O baralho português tradicional possui 48 cartas e é derivado dos baralhos espanhóis, integrando a família dos baralhos latinos do sul da Europa. Foi utilizado em Portugal e em suas colónias, entre elas o Brasil, até ser gradualmente substituído pelo padrão francês no final do século XIX.

História

Os naipes e figuras adotados nos baralhos tradicionais dos países latinos, incluindo Portugal, derivam do italiano spada (espadas), coppa (copas), bastone (paus) e denaro (ouro). Um dos exemplares mais antigos que se conhece, datado de 1390, já apresenta a estrutura de naipes e a hierarquia de figuras (sota, cavaleiro e rei) que se manteria no modelo português.

Origens e as «cartas do dragão»

Serpes tradicionais ibéricas nos ases do baralho português.

A referência mais antiga que se conhece ao uso de cartas de jogar em Portugal remonta a 1490, período em que o país vivia o apogeu da sua expansão marítima pelo litoral africano, pela rota do Cabo até à Índia e, mais tarde, até ao Brasil. Tal como em outros países europeus, o jogo de cartas em Portugal esteve sujeito a proibições e restrições ao longo dos séculos.

Um grupo particular de cartas ibéricas antigas, com serpes (dragões) desenhadas nos ases, ficou conhecido como «cartas do dragão». Exemplares mais antigos desse tipo, produzidos em Espanha pelo cartista Francisco Flores, ainda sobrevivem; a técnica de fabrico empregada era também usada em Itália, e a forma e disposição dos símbolos dos naipes aproximam-se mais do modelo italiano do que do espanhol. Cartas deste tipo já foram encontradas tão distantes quanto os Países Baixos, Malta e o Peru, o que atesta o alcance das rotas comerciais e coloniais ibéricas. Através dessas mesmas rotas, o padrão de «cartas do dragão» também se difundiu para regiões como a Índia e o Japão, no final do século XV e início do XVI, para as ilhas Célebes, para a Indonésia e para o Brasil, influenciando o surgimento de variantes locais como as cartas conhecidas como Tensho karuta.

Monopólio do século XVII

Já no início do século XVII existia em Portugal um monopólio sobre o comércio de cartas de jogar. Nicolas de la Cattoir, também conhecido por De Locatori, livreiro em Lisboa entre cerca de 1615 e 1627, deteve os direitos exclusivos sobre as cartas de jogar, privilégio pelo qual pagava um arrendamento de 12 500 cruzados.

A Real Fábrica de Cartas de Jogar de Lisboa

Embora as cartas de jogar já circulassem em Portugal desde o século XV, a sua manufactura só teve início no país através do Alvará Régio de 31 de julho de 1769, por iniciativa do Marquês de Pombal, que criou a Real Fábrica de Cartas de Jogar de Lisboa — juntamente com uma fábrica de papel —, anexa à Impressão Régia. A fábrica, criada por carta régia do rei D. José I, foi dirigida pelo mestre genovês Lorenzo Solesio, irmão de Félix Solesio, responsável pela congénere espanhola instalada em Macharaviaya. Lorenzo obteve autorização para fabricar e vender cartas tanto em Portugal como nos territórios ultramarinos, isto é, incluindo o Brasil e as demais colónias, privilégio que vigorou até à extinção do monopólio em 1832. A documentação da fábrica distinguia três padrões de cartas fabricadas e distribuídas: as ditas «portuguezas», «castelhanas» e «francezas», cada qual seguindo a nomenclatura e os naipes de sua tradição nacional de origem. Um decreto real de 24 de dezembro de 1802 relativo à Impressão Régia veio ratificar a legislação anterior sobre o monopólio das cartas de jogar e atualizar as normas que regiam o setor. Em 1820, a Impressão Régia passou a designar-se Imprenta Nacional.

Difusão no Brasil e no Oriente

Antes mesmo da criação da Real Fábrica, o baralho português já circulava no Brasil, levado pelos navegadores portugueses. Ao longo do século XVIII, chegaram a surgir tentativas de fabrico local no Recife e no Rio de Janeiro, mas essas iniciativas eram confiscadas pelas autoridades por infringirem o monopólio da Coroa. Um decreto de 18 de maio de 1808 desferiu o primeiro golpe sério à produção da fábrica de Lisboa ao autorizar a instalação de uma fábrica semelhante no Brasil, para onde D. João VI e toda a corte portuguesa se haviam mudado, então sediados no Rio de Janeiro. Um decreto de maio de 1810 anunciou ainda aumentos de preço motivados pela escassez de papel, fazendo referência às cartas «espanholas», «francesas» e «portuguesas».

Declínio

A nacionalização da Real Fábrica marcou o início do fim de uma das manufacturas mais rentáveis de Portugal. O declínio não resultou diretamente da concorrência de outras fábricas, mas sobretudo da imposição do imposto do selo em 1832: enquanto fabricantes particulares conseguiam mais facilmente contornar essa exigência, a fábrica estatal não tinha como evitá-la, o que dificultou a sua competitividade no mercado. Em 1837 foi instalada uma máquina litográfica na Imprensa Nacional, que, até 1843, trabalhou exclusivamente na impressão de cartas de jogar. Ainda assim, em 1856 a então chamada Fábrica Nacional encerrou as suas portas, abrindo espaço para fabricantes belgas e de outras origens, que passaram a produzir «cartas do dragão» destinadas a Portugal e ao Brasil, bem como cartas de estilo holandês baseadas em modelos alemães. Ao longo dos seus quase 87 anos de existência, a fábrica lançou dezenas de baralhos diferentes; em 1834, por exemplo, produziu, entre outros, um baralho alusivo às quatro partes do mundo e as «Cartas Constitucionais» de Manuel Luís Rodrigues Viana, disponíveis em duas versões, somando ao todo 16 tipos distintos de baralho editados naquele ano. No final do século XIX, o baralho de padrão português foi perdendo espaço progressivamente para o baralho francês, hoje amplamente predominante tanto em Portugal quanto no Brasil.

Fabricantes

Entre os fabricantes portugueses de cartas de jogar historicamente documentados contam-se a Impressão Régia, a Germano & Ca (Lisboa), M. A. Beato, Justero Rodrigo, Costa & Valério, J. J. Nunes e a Litografia Maia, do Porto. No século XXI, o fabrico de cartas em Portugal encontra-se bastante reduzido face ao seu antigo prestígio, estando praticamente limitado à produção da Litografia Maia, do Porto.

Naipes

+ Naipes das cartas portuguesas Naipe Copas Ouros Paus Espadas

No baralho francês, os naipes distinguem-se pelas cores (pretos e vermelhos). No baralho português — tal como noutros baralhos latinos, como o espanhol e o italiano — a diferenciação não se faz pela cor, mas sim pelo tamanho dos símbolos: existem os curtos (copas e ouros) e os longos (paus e espadas).

Em termos simbólicos, cada naipe corresponde a uma dimensão da sociedade medieval (feudal):

Copas - simbolizado por taças ou cálices, que representam os oratores, religiosos, isto é, o clero; Espadas - simbolizado por espadas, que representam os bellatores, guerreiros e cavaleiros, a nobreza de origem feudal e militar; Ouros - simbolizado por moedas de ouro, geralmente decoradas com uma rosa heráldica (embora também possam exibir uma efígie, um escudo ou uma rosácea), que representam a burguesia urbana, composta por comerciantes e mestres de guildas; Paus - simbolizado por bastões de madeira, que representam os laboratores, servos, isto é, os camponeses e os trabalhadores das cidades.

Cartas portuguesas

Uma característica marcante é a presença de uma serpe, símbolo tradicional da heráldica ibérica, em cada um dos ases, facto este que deu a alcunha de Baralho do Dragão ao baralho português.

Há nas cartas portuguesas características comuns às cartas de baralhos italianos: presença de linha contínua nos quatro cantos das cartas e ausência de índices numéricos.

Nomenclatura Em contextos históricos e em jogos populares de língua portuguesa, as seis primeiras cartas numeradas também receberam designações próprias derivadas de numerais latinos: Ás (1), Duque (2), Terno (3), Quadra (4), Quina (5) e Sena (6).. O Sete também é chamado de Bisca. As demais seguem nomes comuns: Oito (8) e Nove (9).

As figuras do baralho português são: a Sota, que geralmente representa um escudeiro ou pajem, é uma figura feminina jovem, distinta da sota espanhola e do fante italiano, que são figuras masculinas; o Cavaleiro (também chamado de Conde ou Cavalo); o Rei.

Outras peculiaridades: o ás de paus é chamado de basto; o ás de espadas é chamado de espadilha.

Galeria

+ Baralho português (Real Fabrica, séc. XIX) Naipe Ás Duque(2) Terno(3) Quadra(4) Quina(5) Sena(6) Sete(Bisca) Oito Nove Sota(Dama) Cavalo Rei Copas Ouros Paus Espadas

Uso atual

Embora os baralhos com o desenho tradicional português já não circulem em Portugal e no Brasil, tendo sido substituídos pelos símbolos do baralho francês, os nomes tradicionais dos naipes — ouros, copas, espadas e paus — continuam em uso corrente em ambos os países, aplicados aos naipes franceses correspondentes (diamantes, corações, piques e trevos, respetivamente). Essa permanência lexical reflete a influência duradoura do padrão ibérico sobre a cultura popular dos jogos de cartas em língua portuguesa, mesmo após a mudança do desenho gráfico.

Jogos

Os seguintes jogos são tradicionais do baralho português: Bisca Sete-e-meio Sueca Três-setes

Ver também

Baralho espanhol Baralho italiano Baralho latino

Bibliografia

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