O termo bukelismo é utilizado informalmente para descrever a orientação e as políticas públicas implementadas pelo governo de Nayib Bukele na república de El Salvador. Diversos veículos de comunicação, analistas e atores políticos empregam esse termo para se referir a um modelo que combina autoritarismo, uma postura heterodoxa em relação à política econômica e uma rejeição acentuada à divisão tradicional entre capitalismo e socialismo em favor do personalismo eleitoral.
Definição e origens O termo bukelismo começou a surgir na cobertura midiática de El Salvador algum tempo após a apresentação do Plan Control Territorial (PCT ou "Plano de Controle Territorial") — uma das estratégias iniciais de segurança da gestão Bukele —, que visava reduzir os altos índices de criminalidade que assolavam o país no início de seu mandato.
À medida que outras ações foram implementadas – tais como a introdução do bitcoin como um ativo estatal e a imposição de um estado de exceção em nome da segurança pública – observadores externos e internos começaram a descrever estas iniciativas como uma doutrina política em formação. Na atualidade, embora hoje esteja ideologicamente alinhado às pautas da extrema-direita, o bukelismo já foi comparado ao peronismo, corrente política argentina capaz de abrigar em seus quadros desde neoliberais até esquerdistas.
O bukelismo também se utiliza de quatro estratégias do autoritarismo clássico, descritas por Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, para a tomada e consolidação do poder numa democracia: rejeição, por palavras ou ações, das regras do jogo democrático; negação da legitimidade de opositores políticos; tolerância e/ou encorajamento da violência; e predisposição para cercear liberdades civis de opositores, incluindo da imprensa.
Deve-se ressaltar que, numa sondagem pós-reeleição de Bukele em 2024, 42% dos salvadorenhos entrevistados afirmaram "não saber o que é a democracia", e apenas 9,6% a definiram como "poder eleger governantes".
Aspectos do bukelismo miniatura|Populares na posse de Bukele, junho de 2024. Dentre as características apontadas no bukelismo, analistas e pesquisadores ressaltam as seguintes:
Autoritarismo Muito mais do que uma defesa do "estado forte" ou dos "interesses nacionais", como alegam seus apoiadores, o bukelismo seria principalmente a manifestação da vontade do governante e a criação de uma estratégia de comunicação voltada para a sua autopromoção. O próprio Bukele conduziu uma alteração na Constituição de El Salvador, aprovada por juízes do Tribunal Superior Eleitoral salvadorenho, leais a ele, o que lhe permitiu se candidatar à reeleição, algo vetado no país desde o fim da ditadura militar. Às críticas de que isso seria "inconstitucional e autoritário", Bukele respondeu com ironia, afirmando ser o "ditador mais legal do mundo" e que não lhe importava ser chamado de ditador se isso evitasse que matassem "salvadorenhos nas ruas".
O bukelismo faz uso intensivo de redes sociais e estratégias de marketing digital para direcionar a opinião pública a seu favor e das políticas que deseja implementar. No caso específico de Nayib Bukele, muito auxiliou na definição da sua estratégia política o fato de ter começado a trabalhar aos 18 anos na Obermet, agência de publicidade de seu pai, o empresário Bukele Kattán, e onde começou a dirigir campanhas publicitárias eleitorais em 2004. Curiosamente, a agência produziu durante muitos anos a propaganda política da Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional (FMLN), histórico partido da esquerda salvadorenha. E foi justamente pela FMLN que Nayib Bukele conquistou seu primeiro cargo público, elegendo-se prefeito de Nuevo Cuscatlán (2012-2015), e posteriormente, de San Salvador (2015-2018).
Ao ser reeleito em 2024, Bukele afirmou que não pretendia concorrer a um terceiro mandato, por ter feito "um acordo" com a esposa. Todavia, em 12 de julho de 2026, o partido Nuevas Ideas anunciou que o presidente iria sim, se candidatar ao cargo em fevereiro de 2027, após ser confirmado como pré-candidato "em eleições internas nas quais ele concorreu sozinho". Com a destituição de juízes da Suprema Corte e emendas constitucionais aprovadas em julho de 2025, ficou extinto o segundo turno das eleições, e um terceiro mandato ou mesmo a reeleição indefinida passaram a ser permitidos, o que ressalta o controle de Bukele sobre o legislativo e a "maioria das instituições do país": reeleito com 82,66% dos votos em 2024 (embora a abstenção tenha sido de 47,4% do eleitorado), aliados de Bukele conquistaram 57 cadeiras das 60 do parlamento salvadorenho, transformando a oposição ao seu governo em mera peça decorativa.
Ademais, opositores do regime tem sido perseguidos e presos, como no caso de Ruth López, advogada de uma ONG que "investigava supostos casos de corrupção estatal" e que atuava na defesa de venezuelanos deportados pelo governo Trump para El Salvador. Bukele ironizou as críticas recebidas, dizendo que "qualquer opositor corrupto levado para a prisão é um perseguido político. Trabalhar em uma ONG agora é sinônimo de impunidade". Outro opositor, Fidel Zavala, líder da Unidade de Defesa dos Direitos Humanos e Comunitários (UNIDEHC), foi preso em fevereiro de 2025 sob a acusação de ter vínculos com gangues. Um ex-assessor de Bukele, Alejandro Muyshondt, preso em agosto de 2023 sob acusações de espionagem depois de acusar publicamente membros do governo salvadorenho de corrupção e ligações com o narcotráfico, morreu na prisão em 7 de fevereiro de 2024. Segundo a advogada da família de Muyshondt, o corpo apresentava "diversas contusões", e que isso seria "evidência de que ele foi torturado de alguma forma".
Antipolítica O bukelismo se vende como "antissistema" e fora (ou acima) do debate ideológico ("não acredito em ideologias", diz o próprio Bukele). Todavia, políticos que se identificam com o bukelismo e suas práticas, estão majoritariamente à direita (ou extrema-direita) do espectro político, como Javier Milei, Donald Trump, Jair Bolsonaro e seus filhos, Flávio e Eduardo, além de apoiadores, como Nikolas Ferreira.
Ainda nesse âmbito, o discurso bukelista também incorporou outro tema caro à direita "antipolítica", o "combate à corrupção". Após "vencer a guerra" contra as maras (gangues), seu próximo passo agora seria atacar a corrupção em El Salvador. Como afirmou num discurso em maio de 2026, "há roubos, contrabando, sonegação fiscal, corrupção. Há fraudes, poluição ambiental, por parte de pessoas e por parte de empresas, e isso nós não erradicamos. Esse será o próximo passo". E, da mesma forma que em casos de políticos que se utilizam da retórica anticorrupção, o bukelismo tem sido acusado de envolvimento em escândalos de corrupção em El Salvador, os quais incluiriam familiares do presidente e o próprio Nayib Bukele.
O bukelismo também nega legitimidade a interlocutores da sociedade civil, cujo reconhecimento tácito faz parte do jogo democrático. Tentativas de diálogo sobre segurança pública efetuadas tanto pela Anistia Internacional quanto pela Human Rights Watch, foram respondidas por Bukele com "agressões e ataques nas redes sociais" ou com insultos feitos por funcionários do seu governo. Críticas feitas por organizações de direitos humanos e pela imprensa em relação às suas políticas de enfrentamento à violência (decretação de estado de emergência e de prisões sem mandado, por exemplo), foram classificadas pelo presidente como tentativas de "proteger o crime organizado".
Economia miniatura|Caixa eletrônico em El Zonte, El Salvador, onde era possível trocar bitcoin por dólar estadunidense. Diferentemente da redução da criminalidade com a adoção de medidas autoritárias, as medidas econômicas promovidas por Bukele fracassaram, e portanto não costumam ser lembradas pelos apoiadores externos do bukelismo. El Salvador já havia dolarizado a sua economia em 2001, quando substituiu a moeda nacional, o colón, pelo dólar estadunidense. Bukele foi além, e em 2021 adotou o bitcoin como moeda legal; a medida, contudo, não trouxe um retorno econômico significativo e acabou sendo abandonada em 2025, no contexto de uma negociação com o FMI em troca de um empréstimo de US$ 1,4 bilhão. Segundo Alejandro Álvarez, diretor do departamento de Economia da Universidade Centro-Americana, a pobreza aumentou de 18% para 24% entre 2022 e 2023 (com 52% da população, 3,3 milhões de pessoas, em situação de estresse alimentar), e a dívida externa atingiu US$ 30 bilhões de dólares, além dos juros.
Mesmo com a redução dramática da criminalidade, o investimento externo continua a ser um dos mais baixos da região, inferior mesmo em comparação com a Nicarágua; em 2023, o investimento estrangeiro direto (IED) foi de 1,66% do PIB, valor muito abaixo dos 7,56% em 2017 (antes da eleição de Bukele) e dos 17,96% investidos em 2007. Além disso, estrangeiros continuam precisando contratar segurança privada, e a dolarização da economia encarece o investimento em El Salvador, tornando-o mais caro do que na Guatemala ou em Honduras.
Outro fator negativo apontado por economistas como Carlos Acevedo, ex-presidente do Banco Central de Reserva (BCR, o Banco Central salvadorenho), é a ausência de uma política estatal que atraia "investimentos sérios". Outra economista salvadorenha, Tatiana Marroquín, assinala que "a queda na criminalidade não implica em um aumento no investimento. Os homicídios diminuíram, mas o investimento estrangeiro não aumentou e, na verdade, diminuiu em relação aos dados históricos". Além disso, Marroquín pondera que nem todo investimento estrangeiro é desejável, não sendo interessante promover "um tipo de turismo que desloca populações e não gera crescimento ou desenvolvimento".
O acordo firmado com o FMI em 2024 implicou na adoção de medidas de austeridade, que até meados de 2026 haviam provocado a demissão de cerca de 15 mil funcionários públicos (as demissões no funcionalismo são calculadas em 47.000 desde 2019, quando Bukele venceu sua primeira eleição presidencial). Em junho de 2026, a inflação em doze meses era de 2,76% e a cesta básica custava US$ 260,00, para um salário mínimo que, para os empregados da indústria, comércio e serviços estava fixado em US$ 408,80. Em 2025, El Salvador foi uma das economias que menos cresceram na América Central (3,9%), com a expectativa de crescer ainda menos (2,9%) em 2026. O impacto no custo de vida só não foi maior porque o governo criou uma rede de mercados agrícolas que vendem produtos a preços subsidiados; este cenário adverso, onde apenas a construção civil e o turismo continuam a apresentar números positivos (24% e 10%, respectivamente) pode levar Bukele a fazer um "ajuste fiscal poderoso" para reduzir o déficit público caso seja reeleito em fevereiro de 2027.
Modernização Outro aspecto propalado pelo bukelismo e seus apoiadores é o da "modernização institucional", que nada mais seria, segundo estudiosos, do que o "novíssimo laboratório" do neoliberalismo na América Latina. Neste "novo" neoliberalismo, o Estado deixa de ser mínimo e passa a ser "um dispositivo organizacional onde o mercado aparelha o Estado para impor sua lógica também na cidadania" (como na Argentina de Milei), resultando em "variados níveis de insegurança social", "fragmentação do trabalho", "políticas de austeridade" e até mesmo em "questões etnonacionais" (o caso do etnocacerismo do Peru, por exemplo). Conforme Wacquant (2012), essa "reengenharia" do Estado articularia quatro lógicas institucionais:
"desregulamentação econômica (rerregulamentação do mercado e das atividades humanas)"; "delegação, retração e recomposição do estado de bem-estar (beneficiários tratados não como cidadãos, mas como clientes ou súditos)"; "alegoria cultural da responsabilidade individual"; e "aparato penal em expansão, invasivo e proativo".