O Jardim das Delícias Terrenas é um tríptico de Hieronymus Bosch, que descreve a história do Mundo a partir da criação, apresentando o Jardim do Éden na asa lateral esquerda e o Inferno na asa lateral direita. Ao centro aparece um Bosch que celebra os prazeres da carne, com participantes desinibidos, sem sentimento de culpa. A obra expõe ainda símbolos e atividades sexuais com vividez. Especula-se sobre seus financiadores, que poderiam ser adeptos do amor livre, já que parece improvável que alguma igreja tradicional a tenha encomendado.
Ligada à "utopia" por um lado, mas representando o lugar da vida humana por outro, Bosch revela uma atualidade do seu tempo, dado que essa vida está entre o paraíso e o inferno como se conta no Génesis. O tríptico, quando fechado, tem uma citação transcrita desse livro "Ele mesmo ordenou e tudo foi criado". Entre o bem e o mal está o pecado, preposição cristã. No jardim, painel central, estão representações da luxúria, mensagem de fragilidade nas envolvências do vidro e das flores, refletem um carácter efémero da vida, passagem etérea do gozo, do prazer.
Enquanto "utopia", porque transcreve de modo imaginário na imagem um "real", que mais se aproxima do surreal, e representa, mesmo que toda a sociedade e a cultura ocidental esteja marcada por essa estrutura, uma história “utópica” do seu tempo. Entre um “bem” e um “mal” está a vida e o pecado, de certo foi aplicado, mas no início seria apenas uma projeção.
História do tríptico miniaturadaimagem|Homem-Árvore, c. 1470. O "Homem-Árvore" do painel direito, retratado em um desenho anterior de Bosch. Esta versão em caneta e bistre não contém nenhuma sugestão do Inferno, mas seu contorno foi adaptado em um dos grotescos mais memoráveis do Jardim, por Hieronymus Bosch Como o restante das obras de Bosch, carece de datação unânime entre os especialistas, sendo esta uma das de mais enfrentadas posições, pois enquanto uns a consideram juvenil, outros dizem que é obra de maturidade. Baldass e outros a situam na época juvenil de Bosch (1485). Cinotti a situa por volta de 1503. Outras fontes a situam por volta de 1510.M. Wundram, «O Pré-Renascimento» em Os mestres da pintura ocidental, Taschen, 2005, , pág. 135. Tolnay e Larsen situam-na afinal da atividade de Bosch (1514–1515). As análises dendrocronológicos datam-na depois de 1466. O catálogo da exposição sobre o artista celebrada em Roterdã em 2001 assinala a data entre 1480 e 1490.
A partir de Gibson e até a atualidade (Hans Belting, 2002) conjeturou-se que fora realizada para Henrique III de Nassau. Os primeiros possuidores da obra foram, pois, os membros da casa de Nassau, em cujo palácio de Bruxelas pôde ver o quadro o primeiro biógrafo de Bosch, Antônio de Beatis, personagem que viajava no séquito do cardeal de Aragão, em 1517. Sua descrição não deixa lugar a dúvidas de que se encontra frente ao famoso trítico: «Depois há algumas tábuas com diversas bizarrias, onde se imitam mares, céus, florestas e campos e muitas outras coisas, uns que saem de uma concha marinha, outros que defecam grous, homens e mulheres, brancos e pretos em atos e maneiras diferentes, pássaros, animais de todas as classes e realizados com muito naturalismo, coisas tão prazenteiras e fantásticas que em jeito algum se poderiam descrever àqueles que não as tiverem visto».
Foi herdado pelo seu filho René de Châlon e depois pelo sobrinho de Henrique, Guilherme I, Príncipe de Orange, líder da rebelião holandesa contra a coroa dos Habsburgo. Foi confiscado pelo duque de Alba, incluindo-se no inventário redigido com tal motivo a 20 de Janeiro de 1568. O duque deixou os quadros a D. Fernando, seu filho natural e prior da ordem de São João.
Foi comprada por Filipe II na leilão dos bens de Dom Fernando, e enviada para o mosteiro do Escorial em 8 de Julho de 1593.«Bosco», Los grandes genios del arte, n.º 25, Eileen Romano (dir.), Unidad Editorial, S.A., 2005, . Colocou-se no dormitório do rei, onde esteve até sua morte. É a pintura mais famosa da coleção de nove de Hieronymus Bosch que Filipe II reuniu em El Escorial.José Pijoán, «Jerónimo Bosch» em Summa Artis, Antología V, Espasa, , pág. 136.
A princípio ao quadro denominou-se Uma pintura sobre a variedade do mundo. Logo, o "Quadro das fresas", denominação que se deve ao monge do Escorial José de Sigüenza, o primeiro crítico da obra. Poleró, que propõe em 1912 uma catalogação das obras do Museu do Prado, denomina o trítico Dos deleites carnais. De aí sai a sua denominação atual de "Jardim das delícias" ou "Das delícias terrenas". Foi transladado ao Museu do Prado em 1936 para a sua proteção devido à Guerra civil espanhola. Depois da guerra, por desejo de Franco entrou a fazer parte das coleções do Prado.
Análise do tríptico Trítico fechado thumb|250px|O trítico fechado: A Criação do mundo, óleo sobre tábua, 220 x 195 cm. O quadro fechado na sua parte exterior alude ao terceiro dia da criação do mundo. Representa um globo terráqueo, com a Terra dentro de uma esfera transparente, símbolo, segundo Tolnay, da fragilidade do universo. Há apenas formas vegetais e minerais, não há animais nem pessoas. Está pintado em tons grises, branco e preto, o que se corresponde a um mundo sem o Sol nem a Lua embora também seja uma forma de conseguir um dramático contraste com o colorido interior, entre um mundo antes do homem e outro povoado por infinidade de seres (Belting.
Tradicionalmente, a imagem que amostra o trítico fechado interpretou-se como o terceiro dia da criação. O número três era considerado um número completo, perfeito, já que em si mesmo encerra o princípio e o fim. E aqui, ao se fechar, transforma-se, no número um, no círculo: de novo nos permite vislumbrar a perfeição absoluta e, talvez, a trindade divina. No canto superior esquerdo aparece uma pequena imagem de Deus, com uma tiara e a Bíblia sobre os joelhos. Na parte superior pode-se ler a frase, extraída do salmo 33, IPSE DIXIT ET FACTA S(OU)NT / IPSE MAN(N)DAVIT ET CREATA S(OU)NT, que significa "Ele o diz, e todo foi feito. Ele o mandou, e tudo foi criado". Outros interpretam que pudera representar a Terra após o dilúvio.
Trítico aberto Ao abrir-se, o trítico apresenta, no painel esquerdo, uma imagem do paraíso onde se representa o último dia da criação, com Eva e Adão, e no painel central representa a loucura solta: a luxúria. Nesta tábua central aparece o ato sexual e é onde se descobrem todos os prazeres carnais, que são a prova de que o homem perdera a graça. Por último temos a tábua da direita onde se representa a condenação no inferno; nela o pintor mostra um palco apoteótico e cruel, no qual o ser humano é condenado pelo seu pecado.
A estrutura da obra, em si, também conta com um enquadre simbólico: ao abrir-se, realmente fecha-se simbolicamente, porque no seu conteúdo está o princípio e o fim humano. O princípio na primeira tábua, que representa o Gênesis e o Paraíso, e o fim na terceira, que representa o Inferno.
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Painel esquerdo: O jardim do Éden thumb|150px|Detalhe do Jardim do Éden, Deus e Eva. O postigo da esquerda representa o Paraíso terreno. Mede 220 centímetros de alto por 97,5 cm. de largo. Ao fundo pode ver-se a Fonte da Vida. Em primeiro plano há uma cena totalmente atípica, já que não representa nem a criação de Eva da costela de Adão, também não o jeito de comportar-se no jardim, nem a reconvenção que segue à expulsão do paraíso, os únicos temas relatados na Gênesis em relação a este episódio. Nesta curiosa e original cena aparecem Deus, Eva e Adão. Adão está desperto, o que somente aparece em miniaturas, e Deus está-lhe a apresentar a Eva, recém criada. Deus está representado de uma maneira antiquada para os tempos de Bosch: como Jesus Cristo. Eva encontra-se ajoelhada no chão e toma da mão a Deus. Adão, deitado, olha para a futura pecadora. Junto ao primeiro homem e a primeira mulher aparece a "Árvore do bem e do mal" (uma palmeira) já que ao redor dela se envolve a serpente tentadora e a "Árvore da vida" (um exótico dragoeiro). Dado que no seguinte painel é representado um mundo luxurioso, esta tábua foi interpretada como o prelúdio do que depois acontecerá.
No que à primeira vista parece o típico Éden, associado à ideia de paz e sossego, com pouco que a observarmos, esse idílico palco vê-se truncado. Vários signos de fustigação irrompem, os animais enfrentam-se uns a outros: um leão derruba um cervo e dispõe-se para comê-lo, um estranho bípede é perseguido por um javali. No tanque, as disputas entre os animais voltam: um leopardo leva na boca um lagarto, uma ave devora uma rã. São sinais alheios à paz paradisíaca que costumam ser interpretados como aviso de pecado.
O pecado feminino é personificado nos bichinhos que se arrastam pela terra (insetos e répteis) ou nadam pela água (anfíbios e peixes), já que, dos Quatro elementos (terra, água, fogo e ar), a terra e a água eram consideradas essências passivas cheias de fecundidade que, como a mulher, recebem a semente. O pecado masculino é representado pelas alimárias que voam (insetos voadores, aves, morcegos…), já que o ar é considerado um elemento ativo, associado ao fogo e oposto à terra, pelo tanto, masculino.
thumb|right|Rocha antropomorfa.
O demônio está escondido nos tanques e as rochas que são, para Bosch, a guarida dos espíritos malignos. Por exemplo, na fonte da vida vemos uma estrutura entre mineral e orgânica, com um orifício pelo qual assoma uma coruja, um explícito símbolo da malícia, que também aparece em "O carro de feno". Cabe a possibilidade de este elemento arquitetônico, similar a uma flecha de uma catedral, no centro do quadro, ser um símbolo fálico preconizador dos prazeres da carne da tábua central. À sua direita, uma rocha cuja forma é o rosto oculto do Diabo, do qual surge a serpente, enroscada na Árvore da fruta proibida. Os estranhos contornos desses montes rochosos do fundo indicam uma possível perturbação da pacífica convivência.
Aparecem na obra animais reais, mas extremamente exóticos, à época de Bosch, como girafas, elefantes, leões, leopardos, quando África era praticamente desconhecida na Europa. O autor somente pôde ter referência dessas bestas através dos "Bestiários mitológicos" medievais (que sem dúvida superou com acréscimos) e os desenhos que começavam a circular graças à imprensa, sobretudo os que tinham o Egito como tema principal.
A obra apresenta um intenso e variado cromatismo. Predominam os verdes e o azul intenso do fundo, que contrastam com o manto vermelho de Deus e a brancura dos corpos de Adão e Eva.
Painel central: O jardim das delícias terrenas thumb|160px|Detalhe. A tábua central é o Jardim das Delícias Terrenas, propriamente dito; mede 220 cm de alto por 195 de largo. Um falso paraíso no qual a humanidade já sucumbiu em pleno ao pecado, especialmente à luxúria, e dirige-se à sua perdição. Dezenas de símbolos diferentes, cujas chaves só podem ser suspeitas, povoam este espaço opressivo e angustioso no qual a loucura se apoderou do mundo. Aparecem tanto homens como mulheres, brancos e pretos, despidos. Mostram-se todo tipo de relações sexuais e cenas eróticas, nomeadamente heterossexuais, mas também homossexuais e onanistas. Além disso, aparecem também relações eróticas ou sexuais entre animais, e mesmo entre plantas.
A parte inferior da tábua está dominada por numerosos nus, em grupos ou em casais, com estranhas plantas, minerais e conchas ou comendo grandes frutos. Todas as frutas (cerejas, framboesas, fresas, uvas, medronheiros, etc.), são uma clara alusão aos prazeres sexuais. Mas, ao mesmo tempo, as frutas simbolizam a fugacidade de tal prazer, pois passam em uns dias da frescura à putrefação. Sobretudo à esquerda há pássaros de grandes proporções. Estas aves, como o pisco-de-peito-ruivo são também símbolos eróticos, em concreto da lascívia.