ARA Almirante Brown foi um ironclad de bateria central da marinha argentina, construído na década de 1880 pela construtora naval Samuda Brothers, em Londres. O Almirante Brown deslocava 4 200 toneladas longas (4 300 toneladas métricas) e atingia uma velocidade máxima de 14 nós (26 km/h; 16 mph). O navio era protegido por um cinturão de blindagem de aço com nove polegadas (230 mm) de espessura e estava armado com uma bateria principal composta por oito canhões de retrocarga. Foi um dos primeiros grandes navios de guerra do mundo a empregar blindagem de aço e permaneceu como a maior embarcação da frota argentina por mais de quinze anos. O Almirante Brown teve uma carreira pacífica na esquadra durante as décadas de 1880 e 1890. Na década de 1920, foi reclassificado como um navio de defesa costeira, permanecendo em serviço até o início da década de 1930. Foi oficialmente retirado do registro naval em novembro de 1932 e posteriormente vendido para demolição.
Projeto No final da década de 1860, a marinha argentina dispunha de poucos navios de guerra, mas o governo do presidente Domingo Faustino Sarmiento iniciou um modesto programa para reforçar a esquadra. No início da década de 1870, a frota adquiriu um par de pequenos monitores costeiros da classe El Plata, construídos na Grã-Bretanha, apropriados apenas para operações de defesa litorânea. O acirramento da rivalidade naval com o Chile, impulsionado pelos êxitos chilenos na Guerra do Pacífico iniciada em 1879, levou o governo argentino a decidir pela compra de um navio maior e mais poderoso, capaz de superar qualquer equivalente chileno. Em 1878, foi solicitado ao engenheiro William Henry White, então Subchefe Construtor da Marinha Britânica e renomado projetista de navios de guerra, um novo projeto para a armada argentina.
A aquisição do Almirante Brown desencadeou uma pequena corrida armamentista naval; sua incorporação levou a Marinha do Brasil (na época Armada Imperial Brasileira) a adquirir dois couraçados de maior porte, o Riachuelo e o Aquidabã. Estes, por sua vez, motivaram a Marinha dos Estados Unidos a encomendar seus primeiros navios modernos com casco de aço: os cruzadores protegidos Atlanta, Boston e Chicago, além do navio de despachos Dolphin. Pouco depois, seguiram-se o encouraçado Texas e o cruzador blindado Maine, sendo este último bastante semelhante ao Riachuelo.
Características gerais e propulsão thumb|esquerda|Plano de linhas do Almirante Brown O Almirante Brown media 240 pés (73 metros) entre perpendiculares, possuía uma boca de 50 pés (15 metros) e um calado de 20 pés e 6 polegadas (6,25 metros). Seu deslocamento máximo atingia 4 200 toneladas longas (4 300 toneladas métricas) em plena carga. Seu casco, construído em aço, era revestido por uma camada de teca com 3 polegadas (76 mm) de espessura, coberta por chapeamento de zinco, que servia para protegê-lo contra a incrustação biológica (biofouling) durante longos períodos sem docagem para limpeza; o acúmulo de organismos marinhos reduzia significativamente a velocidade do navio. O uso do aço em vez do ferro proporcionou uma redução considerável de peso, o que permitiu reforçar a blindagem e aumentar o calibre dos canhões, resultando em capacidades ofensivas e defensivas superiores às de couraçados maiores construídos em ferro. Caso o ferro tivesse sido utilizado, a embarcação teria sido cerca de mil toneladas mais pesada, o que exigiria motores mais potentes para manter a mesma velocidade.
O casco era subdividido em vários compartimentos estanques, possuía fundo duplo e uma proa dotada de esporão (ram bow). O navio era praticamente flush-decked, isto é, com o convés principal contínuo, apresentando apenas castelos elevados na proa e na popa. Sua superestrutura era mínima, composta essencialmente por uma pequena torre de comando. O navio era equipado com dois mastros de verga, cada um com topos de combate. A tripulação era composta por 520 oficiais e marinheiros.
Seu sistema propulsor consistia em duas máquinas a vapor compostas invertidas, que acionavam dois hélices. As máquinas foram fabricadas pela firma Maudslay, Sons and Field. O vapor era gerado por oito caldeiras tubulares de água a carvão, de forma cilíndrica. As caldeiras estavam distribuídas em quatro compartimentos estanques, enquanto cada máquina possuía sua sala de máquinas individual. Os gases das caldeiras eram expelidos por uma única chaminé, posicionada a meia-nau.
As máquinas desenvolviam 5 400 cavalos de potência indicada (4 mil kW), permitindo uma velocidade máxima de 14 nós (26 km/h). O Almirante Brown podia armazenar até 650 toneladas métricas (640 longas; 720 curtas) de carvão para as caldeiras. A uma velocidade de cruzeiro mais econômica, de 10 nós (19 km/h), o navio alcançava uma autonomia aproximada de 4 300 milhas náuticas (8 mil km). Para complementar a propulsão a vapor em viagens longas, o Almirante Brown dispunha de um aparelhamento vélico auxiliar, com uma área vélica total de 10 mil pés quadrados (930 m²).
Armamento e blindagem thumb|Plano de linhas mostrando o arranjo vélico e os arcos de tiro dos canhões da bateria principal O Almirante Brown estava equipado com uma bateria principal de oito canhões Armstrong BLR de 8 polegadas (203 mm), todos montados individualmente em casamatas. Seis desses canhões compunham a bateria central, enquanto os outros dois eram instalados à vante e à ré, servindo como canhões de perseguição (chase guns). A bateria central era disposta em contrafeito projetados para fora do casco, de modo a permitir que quatro canhões pudessem disparar diretamente à vante e dois à ré. Esses canhões de carregamento pela culatra representavam um avanço recente, tornando o Almirante Brown uma embarcação significativamente mais poderosa do que navios concluídos apenas alguns anos antes. A bateria central era protegida por chapas de blindagem pesada, enquanto os canhões de perseguição permaneciam sem qualquer proteção, exceto pelo delgado chapeamento do casco que envolvia suas posições. As peças disparavam projéteis de 180 libras (82 kg), utilizando uma carga propelente de 90 libras (41 kg). Esses projéteis eram capazes de penetrar 16 polegadas (410 mm) de blindagem de ferro forjado, o tipo de proteção presente na maioria dos couraçados estrangeiros então em serviço.
A embarcação também dispunha de uma bateria secundária de seis canhões de 4,7 polegadas (120 mm), igualmente montados individualmente em reparos giratórios (single pivot mounts), todos localizados no convés superior. Quatro ficavam à vante, e dois à ré, em ambos os bordos do canhão de 8 polegadas da popa. A defesa aproximada contra embarcações leves era assegurada por dois canhões de 9 libras e dois de 7 libras.
O navio era protegido por uma blindagem composta, com face de aço fabricada pela empresa alemã Siemens; um avanço tecnológico recente à época, que permitia redução significativa de peso. A blindagem era reforçada internamente por tábuas de teca, fixadas com parafusos pelo interior, de modo a preservar a superfície externa uniforme das chapas. A espessura média do revestimento de teca era de 10 polegadas (254 mm).
O cinturão blindado principal estendia-se de 3 pés (0,91 m) acima da linha d’água até 4 pés (1,2 m) abaixo, com 120 pés (37 m) de comprimento. Acima da linha d’água, o cinturão possuía 9 polegadas (229 mm) de espessura na cidadela central, protegendo os compartimentos de máquinas e os paióis de munição. Essa espessura era reduzida para 7,5 polegadas (191 mm) nas extremidades. Abaixo da linha d’água, a blindagem era reduzida para 6 polegadas (152 mm) na seção central e 1,5 polegada (38 mm) nas extremidades do casco. A cidadela central era fechada por anteparas transversais com espessura variando entre 5,5 e 7,5 polegadas (140 a 190 mm).
Acima do cinturão principal, duas faixas de blindagem adicional protegiam a bateria central. A faixa inferior tinha 8 polegadas de aço, enquanto a superior era ligeiramente reduzida para 6 polegadas. Sobre a bateria central, o convés blindado tinha 0,625 polegada (15,9 mm) de espessura. Nas extremidades da cidadela, um convés blindado curvo, com espessura variando de 1,25 a 1,5 polegada (32 a 38 mm), proporcionava proteção adicional contra fogo inimigo. Ao longo do navio, a proteção interna era reforçada por carvoeiras laterais, que aumentavam a resistência à penetração de projéteis inimigos nas áreas vitais. A torre de comando (conning tower) também possuía blindagem de 8 polegadas (203 mm).
Serviço thumb|Ironclad ARA Almirante Brown e cruzador ARA Patria no Rio de Janeiro Em 1878, a Argentina iniciou negociações na Grã-Bretanha para adquirir um novo navio-capitânia de longo alcance para sua marinha, que até então era composta apenas por forças costeiras e fluviais, centradas nos dois pequenos monitores da classe El Plata. O Almirante Brown, primeiro grande ironclad da marinha argentina, foi encomendado ao estaleiro Samuda Brothers, de Londres. Foi lançado ao mar em 6 de outubro de 1880 e recebeu o nome do almirante William Brown, um irlandês que serviu na marinha argentina entre 1814 e 1845. O navio custou ao governo argentino £270.000. Em 14 de junho de 1881, realizou provas de velocidade no Maplin Mile, alcançando sua velocidade projetada de 14 nós à plena potência. Em meados de agosto, ainda na Grã-Bretanha, o navio realizou testes de tiro para verificar a segurança das novas cargas de pólvora, concluídos sem incidentes. Após sua entrega à Argentina, tornou-se a maior embarcação da esquadra nacional, permanecendo nessa condição até a aquisição dos quatro cruzadores couraçados da classe Garibaldi, no final da década de 1890.
O ironclad esteve presente nas cerimônias de inauguração do dique sul do porto de Buenos Aires, em 28 de janeiro de 1889. Em 13 de julho de 1892, chegou a ser dado como perdido em uma tempestade que afundou o torpedeiro Rosales. O cruzador protegido Veinticinco de Mayo também foi dado como desaparecido, embora ambos tenham sobrevivido. No ano seguinte, Almirante Brown, juntamente com a maior parte das unidades pesadas da marinha argentina, participou da repressão às revoltas navais durante a Revolução de 1893, ocasião em que o couraçado bombardeou e inutilizou o torpedeiro rebelde Murature nas proximidades da ilha Martín García.
Em 1897, o navio entrou em docagem no estaleiro de La Seyne, em Toulon, para modernização. Seus canhões principais foram substituídos por dez peças Canet de 150 mm (5,9 pol.) de tiro rápido e 50 calibres, seis no lugar da bateria central e quatro em pares na proa e na popa. Os antigos canhões de 4,7 pol. também foram substituídos por modelos modernos de tiro rápido. O efetivo foi reduzido para 380 oficiais e marinheiros. Em 1901, o navio encontrava-se em reserva em Río Santiago, mas foi reativado naquele mesmo ano para um cruzeiro de instrução a Bahía Blanca. Em 15 de outubro de 1904, o Almirante Brown recebeu a visita do ministro da Marinha, Juan A. Martín, acompanhado de uma delegação de oficiais navais estrangeiros, incluindo o contra-almirante francês Ensor Chadwick, da Marinha dos Estados Unidos. Martín os recebeu em nome do novo governo, chefiado pelo presidente Manuel Quintana, recém-empossado.
Durante a década de 1920, o Almirante Brown havia sido rebaixado a navio de defesa costeira e de instrução, tendo-se tornado obsoleto diante dos novos couraçados do tipo dreadnought Moreno e Rivadavia. Em 17 de dezembro de 1921, tripulantes do navio desembarcaram em Mata Tapera e derrotaram um grupo de cerca de 250 bandoleiros. A embarcação permaneceu em serviço até o início da década de 1930. Em 17 de novembro de 1932, o Almirante Brown foi retirado do registro naval e, posteriormente, desincorporado.
Ver também Corrida armamentista naval da América do Sul
Bibliografia
Leitura adicional
Ligações externas
Categoria:Navios de 1880 Categoria:Navios construídos na Inglaterra Categoria:Ironclads da Armada Argentina