Pedrina de Lourdes Santos (Oliveira, 21 de fevereiro de 1961), conhecida como Capitã Pedrina, é uma escritora, líder religiosa e militante antirracista brasileira, vinculada às tradições do Reinado, da Umbanda e do Candomblé Angola. Destaca-se como uma das primeiras mulheres a assumir a capitania de uma guarda de Moçambique em Minas Gerais, sendo reconhecida pela atuação na preservação e transmissão de saberes tradicionais afro-brasileiros.

Sua trajetória articula práticas religiosas, produção cultural e atuação política, com ênfase na oralidade, nos cantos de matriz banto e na valorização das tradições afro-brasileiras. Nesse contexto, consolidou-se como referência nacional no campo dos saberes tradicionais, participando de atividades acadêmicas, culturais e formativas relacionadas à educação étnico-racial.

Em reconhecimento à sua contribuição, recebeu o título de Doutora em Comunicação Social por Notório Saber pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que destacou sua atuação na comunicação de saberes tradicionais e na construção do conceito de comunicação intermundos.

Biografia

Origem e formação Filha de Ester Rufina Borges e Leonídio João dos Santos, lideranças tradicionais do Reinado, Pedrina de Lourdes Santos nasceu em Oliveira, em um contexto familiar profundamente vinculado às práticas religiosas afro-brasileiras.

Iniciou sua participação no Reinado ainda na infância, integrando aos 11 anos a Guarda de Moçambique de Nossa Senhora das Mercês. Sua formação se deu, simultaneamente, no âmbito das tradições familiares e da educação formal.

Concluiu graduação em Ciências Contábeis e especialização em contabilidade pública pela Universidade Federal de Minas Gerais.

Trajetória profissional Paralelamente à atuação cultural e religiosa, trabalhou no Instituto Brasileiro do Café (IBC) e, posteriormente, na Caixa Econômica Federal, onde desenvolveu carreira até se aposentar como analista sênior.

Sua trajetória profissional ocorreu de forma concomitante à atuação comunitária, articulando experiências do mundo do trabalho com práticas culturais e religiosas.

Liderança no Reinado Após o falecimento de seu pai, em 1980, assumiu a capitania da Guarda de Moçambique de Nossa Senhora das Mercês ao lado do irmão, tornando-se uma das primeiras mulheres a exercer essa função em Minas Gerais.

Sua atuação marcou uma inflexão na participação feminina nas estruturas do Reinado, tradicionalmente ocupadas por homens, contribuindo para a ampliação do protagonismo feminino nessas manifestações culturais.

Desde então, passou a coordenar atividades religiosas e culturais vinculadas à Irmandade dos Leonídios, consolidando-se como liderança reconhecida no campo do Reinado.

Consolidação e reconhecimento Ao longo de sua trajetória, ampliou sua atuação para além do contexto local, participando de eventos culturais e acadêmicos no Brasil e no exterior.

Em 2005, integrou a representação de Minas Gerais no evento Ano do Brasil na França, contribuindo para a difusão internacional das tradições reinadeiras.

Sua trajetória passou a ser reconhecida institucionalmente, culminando na concessão do título de Doutora por Notório Saber pela Universidade Federal de Minas Gerais.

Atuação religiosa e cultural

Reinado e saberes tradicionais A atuação de Pedrina de Lourdes Santos no Reinado insere-se na tradição das manifestações afro-brasileiras de matriz banto, nas quais canto, dança e oralidade constituem formas centrais de transmissão de conhecimento.

Na condição de capitã, desenvolve práticas voltadas à preservação e continuidade dessas tradições, articulando dimensões rituais, educativas e comunitárias. Sua atuação enfatiza o Reinado como espaço de produção e circulação de saberes, especialmente no que se refere à memória ancestral e às formas coletivas de aprendizagem.

Religiosidades afro-brasileiras Além do Reinado, sua trajetória está vinculada a diferentes expressões religiosas afro-brasileiras, incluindo a Umbanda e o Candomblé Angola.

Em 2016, foi iniciada no Candomblé Angola no terreiro Nzó Atim Oyá Oderim, onde recebeu o nome iniciático Seji Danji. Sua atuação religiosa envolve práticas de cuidado espiritual, orientação comunitária e transmissão de conhecimentos tradicionais, articulando diferentes matrizes religiosas em sua experiência.

Atuação pública e educacional Pedrina também atua como educadora, palestrante e participante de eventos acadêmicos e culturais, contribuindo para a difusão dos saberes afro-brasileiros em espaços institucionais.

Sua atuação dialoga com a implementação da Lei nº 10.639/2003, voltada ao ensino da história e cultura africana e afro-brasileira, sendo reconhecida por sua contribuição à valorização das epistemologias de matriz africana.

Nesse contexto, seu pensamento é frequentemente associado ao conceito de comunicação intermundos, que compreende a produção de conhecimento a partir da articulação entre dimensões espirituais, culturais e políticas.

Obra e pensamento

Produção bibliográfica Pedrina de Lourdes Santos é autora do livro Eu tenho a África dentro de mim, no qual aborda sua trajetória e a centralidade da ancestralidade africana em sua formação espiritual e cultural.

Sua experiência e seus ensinamentos também constituem o eixo central da obra Pedrina de Lourdes Santos: meu rosário, minha guia (2022), organizada por Luciana de Oliveira e Ester Antonieta Santos, que reúne registros biográficos, reflexões e depoimentos sobre sua atuação no campo dos saberes tradicionais.

Pensamento O pensamento de Pedrina está associado ao conceito de comunicação intermundos, desenvolvido no âmbito dos estudos em comunicação social a partir do diálogo com saberes tradicionais.

Esse conceito refere-se a formas de comunicação que articulam diferentes dimensões da experiência — espiritual, cultural, política e comunitária —, compreendendo o conhecimento como resultado de relações entre múltiplos mundos e temporalidades.

Nesse contexto, sua prática é entendida como uma forma de produção de conhecimento situada, na qual oralidade, ritualidade e ancestralidade operam como fundamentos epistemológicos.

Sua atuação contribui para o reconhecimento dos saberes tradicionais afro-brasileiros como formas legítimas de conhecimento, em diálogo com o campo acadêmico e com propostas de ampliação das epistemologias não eurocêntricas.

Recepção e reconhecimento

Reconhecimento institucional A trajetória de Pedrina de Lourdes Santos tem sido reconhecida por instituições culturais e acadêmicas, com destaque para a concessão do título de Doutora em Comunicação Social por Notório Saber pela Universidade Federal de Minas Gerais.

Esse reconhecimento institucional insere sua atuação no campo dos saberes tradicionais como forma legítima de produção de conhecimento, em diálogo com o meio universitário.

Além disso, recebeu a Medalha da Inconfidência, concedida pelo Governo de Minas Gerais, em reconhecimento à sua contribuição cultural.

Recepção acadêmica e cultural A atuação de Pedrina tem sido objeto de estudos acadêmicos nas áreas de comunicação, antropologia e cultura afro-brasileira, especialmente no que se refere às relações entre oralidade, ancestralidade e produção de conhecimento.

Seu pensamento e prática têm contribuído para o desenvolvimento de abordagens que articulam saberes tradicionais e epistemologias contemporâneas, sendo frequentemente mobilizados em pesquisas e ações formativas vinculadas ao campo da comunicação e da educação.

No campo cultural, sua atuação é reconhecida como referência na preservação e transmissão das tradições do Reinado, com impacto que ultrapassa o contexto local e alcança circuitos nacionais e internacionais.

Ver também Reinado de Nossa Senhora do Rosário Congado Candomblé Cultura afro-brasileira

Bibliografia

Categoria:Afro-brasileiras Categoria:Líderes religiosos do Brasil Categoria:Escritores de Minas Gerais Categoria:Naturais de Oliveira (Minas Gerais)