Mummy Brown, caput mortuum ou Egypitian brown () foi um pigmento da cor marrom amplamente produzido e reconhecido entre o século XVI e XVII, produzido a partir da moagem de múmias egípcias ou gatos mumificados.

Antecedentes A técnica para criação do pigmento remonta à Europa renascentista, época em que múmias eram trazidas do Egito para comercialização indiscriminada, sobretudo devido a suas supostas propriedades medicinais. Os europeus acreditavam, de forma equivocada, que a substância escura que envolvia os corpos das múmias era betume — mistura mineral usada na medicina persa tradicional —, e que nas tumbas com milhares de cadáveres estava a solução não apenas para a escassez da substância, como também para males que variavam de dor de dente a infarto.

Os corpos moídos, uma vez misturados ao betume e ao piche branco, resultavam em um pigmento marrom translúcido, ideal para velaturas, sombreamentos e tons de pele e cabelo. O pigmento acabou adquirindo status comercial e passou a ser amplamente utilizado, especialmente pelos pintores pré-rafaelitas.

Pintura O termo, no campo da pintura, parece ter se popularizado a partir do século XVIII, período em que os pigmentos de múmia estavam na moda. Em 1712 foi aberta em Paris uma loja de materiais artísticos chamada, em tom de brincadeira, "A La Momie" (), vendendo tintas e vernizes a base de múmia liofilizada, bem como pó de múmia, incenso e mirra. Relatos da época dão conta de que uma única múmia bastava para fornecer material suficiente para satisfazer as necessidades dos clientes durante vinte anos. Com o aumento da demanda e a escassez de múmias, versões clandestinas começaram a surgir, usando como nova fonte para a matéria-prima corpos de criminosos e escravos recém falecidos, tornando a história do pigmento ainda mais sombria.

Em Londres, em 1797, um compêndio de cores citou que o presidente da Academia Real Inglesa, o pintor norte-americano Benjamin West, não usava nada em seus esmaltes senão "carne de múmia, da qual as partes carnudas são as melhores".

Em 1809, o químico e fabricante de cores George Field confirmou o recebimento de um corpo embalsamado em seu laboratório. Esta múmia lhe havia sido enviada pelo pintor inglês William Beechey, com o propósito de produzir pigmento marrom a partir dela.

Pigmentação A pigmentação da tinta pode ser descrita conforme pinturas que foram produzidas especialmente durante o período da segunda geração do movimento artístico Irmandade Pré-Rafaelitas e do Romantismo, onde o pigmento variava amplamente entre umbra natural que variava entre um leve marrom esverdeado, até um umbra queimado que variava entre marrom mais avermelhado. E além disso, o pigmento era levemente translúcido, facilitando a mistura de porções do pigmento com outros.

Obras pintadas com o mummy brown A análise de pinturas é um processo destrutivo, o que torna a identificação de quais pinturas possuem o pigmento marrom-múmia em sua composição uma tarefa complexa.

O pintor maneirista Gian Paolo Lomazzo incluiu o marrom-múmia entre as dez cores que considerava melhores para pintar tons de pele. Karel Van Mander, colega maneirista flamengo de Lomazzo, também apreciava e recomendava o pigmento de múmia na pintura. No entanto, não há informações que especifiquem se esse pigmento era derivado de betume ou de um corpo embalsamado.

O pintor Juan Pantoja de la Cruz, da corte suprema do monarca Filipe III de Espanha, utilizava-se da paleta de cores dada à restos mortais de múmia, que consta em seu inventário de um estúdio de 1608.

Relatos também dão conta de que restos mortais de egípcios estão presentes na famosa pintura iluminista de 1830, "A liberdade guiando o povo", do francês Eugène Delacroix.

Falência Após a Era Vitoriana, o pigmento começou a cair em desuso, não apenas devido ao seu alto preço, como também porque os artistas passaram a descobrir sua origem macabra — havendo relatos, dos pintores Lawrence Alma-Tadema e Rudyard Kipling, de que Edward Burne-Jones teria realizado uma cerimônia de enterro de um tubo da tinta em seu próprio quintal, ao saber do que era feita.

O "Manual de Roret para Desenhistas e Pintores", de 1829 confirma a queda no uso do pigmento: "O marrom-múmia e o marrom Van Dyck são usados ​​com muito menos frequência", especialmente desde que se descobriu o uso correto do betume. Quatro anos depois,o mesmo manual afirmava que "o marrom múmia, embora bastante popular, não é durável nem no ar nem sob a luz solar", secando ainda mais lentamente que o próprio betume.

No século XX, uma mudança gradual de atitude em relação às culturas colonizadas coincidiu com o crescimento da arqueologia como disciplina acadêmica, então a demanda do pigmento diminuiu drasticamente até sua falência e as últimas unidades do pigmento sobreviveram em prateleiras de comerciantes fornecedores de tinta.

Na revista Time de 2 de outubro de 1964, Geoffrey Roberson-Park, então ocupando o cargo de diretor da tradicional fabricante londrina de tintas C. Roberson, admitiu com pesar que a empresa simplesmente ficou sem múmias para produzir a tinta, comentando que "talvez ainda houvesse alguns membros soltos esquecidos em algum lugar, mas certamente não o suficiente para fabricar novos lotes". Ainda segundo ele, a empresa chegara a vender sua última múmia completa anos antes, por cerca de três libras — algo de que ele se lamentou, devido à impossibilidade de conseguir mais material.

Também no início do século XX ocorreu a desvantagem étnica e técnica da pilhagem sem precedentes de múmias na Europa Ocidental, tornando inadequado utilizar-se desse patrimônio histórico.

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