, apoiados numa forte fé em Deus e na salvação das suas almas.
O monge Pedro o Eremita de Amiens foi um dos mais carismáticos entusiastas da expedição, pregando a cruzada pelo norte da França e pela Flandres. Afirmava ter sido convocado a pregar por Cristo (teria supostamente uma carta divina para o provar) e é provável que alguns dos seus seguidores pensassem que ele, não Urbano, era o verdadeiro criador do ideal da cruzada. Alberto de Aquisgrão também relata os casos de populares acreditarem que uma cabra e um ganso teriam recebido o Espírito Santo, e assim seguiram sob a liderança destes animais.
Travessia da Europa Geralmente o exército de Pedro o Eremita tem sido visto como um grupo de camponeses analfabetos e incompetentes sem ideia de para onde estavam a viajar, e que acreditavam que cada cidade de determinado tamanho que foram encontrando pelo caminho era Jerusalém; apesar de isto poder ser a realidade para uma proporção destes peregrinos, a já longa tradição de peregrinações à Terra Santa nesta época assegurava que muitos deveriam conhecer bem a localização e a distância até Jerusalém.
thumb|350px|O monge Pedro o Eremita em cruzada, montado em um burro (iluminura francesa, c.1270
E enquanto a maioria do grupo não seria composta de guerreiros, alguns dos líderes da expedição eram cavaleiros de baixa estirpe, treinados nas artes bélicas, tais como o futuro cronista Fulquério de Chartres. Gualtério Sem-Haveres, tal como indica o seu nome, era um cavaleiro pobre, sem haveres (bens), suserano ou vassalos, mas com experiência de combate.
Sem disciplina militar, e nas terras estranhas da Europa de Leste, em pouco tempo estes primeiros cruzados entrariam em conflito com os nativos das nações, ainda cristãs, por onde passaram. Juntamente com as diferenças culturais, o problema principal da Cruzada Popular foi a falta de planejamento. Tinham saído da Europa Ocidental antes das colheitas da Primavera, depois de anos de seca e de más safras.
Agora era necessário alimentar uma expedição de milhares de pessoas e, uma vez que estas se viam como peregrinos a realizar a vontade de Deus, esperavam que as cidades por onde passavam lhes fornecessem alimentos e outros suprimentos de que necessitassem, ou pelo menos que os vendessem a um preço que os cruzados considerassem justo.
thumb|esquerda|200px|Mapa de 1890 mostrando a proximidade de Semlin a Belgrado através dos rios Sava e Danúbio
Gualtério Sem-Haveres Pedro o Eremita juntou o seu exército em Colónia a 12 de Abril de 1096, planejando parar nessa cidade para pregar aos germânicos e obter mais cruzados. Mas o contingente franco não estava disposto a aguardar pela chegada destes.
thumb|Recepção de Gualtério Sem-Haveres pelo rei da Hungria, que o permitiu atravessar o território de seu reino com os cruzados.
Sob a liderança de Gualtério Sem-Haveres, alguns milhares partiram antes de o Eremita. Chegaram à Hungria a 8 de Maio, atravessaram este território sem incidentes e alcançaram o rio Sava na fronteira do Império Bizantino em Belgrado.
Surpreendido pela chegada desta grande massa humana e sem ordens sob como proceder, o comandante da cidade recusou a entrada aos cruzados, forçando-os a pilhar os terrenos ao redor para obterem alimentos, o que resultou em escaramuças com os soldados bizantinos.
Em um incidente particularmente marcante, dezasseis homens de Gualtério tentaram pilhar um mercado em Semlin, na outra margem do rio Danúbio - os dezasseis cruzados foram despojados das suas armaduras e roupas, que foram penduradas como aviso nas muralhas do castelo.
Eventualmente foi-lhes permitida a passagem até Niš, onde as forças imperiais lhes forneceram alimentos, aguardando ordens de Constantinopla. Seria apenas no final do mês de Julho que alcançariam esta cidade, e sob escolta bizantina.
Pedro, o Eremita thumb|221x221px|Pedro o Eremita a liderar os cruzados (iluminura medieval)
Pedro o Eremita manteve-se como o principal líder espiritual do movimento, caracteristicamente montado em um burro e vestido em roupas simples. Seguido por 40 000 cruzados, partiu de Colónia a 20 de Abril - o grupo de germânicos sob o conde Emico de Flonheim partiu pouco depois. Ao chegarem às margens do rio Danúbio, parte do exército decidiu descer o rio por barco, enquanto a maioria continuou por terra, entrando na Hungria em Ödenburg. Atravessaram este país sem incidentes até se reunirem ao contingente da viagem fluvial em Semlin.
thumb|left|A Batalha de Niš (1096).
Os cruzados foram recebidos nesta cidade fronteiriça do Império Bizantino, pela visão das dezasseis armaduras do grupo de Gualtério Sem-Haveres penduradas nas muralhas. Eventualmente uma disputa sobre o preço de um par de sapatos no mercado levou a um motim, que rapidamente se tornou num ataque à cidade pelos cruzados (provavelmente contra a vontade de Pedro), no qual 4 000 húngaros perderam a vida.
Ao fugirem, atravessando o rio Sava, os ocidentais chegaram a Belgrado, lutando contra as tropas da cidade. Os residentes fugiram e os cruzados pilharam e incendiaram Belgrado, e depois marcharam durante sete dias até chegar a Niš, a 3 de Julho. O comandante desta cidade prometeu fornecer alimentos e uma escolta para os peregrinos até Constantinopla, se estes partissem imediatamente.
Pedro o Eremita partiu na manhã seguinte, mas alguns germânicos entraram em uma nova disputa com os locais na estrada e incendiaram um moinho. O conflito escalou até ao ponto de Niš enviar toda a sua guarnição contra os cruzados. O resultado foi a completa derrota do exército peregrino, que perdeu cerca de 10 000 cruzados, cerca de um quarto do seu total. Depois de se reagruparem em Bela Palanka (na Sérvia), chegaram a Sófia a 12 de Julho. Lá encontraram a escolta bizantina que os conduziria em segurança até Constantinopla, onde chegaram a 1 de Agosto.
Perseguição a judeus A Primeira Cruzada desencadeou uma longa tradição de violência organizada contra os judeus, apesar de há séculos existir antissemitismo na Europa. Primeiro na França e depois no Sacro Império Romano-Germânico, alguns líderes interpretaram que a guerra contra os infiéis podia ser aplicável não só aos muçulmanos no Levante - os judeus, vistos como os assassinos de Jesus Cristo, estavam presentes na maioria das comunidades europeias. Muitos cristãos não viam motivo para viajar milhares de quilômetros para lutar contra os inimigos do cristianismo, quando estes estavam à porta de suas casas.
Também é possível que estas perseguições tenham sido motivadas pela necessidade de dinheiro. As comunidades judaicas da Renânia eram relativamente abastadas, devido ao seu isolamento e por não estarem sujeitas à lei papal que proibia a agiotagem. Muitos cruzados tinham sido forçados a vender as suas posses e a colocar-se a eles mesmos e até aos seus familiares em dívida, de modo a poderem comprar armas e outro equipamento necessário para a expedição. Ao terem de entrar em dívida (muitas vezes para com os judeus) como consequência de pegarem em armas contra os inimigos da cristandade, muitos convenientemente racionalizaram a matança de judeus como uma extensão da sua missão de fé.
No passado, mesmo durante o ponto alto do milenarismo, vários movimentos antissemíticos populares, ou comandados por nobres e reis (como as conversões forçadas por Roberto II de França, Ricardo II da Normandia e Henrique II da Germânia no início do século XI), tinham sido travados pelo papado ou pelos bispos locais. Mas agora o zelo da Cruzada tornava a situação mais difícil de controlar. Em 1095 comunidades judaicas foram atacadas na França e na Renânia, e alguns judeus fugiram para leste para escapar à perseguição. Apesar de o papado acabar por pregar contra a purga de habitantes muçulmanos e judeus, este cenário repetir-se-ia inúmeras vezes durante o período das cruzadas.
O cronista franco Sigeberto de Gembloux escreveu que, para se fazer uma guerra em nome de Deus, era essencial que os judeus se convertessem; os que resistissem seriam privados dos seus bens, massacrados e expulsos das cidades. O nobre cruzado Godofredo de Bulhão chegou a jurar partir na expedição só após vingar o sangue de Cristo crucificado, derramando sangue judeu e erradicando a presença deste povo. Depois de informado disto pelo líder da comunidade judaica de Mogúncia, o imperador Henrique IV da Germânia proibiu esta acção. Godofredo acabou por negar ter a intenção de matar os judeus, mas as comunidades de Mogúncia e Colónia tinham-lhe enviado um tributo de 500 marcos de prata.