A crise da vassoura-de-bruxa no sul da Bahia foi o colapso da cacauicultura baiana desencadeado pela chegada, em 1989, do fungo Moniliophthora perniciosa (então classificado como Crinipellis perniciosa), agente da vassoura-de-bruxa, à principal região produtora de cacau do Brasil. Em pouco mais de uma década, a doença atingiu a quase totalidade da área cultivada, reduziu drasticamente a produção nacional e transformou o Brasil, até então um dos maiores exportadores mundiais, em importador líquido do produto.

Esse fungo ataca as folhas das árvores e leva a uma queda na produção, que diminuiu de 400 mil toneladas para 98 mil toneladas em 2000, ficando atrás da produção amazônica.Brainer, Simone de Castro Pereira. "Produção de Cacau". In: Caderno Setorial ETENE, 2021; 6 (149) O resultado da praga foi o desemprego de cerca de 200 mil pessoas, êxodo rural, degradação dos recursos naturais, desvalorização das terras, endividamento dos produtores e empobrecimento da população.Franco, Gustavo Barreto et al. "Aspectos demográficos e socioeconômicos dos municípios inseridos na Bacia do Rio Almada - BA: reflexos da crise cacaueira". In: Caminhos da Geografia, 2016; 17 (60) A Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (CEPLAC) promoveu estratégias baseadas em quatro tipos de controle da praga. No controle genético, as plantas clonadas são mais resistentes à vassoura-de-bruxa. Especialistas indicavam que a baixa variabilidade genética das árvores tornou-as vulneráveis à praga.

O modo como o patógeno chegou ao sul da Bahia nunca foi estabelecido. A distância de cerca de dois mil quilômetros em relação à área endêmica amazônica e o padrão de surgimento dos primeiros focos deram origem a diferentes explicações, que incluem a introdução acidental por produtores com lavouras nas duas regiões e a introdução deliberada por sabotagem estrangeira, crime de vingança ou motivação política. Também surgiram outras pragas: o "mal do facão", causado pelo fungo Ceratocystis cacaofunesta, o ácaro da gema"Brasil quer ampliar em 60 mil toneladas a produção de amêndoas de cacau em 4 anos". Globo Rural, 26/03/2021 e a "podridão parda", causada pelo fungo Phytophthora palmivora, que ataca os frutos. A situação desse setor econômico se tornou crítica, piorada com a grande expansão da cacauicultura na Ásia e grande queda nos preços internacionais.

A cacauicultura estava no declínio de seu segundo ciclo econômico exportador quando se instalou a crise da vassoura-de-bruxa, somando os efeitos.Marinho, Pedro Lopes. "O Estado e a Economia Cacaueira da Bahia". In: Anais do Congresso Brasileiro de História Econômica. Ilhéus, 2008 Reivindicações de lideranças regionais persistiram por mais de duas décadas em favor de programa governamental de reabilitação do cultivo de cacau no sul da Bahia. Apesar da crise, a Bahia perdeu o posto de maior estado produtor apenas em 2017, para o Pará, e desde então ambos os estados dividem esse protagonismo, sendo que a Bahia é caracterizada pela produção em grandes fazendas e o Pará, por lavouras comparativamente menores e ligadas à agricultura familiar e ao cooperativismo.

Contexto

O cacau é originário da Amazônia e a cacauicultura brasileira passou por dois ciclos econômicos de exportação. O primeiro ciclo foi simultâneo ao ciclo da borracha e foi abalado pelo cultivo iniciado na colônia britânica da Costa do Ouro. O segundo ciclo decorreu de programas governamentais de incentivos à economia de exportação cacaueira, como a criação do Instituto de Cacau da Bahia (ICB) em 1931 pelo governo da Bahia. A criação da Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (CEPLAC) pelo governo federal do Brasil na década de 1960 apontou novo declínio em que a criação da CEPLAC não foi suficiente diante dos cultivos de milho, soja, trigo e cítricos, que assumiram o centro das prioridades político-econômicas. No cenário baiano, o cacau também não era mais uma fonte relevante de recursos, o que teria levado ao governo baiano e ao senador Antônio Carlos Magalhães a não se interessar de modo efetivo quanto ao declínio.

Assim, ao longo do século XX, o sul da Bahia foi o centro da produção brasileira de cacau. No fim da década de 1980, o país produzia cerca de 400 mil toneladas anuais, atrás apenas da Costa do Marfim, e a cultura sustentava uma economia regional próspera e uma elite rural politicamente influente, os chamados "coronéis do cacau". O cultivo predominante era o sistema cabruca, em que o cacaueiro cresce sob a sombra da Mata Atlântica remanescente.

A vassoura-de-bruxa é causada pelo basidiomiceto Moniliophthora perniciosa, originário da bacia amazônica, onde coevoluiu com o cacaueiro. O fungo infecta tecidos em crescimento e provoca a proliferação de ramos deformados — as "vassouras" — além de afetar flores e frutos. Em condições favoráveis ao seu desenvolvimento, pode provocar perdas severas em plantações de cacau.

O risco de introdução da doença a partir da Amazônia já era objeto de vigilância fitossanitária antes do aparecimento dos primeiros focos na Bahia. Em 1978, o Ministério da Agricultura criou a Campanha Contra a Entrada de Vassoura-de-Bruxa (Cavab), que mantinha barreiras para controlar o transporte de material vegetal da Amazônia para a Bahia, o Espírito Santo e outras áreas produtoras ainda livres da doença. A fiscalização abrangia aeroportos, rodoviárias e postos interestaduais; entre 1988 e 1989, uma carga de amêndoas de cacau procedente de Rondônia chegou a ser apreendida e destruída em Senhor do Bonfim. A partir da década de 2000, pesquisas sobre M. perniciosa passaram a incluir estudos de genética e genômica. O genoma do fungo foi sequenciado em 2008, e seu DNA mitocondrial também foi descrito no mesmo período.

Cronologia miniatura|Plantação de cacau em Ilhéus, 2006

22 de maio de 1989 — registro do primeiro foco no sul da Bahia, na fazenda Conjunto Santana, em Uruçuca, pertencente a Francisco Lima Filho, então presidente local da União Democrática Ruralista (UDR). 1989-1990 — surgimento de novos focos em pontos distantes entre si; segundo relatos e documentos divulgados posteriormente, técnicos teriam encontrado ramos infectados amarrados a troncos de cacaueiros. Década de 1990 — disseminação para praticamente toda a região produtora e queda acentuada da produção. Junho de 2006 — publicação pela revista Veja de reportagem com o relato de Luiz Henrique Franco Timóteo, ex-técnico da CEPLAC, que se declarou participante da disseminação. 2006 — depoimentos à Polícia Federal e à CPI do Cacau da Assembleia Legislativa da Bahia; pessoas citadas no relato negaram as imputações. 2006 — arquivamento do inquérito da Polícia Federal, sem indiciados, com base na prescrição. 2011 — encerramento da apuração administrativa da CGU, que alegou a impossibilidade de investigar fatos ocorridos duas décadas antes. 2012 — lançamento do documentário O Nó – Ato Humano Deliberado, financiado por produtores de cacau, que retomou a hipótese de introdução criminosa.

Causas aventadas miniatura|Mapa da produção mundial de cacau em 2012 miniatura|Cogumelo Moniliophthora pernicios; os esporos que provocam a doença da vassoura-de-bruxa são liberados pelo basidiocarpo em forma de leque Em 2013, dois pesquisadores das áreas de geografia e sociologia publicaram na revista científica Geoforum um estudo que reuniu e discutiu as principais explicações propostas para a chegada da vassoura-de-bruxa ao sul da Bahia.

Uma das explicações atribui a chegada do fungo ao trânsito de pessoas, material vegetal e equipamentos entre a Amazônia e a Bahia. Muitos cacauicultores baianos haviam investido em lavouras na Amazônia na década de 1980, o que tornava plausível o transporte involuntário de material infectado. Produtores também responsabilizaram a CEPLAC por falhas de fiscalização fitossanitária e pela ausência de genótipos resistentes que antecipassem a vulnerabilidade da região.

Outra explicação aventada, sobretudo nos primeiros anos após o aparecimento da doença, foi a possibilidade de sabotagem por países produtores concorrentes, entre eles a Costa do Marfim. Em 2006, o superintendente da CEPLAC, Geraldo Dantas Landim, afirmou à CPI do Cacau que não havia registros de vassoura-de-bruxa no continente africano.

Maior repercussão política alcançou a tese de que a introdução teria sido deliberada e motivada pelo objetivo de enfraquecer econômica e politicamente os grandes produtores de cacau da região. Essa interpretação ganhou maior repercussão a partir de 2006, quando uma denúncia publicada pela revista Veja, baseada no relato de um ex-técnico da CEPLAC, passou a atribuir a introdução a militantes do Partido dos Trabalhadores (PT), em uma suposta ação denominada "Operação Cruzeiro do Sul". A hipótese teve forte repercussão no debate político regional e passou a ser descrita na imprensa como "bioterrorismo" ou "agroterrorismo".

A denúncia foi feita pelo administrador de empresas e ex-técnico da CEPLAC Luiz Henrique Franco Timóteo, que declarou-se arrependido e afirmou ter participado da disseminação deliberada da praga, em depoimento à Polícia Federal e à CPI do Cacau em 2006, dezessete anos após o primeiro foco. Conforme seu relato, em 1987 teria ocorrido uma reunião em um bar e churrascaria em Itabuna, com de oito a dez participantes ligados à CEPLAC e, segundo ele, filiados ao PT — entre os quais Geraldo Simões, Wellington Duarte, Elieser Corrêa, Everaldo Anunciação e Jonas Nascimento. Na reunião, teria sido decidida a introdução da praga para enfraquecer econômica e politicamente os grandes produtores e abrir espaço eleitoral ao partido.

Ainda segundo seu relato, ele teria então buscado ramos infectados em Rondônia e transportado o material de ônibus a partir de Ilhéus, em viagens repetidas até 1992. Também afirmou que os ramos eram amarrados a cacaueiros em fazendas politicamente influentes, com as ações realizadas nos fins de semana e o uso de um veículo da CEPLAC. O depoimento incluía outras acusações, entre elas uma suposta tentativa de introduzir a doença na Costa do Marfim em 1993 e o furto de uma máquina off-set da CEPLAC. Timóteo declarou não dispor de provas para essas acusações e afirmou ter destruído a documentação que possuíra.

O nome "Operação Cruzeiro do Sul" não aparece nos documentos citados sobre a investigação e provém do relato de Timóteo. Em dezembro de 2006, dois técnicos da CEPLAC, Jonas Nascimento e Everaldo Anunciação, além do chefe do centro de extensão do órgão, Elieser Barros Correia, negaram participação e declararam à CPI não conhecer pessoalmente o denunciante. Correia afirmou ter sido informado pelo agricultor Luciano Thomas de que, cerca de oito meses antes da publicação da reportagem, o ex-coordenador da CEPLAC Carlos Viana teria dito estar preparando uma ação contra o PT na região, em reunião da qual Timóteo teria participado.

A denúncia também foi confrontada, ainda em 2006, com estudos sobre a diversidade genética do fungo. Em reportagem publicada por A Tarde, o geneticista Gonçalo Pereira, da Universidade Estadual de Campinas, afirmou que análises então disponíveis haviam identificado duas variedades do patógeno no sul da Bahia, em contraste com a grande diversidade encontrada na Amazônia. Segundo ele, "a chance de alguém ter pegado fungos de várias localidades, em períodos diferentes, e apenas dois terem se desenvolvido é praticamente nula", o que tornava altamente improvável a versão de Timóteo de que ramos infectados teriam sido coletados repetidamente, ao longo de vários anos, em diferentes localidades de Rondônia. O pesquisador Antônio Figueira, da Universidade de São Paulo, observou na mesma reportagem que os esporos não suportariam naturalmente o transporte por distâncias tão longas, o que indicava que a chegada do fungo à Bahia dependera de transporte humano. A interpretação dos dados genéticos, contudo, não era consensual entre os especialistas consultados à época.