O interculturalismo, ou interculturalidade, refere-se ao apoio à interação do diálogo intercultural e às tendências de autossegregação desafiadoras dentro das culturas. O interculturalismo envolve também ir além da mera aceitação passiva de um facto multicultural de múltiplas culturas efectivamente existentes numa sociedade e, em vez disso, promove o diálogo e a interacção entre as culturas.
A expressão também define um movimento que tem como ponto de partida o respeito pelas outras culturas, superando as falhas de relativismo cultural, ao defender o encontro, em pé de igualdade, entre todas elas.
O interculturalismo propõem-se a promover os seguintes objetivos:
Compreender a natureza pluralista da nossa sociedade e do nosso mundo; Promover o diálogo entre as culturas; Compreender a complexidade e riqueza das relações entre diferentes culturas, tanto no plano individual como no comunitário; Colaborar na busca de respostas aos problemas mundiais que se colocam nos âmbitos sociais, económicos, políticos e ecológicos.
Dado que não se pode considerar que qualquer cultura tenha atingido o seu total desenvolvimento, o diálogo entre os povos de diferentes culturas é o meio de possibilitar o enriquecimento mútuo de todas elas. O interculturalismo propõe, assim, que se aprenda a conviver num mundo pluralista e se respeite e defenda a humanidade no seu conjunto.
É necessário a existência de valores interculturais para podermos viver em conjunto, isto é, chegarmos a consenso e a um conjunto de valores universalmente respeitados, tais como a tolerância, a aceitação e o respeito mútuos.
Seus opositores defendem que, quando adotado na prática, o interculturalismo pode ser danoso às sociedades e particularmente nocivo às culturas nativas.
Origem do termo O conceito de interculturalidade, ou interculturalismo, surge a partir do campo das ciências sociais, sendo derivado de outro conceito, o de cultura. O conceito é criado por antropólogos pós segunda guerra, no contexto do processo de descolonização dos continentes africano e asiático, e do reconhecimento da diversidade cultural advinda dos processos migratórios dos países de independência recente para a Europa, provocando assim uma transformação demográfica e cultural.
No contexto da América Latina, o termo interculturalidade passa a ser utilizado a partir da década de 1960 para se referir a miscigenação das culturas europeias colonizadoras aos traços culturais dos povos originários que sobreviveram ao processo de colonização, criando assim uma relação complexa e de tensão entre diferentes expressões culturais e visões de mundo. No contexto latino-americano, Luis Enrique López, sociolinguista peruano, se coloca como uma das principais referências sobre o tema, discutindo questões como a educação bilíngue para os povos originários, e as relações entre os diferentes povos e culturas que formaram a região.
Fundamentação teórica e significado aprofundado O Interculturalismo é uma abordagem que busca ativamente a interação, o diálogo e a construção mútua entre diferentes culturas, valorizando a diversidade e promovendo a transformação e enriquecimento recíproco das culturas envolvidas.
Os valores centrais da Interculturalidade variam dependendo da abordagem, seja funcional ou crítica. No entanto, a perspectiva da interculturalidade crítica, defendida por Catherine Walsh, se apoia em um conjunto de valores que visam a transformação social e a justiça.
Os valores centrais da interculturalidade crítica de Catherine Walsh são:
I. Justiça Epistêmica e Reconhecimento
O valor central é o reconhecimento de que todos os conhecimentos (saberes indígenas, ancestrais, populares) são válidos e devem ter paridade com o conhecimento ocidental.
Anticolonialidade do Saber: Combate a ideia de que o conhecimento europeu ou ocidental é o único universal e legítimo. Diálogo de Saberes: Não se trata apenas de "tolerar" a existência de outros saberes, mas de colocá-los em diálogo horizontal e igualitário, para que possam contribuir na resolução de problemas e na construção de um conhecimento mais plural e complexo.
II. Transformação Estrutural e Descolonização
A Interculturalidade Crítica baseia-se no valor da transformação social, buscando erradicar as raízes históricas da desigualdade.
Questionamento do Poder: Valoriza a crítica radical às estruturas sociais, políticas e econômicas que perpetuam a racialização e a subalternização de grupos, como os povos indígenas. In-surgir e Re-existir: Enfatiza o valor da ação política e da resistência ativa (o "in-surgir") contra a ordem estabelecida, afirmando o direito dos povos de re-existir com suas próprias identidades e projetos de vida.
III. Paridade de Participação e Equidade Social
Este valor está ligado à inclusão política e social, garantindo que a diferença cultural não seja uma causa de desigualdade.
Inclusão Genuína: Promove a participação plena de todos os grupos culturais na tomada de decisões e na esfera pública, eliminando as assimetrias de poder. Equidade: Vai além da mera igualdade formal perante a lei, buscando corrigir as desigualdades históricas e estruturais para que todos tenham condições reais de desenvolver-se.
IV. Bem-Viver (Viver Bem)
Este é um valor fundamental, particularmente na perspectiva Andina (e explorado por Walsh), que se apresenta como uma alternativa civilizatória ao modelo capitalista.
Harmonia: Valoriza o equilíbrio e a harmonia entre os seres humanos e entre os seres humanos e a natureza (Mãe Terra/Pachamama). Comunidade: Contrapõe o individualismo ocidental com o valor da vida comunitária, da solidariedade e da responsabilidade mútua.
Interculturalismo como Processo Ativo: A Perspectiva Crítica O Interculturalismo é um processo ativo em três dimensões principais:
Processo de Negociação e Conflito (Inter-relação)
A Interculturalidade ativa não pressupõe harmonia imediata; ela reconhece que o encontro cultural em sociedades marcadas pela colonialidade gera conflito e tensão.
Diálogo com Conflito: O processo ativo envolve o diálogo constante entre diferentes grupos, mas um diálogo que deve ser capaz de lidar com as diferenças de poder e as desigualdades. O conflito é visto como necessário para expor as assimetrias históricas. Luta pela Hegemonia: É a disputa pela definição das regras de convivência. É um processo ativo porque exige que os grupos subalternizados (como os povos indígenas) lutem ativamente para que suas culturas e cosmovisões sejam reconhecidas em pé de igualdade, em vez de serem meramente toleradas.
2. Processo de Transformação Estrutural (Político)
O Interculturalismo ativo é uma ferramenta para desmantelar o que Walsh chama de colonialidade do poder, do saber e do ser.
Não é Funcional: Se fosse passivo (Funcional), o processo se resumiria a adicionar a diversidade ao modelo existente (como uma política de cotas que não questiona o currículo eurocêntrico). Decolonial: O processo ativo é decolonial porque exige uma ação política radical voltada para a transformação das estruturas. Ele busca refundar as instituições, o Estado e os sistemas de conhecimento (Walsh, 2009). Pedagogia Ativa: A educação, nesse contexto, torna-se uma Pedagogia Decolonial – um ato político-pedagógico contínuo de "in-surgir, re-existir e re-viver", que desafia o status quo e constrói novos conhecimentos.
3. Processo de Construção de um "Lugar Outro" (Epistêmico)
O Interculturalismo ativo é um processo contínuo de criação de novas perspectivas e saberes.
Conhecimento em Movimento: o processo questiona a validade universal do conhecimento ocidental e exige que o conhecimento seja sempre contextualizado e plural. Reafirmação do Ser: É um processo ativo porque implica a reafirmação constante da identidade dos grupos oprimidos, recuperando a dignidade e a humanidade que foram negadas pela colonialidade do ser.
Detalhamento das Diferenças Interculturalismo vs. Multiculturalismo:
O filósofo e teórico cultural esloveno Slavoj Žižek tem uma postura crítica em relação ao Multiculturalismo. Ele não critica a diversidade em si, mas sim o modo como o Multiculturalismo funciona como uma ideologia que sustenta e mascara as relações de poder do capitalismo global
Em suma, a crítica de Žižek não é contra a diversidade, mas contra a ideologia multiculturalista que, segundo ele, é a forma perversa pela qual o neoliberalismo administra as diferenças para manter o status quo de dominação política e econômica. Ele concorda, implicitamente, com a Interculturalidade Crítica de Catherine Walsh ao exigir que o foco esteja na transformação radical das estruturas de poder (colonialidade/capitalismo), e não na mera celebração da superfície cultural.
Interculturalismo vs. Transculturalismo:
O filósofo alemão Wolfgang Welsch é o nome mais proeminente na teorização do conceito de Transculturalidade.
Welsch defende que a forma contemporânea das culturas não é mais a de esferas claramente delimitadas (como pressupõem o multiculturalismo e, em certa medida, o interculturalismo). Ele argumenta que, devido à globalização, à migração e às mídias de massa, as culturas de hoje estão profundamente interligadas e interpenetradas, gerando novas formas que são inerentemente híbridas e que transcendem as fronteiras nacionais e étnicas. Para ele, a transculturalidade descreve o estado atual das culturas, onde as linhas internas e externas estão borradas, e a identidade é composta por múltiplos elementos de diversas origens.
Interculturalismo vs. Intraculturalismo:
O autor que popularizou a distinção e o contraste entre Intraculturalismo e Interculturalismo (ou Interculturalidade), é o intelectual indiano Rustom Bharucha.
Bharucha, é frequentemente citado por definir os dois termos com base nas fronteiras e contextos em que as interações culturais ocorrem:
Interculturalismo: Preocupa-se com a negociação de diferenças culturais entre as fronteiras dos Estados-nação. Intraculturalismo: Preocupa-se com a negociação de diferenças culturais dentro das fronteiras dos Estados-nação ou dentro de uma mesma região geográfica maior. Bharucha começou a usar esse termo ao trabalhar em projetos na Índia, percebendo que as diferenças entre, por exemplo, Calcutá, Bombaim e Madras (cidades indianas) eram tão profundas e significativas quanto as diferenças entre países. O termo foca, portanto, nas diversidades e conflitos internos de uma nação ou de um grupo maior.
ConceitoFoco PrincipalNaturezaAutor(es) ChaveInterculturalismoInteração e Diálogo (o "Inter")Projeto Político/Crítico que visa a transformação estrutural (Walsh).Catherine WalshMulticulturalismoCoexistência e Reconhecimento (o "Multi")Ideologia Funcional/Liberal que mascara a exploração econômica e a desigualdade.Slavoj Žižek (Crítico)TransculturalismoFusão, Hibridização e Permeação (o "Trans")Descrição da Realidade das culturas interconectadas na globalização.Wolfgang WelschIntraculturalismoDiferenças e Conflitos Internos (o "Intra")Foco na Diversidade e negociação cultural dentro das fronteiras nacionais.Rustom Bharucha
Teóricos e Pesquisadores de Interculturalidade A interculturalidade é um assunto frequentemente discutido na literatura acadêmica, que tem ganhado interesse nacional e internacional à medida que o mundo se globaliza e os povos desejam compreender de que maneiras suas culturas se influenciaram no passado e como dialogam no presente. Nesse cenário de intercâmbios de saberes, tradições, costumes etc., as discussões interculturais adquirem relevância, sobretudo em regiões com forte apelo multicultural e nas quais por razões sócio-históricas, ocorreu em alguma escala, processos etnocêntricos, com repressão de grupos minoritários.