thumb|Abertura da Missa Pastoril para a Noite de Natal, do padre José Maurício Nunes Garcia Revivalismo da música antiga no Brasil refere-se à prática, realizada no Brasil, de resgate da música nacional ou internacional cuja tradição interpretativa foi perdida.

Um interesse pela música de épocas passadas foi mantido por algumas orquestras brasileiras fundadas ainda no tempo colonial, mas o alcance da sua atividade foi muito limitado. Enquanto na Europa um movimento consistente começou a surgir no início do século XIX, no Brasil somente mais de século depois o movimento começou a se articular em uma escala significativa, e hoje é bastante expressivo, mas ainda enfrenta muitas dificuldades devido a recursos escassos e ao número relativamente pequeno de pesquisadores e músicos profissionais com preparo especializado, comparativamente aos dedicados à música mais recente. No entanto, o campo está em expansão.

Antecedentes

O resgate e cultivo de música de eras passadas por muito tempo não parece ter sido uma prática generalizada no Ocidente. Salvo em pequenos círculos com interesses antiquariais, e, dentro de certos limites, no ambiente religioso, tipicamente conservador, a música em geral era produzida para consumo imediato, e em pouco tempo era esquecida, suplantada pela contínua produção de material novo.

Um interesse mais definido pela música antiga começou a se espalhar em escala mais ampla entre o fim do século XVIII e o início do século XIX, em parte pela consolidação da História como uma ciência, e em parte pelo surgimento do movimento cultural do Romantismo, que deu grande atenção aos folclores regionais e estimulou um intenso amor pelo medievalismo, no qual identificava elementos de pureza e autenticidade que, para os românticos, haviam se perdido. No campo musical propriamente dito, a Musicologia também começava a se valer de um método científico, e uma série de mudanças no estilo, nas ideias sobre estética, na notação musical, no instrumental, nos sistemas de afinação, no ensino e nas práticas de execução levaram à formação de uma linguagem musical nova, consistentemente homogênea e pancontinental, cuja tradição se perpetua até hoje sem interrupção. Praticamente todas as outras tradições mais antigas foram ultrapassadas e esquecidas mais ou menos completamente ao longo desse processo.Harnoncourt, Nikolaus. O Discurso dos Sons: Caminhos para uma nova compreensão musical. Zahar, 1988, pp. 13-48Haskell, Harry. The Early Music Revival: A History. Courier Corporation, 1996, pp. 9-29 thumb|left|Gravura mostrando o Festival Haendel no Crystal Palace de Londres, 1857, com a plateia lotada

Em 1829, incentivado por seu professor Carl Zelter, Felix Mendelssohn executou em Berlim a Paixão segundo São Mateus de Bach, que foi um enorme sucesso de público, sendo considerado em geral o principal marco fundador do movimento de revivalismo musical. Nesta época era extremamente limitado o repertório pré-clássico que ainda continuava circulando. A partir da iniciativa de Mendelssohn, em pouco tempo formaram-se grupos em vários países interessados em pesquisar e ressuscitar o acervo musical do passado, e concertos "históricos" em breve se tornavam uma moda. Porém, a pesquisa estava apenas iniciando, e mesmo para os especialistas era difícil entender e apreciar peças cujas sonoridades e estruturas que lhes pareciam primitivas, ingênuas, rudes, bárbaras ou simplesmente absurdas, consideradas interessantes antes pelo seu valor histórico do que pelo musical e estético, tornando-se habitual executá-las em arranjos novos e instrumentos modernos, conformes aos padrões desta época, deturpando profundamente sua sonoridade e o impacto que exerciam originalmente. Pensava-se que a história das artes havia sido em geral um progresso contínuo sempre para um estado superior e melhor, e ainda não se formara um entendimento de que cada época tem princípios artísticos autônomos e legítimos, e que a música do passado, por mais estranha que pudesse parecer, fazia sentido naqueles outros contextos e não precisava ser atualizada ou "melhorada".Andréo, Bianca Ruzzene; Nogueira, Lenita Waldige Mendes; Reily, Suzel Ana. "Música antiga hoje: a terceira geração no contexto de bares e feiras medievais". In: XXXII Congresso da ANPPOM. Natal, 2022

Mesmo assim, o movimento ganhou receptividade, e serviu para trazer novamente para as salas de concertos uma massa de composições que jaziam esquecidas há séculos. As pesquisas foram se multiplicando, assim como o gosto do público foi paulatinamente educado para a apreciação dessa música. As duas guerras mundiais acarretaram muitos problemas para a continuidade dos trabalhos, e neste período o movimento sofreu uma retração, mas depois foi retomado com renovado entusiasmo, quando os critérios de análise e reconstrução usados na primeira metade do século XX foram reavaliados e considerados já obsoletos. Desde então, com a adoção sistemática de um instrumental típico da época das composições, e com notáveis progressos em uma variedade de recursos auxiliares para a pesquisa musicológica, tanto teóricos como historiográficos, técnicos, tecnológicos, científicos e metodológicos, o entendimento dos estilos e modos interpretativos do passado aprofundou-se enormemente, passando por uma verdadeira revolução, e fazendo o revivalismo da música pré-clássica crescer de forma exponencial.Stevens, Denis. "Authenticity and Early Music a Symposium. Edited by NICHOLAS KEMON Oxford University Press Oxford 1988 £25 (paperback, £8 95) / The Early Music Revival a History. HARRY HASKELL Thames and Hudson. London, 1988 £15 95". Resenha. In: Early Music, ago/1989Kenyon, Nicholas. "Bach to the future: how period performers revolutionised classical music". The Guardian, 01/11/2019 Hoje é um dos campos mais ativos e comercialmente bem sucedidos em todo o universo da música erudita contemporânea.Bowan, Kate. "R. G. Collingwood, Historical Reenactment and the Earoly Music Revival". In: Pickering, Paul A. & MaCalman, Iain (eds.). Historical Reenactment: From Realism to the Affective Turn. Palgrave Macmillan, 2010, pp. 134-158Lieberman, Carol. "Back to the future: Postmodernism and the early music revival". In: The European Legacy — Toward New Paradigms, 1997; 2 (1)Wilson, Nick. The Art of Re-enchantment: Making Early Music in the Modern Age. Oxford University Press, 2014, pp. x-xi; 3

Parâmetros

A definição do que seja a "música antiga" é controversa e depende de variáveis locais. Geralmente é considerada a música pré-clássica (da Antiguidade, medieval, renascentista e barroca),Costa, Aline Azevedo. Memória, Música, Museu: Reflexões sobre Música Antiga entre o Templo das Musas e o Museu-Acontecimento. Universidade Federal de Minas Gerais, 2014, p. 13 mas desde a década de 1970 vários estudiosos têm colocado também a música clássica e os primeiros românticos como objeto de uma revisão nos critérios com que são interpretados atualmente.Rubinoff, Kailan R. "Orchestrating the early music revival: The Dutch baroque orchestras and the mediation of commodification and counterculture". In: Tijdschrift Van De Koninklijke Vereniging Voor Nederlandse Muziekgeschiedenis, 2013; 63 (1/2): 169–188Grossmann, Cesar Marino Villavicencio. A Flauta Doce Historicamente Informada. In: OuvirOuVer, 2011; 7 (2) — Dossiê Investigações em Artes O revivalismo dessa música divide-se em duas grandes correntes: uma emprega critérios modernos ou ainda dependentes da escola romântica para executar músicas de épocas pregressas, uma opção que pode produzir resultados sedutores e eficientes musicalmente, mas inaceitáveis em termos de autenticidade histórica. Esta vertente foi a prática dominante até meados do século XX e ainda é muito influente. A outra corrente objetiva recuperar com a maior precisão possível modos e estilos interpretativos consistentes com as práticas da época das composições, mas enfrenta o sério problema da inexistência de uma tradição interpretativa ininterrupta, tendo que se valer de hipóteses e informações fragmentárias ou indiretas oriundas de tratados musicais antigos, literatura, relatos descritivos, iconografia e tradições orais. O estudo das correntes de pensamento da época, dos modos de vida, das outras formas de arte, das crenças e dos valores dominantes nas antigas sociedades, também são de grande valor para uma melhor compreensão dos tempos distantes e, por conseguinte, para subsidiar a execução da sua música.

A recuperação da música antiga, em uma ou outra abordagem, exige sempre estabelecer prioridades — aceitar algumas coisas e deixar outras de lado —, mas não se pode pretender que haja uma solução ideal ou definitiva. O revivalismo é uma construção e uma interpretação, consciente e deliberada, do presente sobre o passado, e não uma verdadeira ressurreição do passado, o campo está em permanente evolução, as gravações documentam uma contínua modificação nos resultados obtidos para as mesmas peças, mesmo quando a interpretação é historicamente informada, e esses resultados estão intimamente vinculados às ideias que cada época ou grupo tem sobre o passado, sobre a cultura, sobre a arte, a beleza, a harmonia e a autenticidade, uma relação volátil, impermanente e em grande parte subjetiva. Interessa centralmente para os músicos encontrar uma forma de criar uma verdadeira comunicação com um público geralmente leigo que vive imerso em um oceano de referências culturais completamente diferentes, e não deixá-lo apenas diante de uma vitrine de formas, sons e estilos exóticos e curiosos. Em outras palavras, é preciso que o resgate do passado tenha um significado para o presente.Costa, pp. 54-69

Brasil: primeiros tempos

A música de tradição ocidental iniciou no Brasil somente depois do Descobrimento, mas quase toda música produzida no período colonial foi perdida e só é conhecida por relatos literários, que atestam a existência de uma intensa atividade compositiva e prática, mas não dão muitas informações específicas. O acervo musical sobrevivente em sua esmagadora maioria data da segunda metade do século XVIII em diante, quando o estilo Barroco estava cedendo lugar para o Classicismo.Duprat, Régis. "O Barroco Musical no Brasil". In: Tirapeli, Percival. Arte sacra colonial: barroco memória viva. UNESP, 2005, pp. 230-234Anzai, Roberto Sussumo & Castagna, Paulo. "Opção ou desconhecimento? Aspectos investigativos sobre a interpretação da música vocal no Brasil entre a segunda metade do século XVIII e a primeira metade do século XIX do ponto de vista do registro fonográfico entre 1957 e 2005". In: Anais do XVII Congresso da ANPPOM. São Paulo, 2007 No entanto, as especificidades da situação nacional colocam na categoria de música antiga também a música do século XIX. Brandão, Domingos Sávio Lins; Azevedo, Aline; Pantoja, João Lucas de Oliveira. "Prática de Música Antiga em Belo Horizonte: Estudo a partir dos documentos de gênero textual do Arquivo Georges e Ana Maria". In: Anais do II Encontro de Musicologia Histórica do Campo das Vertentes: Arquivos, Técnicas e Ferramentas do Estudo Documental. São João del-Rei, 2018 p. 40