Bento José Esteves de Faria (Lisboa, 8 de janeiro de 1875 – Rio de Mouro, 7 de fevereiro de 1954) foi um jornalista e escritor português, sendo que, na escrita, aprofundou-se na dramaturgia e na poesia.
Biografia A sua educação primária passou por escolas particulares. Frequentou o Instituto Industrial e Comercial de Lisboa (IICL) no ensino secundário. Ainda prosseguiu os estudos num curso livre de Filologia Românica, além de ter contactado com o Esperanto na União Cristã da Mocidade, num curso lecionado por Rodolph Horner.
Trabalhou nas redações de inúmeros jornais da cidade lisboeta. Em contrapartida à imparcialidade exigida na escrita jornalística, expressou a sua subjetividade nas revistas em que participou. Demonstrou o seu apoio à ideologia anarquista através desses meios, como é o caso da revista A Batalha. Esta revista, inclusive, levou à criação da Confederação Geral do Trabalho (C.G.T.), à qual Bento teve proximidade. Também cooperou com outras edições francesas e brasileiras.
Os seus artigos eram publicados de forma recorrente, mas não periódica. Por cartas, pedia e enviava os seus textos diretamente aos proprietários das revistas, como para com Pinto Quartin, dono da Renovação. Manteve-se ativo nas revistas, pelo menos, até 1926, ano do golpe ditatorial, que fechou muitas delas, uma vez incidindo nesse ano a sua última colaboração assinada.
Predisposto para a literatura dramática, escreveu obras de diversos estilos ao longo das décadas. Estreou algumas em palco, como no Teatro do Ginásio, em Lisboa, sob o apoio do Teatro Livre, grupo que objetivava a regeneração do teatro português. As suas obras entraram em domínio público em 2025, tendo o seu direito autoral expirado.
Envolveu-se ainda em outras atividades. Associou-se ao Grémio de Educação Racional e, pelo ano de 1944, era funcionário do Banco de Portugal.
Carreira Já na adolescência, mais precisamente aos 15 anos, Bento iniciou-se no mundo literário ao escrever a sua primeira obra teatral, Arrependimento. Depois de continuar a redigir peças, em 1903, montou a sua primeira produção: O Delírio do Ciúme, no Teatro Taborda. Após outras estreias, Missa Nova voltou a destacá-lo, consagrando-o como artista inserido no Naturalismo, além de denunciante de temas controversos, como o anticlericalismo.
Enquanto escritor, as obras próprias e de coautoria não seguiam um único género dramático. Debruçou-se nos campos do drama e da comédia, nos textos em prosa ou em verso; mas também em operetas, sátiras, farsas e teatros de revista.
Complementou o interesse pelas Letras ao profissionalizar-se no jornalismo. Porém, o contacto com revistas que se caracterizavam pela divulgação do anarquismo teve maior impacto na sua imagem.
Colaboração Ao longo da sua carreira na imprensa, Bento Faria passou por diversos jornais e revistas, nos quais publicava não só artigos como também poemas. Os principais e conhecidos nos quais o próprio participou, de forma ativa, foram:
Jornais O Século Diário de Notícias Mundo País A Capital (1ª secção) Les Temps Nouveaux
Revistas A Sementeira A Batalha Renovação Ámanhã Luz e Vida
Obras
Produções Dramáticas +AnoTítuloGéneroObservações1890ArrependimentoDramaEscrito quando o autor tinha apenas 15 anos. ---O Cabreiro AlsacianoDrama HistóricoEpisódio da Guerra franco-prussiana.1893Agouro e FelicidadeComédiaEm coautoria com José Augusto de Carvalho, dedicado a Penha Coutinho.1903O Delírio do CiúmeDramaRepresentado no Teatro Taborda e representando a sua estreia como autor dramático. Peça de denúncia do alcoolismo.1905Missa NovaDrama em versoLevado à cena na 2ª temporada do Teatro Livre, com a interpretação de Adelina Abranches. Peça de um exacerbado anticlericalismo.1906O Pai da PátriaSátira PolíticaColaboração com Ernesto Rodrigues.1908O Pai AdãoRevistaColaboração com Xavier Marques.1910O FadoOperetaColaboração com João Bastos e música de Filipe Duarte. Estreia em novembro, no Teatro Apolo, com a interpretação de Alfredo Ruas.1910Valente BalbinoFarsaColaboração com João Bastos.1915Mau OlhadoDramaEm coautoria com Carrasco Guerra.1918Febo MonizDrama HistóricoObra com maior empenho do próprio autor.1931O Meu PapáComédiaAdaptação da obra original de Francisco Serrano Anguita. Colaboração com Carlos Ferreira. Estreada no Teatro Variedades, em Lisboa. ---O Gato MaltezOperetaColaboração com Ernesto Rodrigues. ---RositaOperetaApresentada no Teatro Avenida, em colaboração com Vitório Chagas Roquete e música de Assis Pacheco.
Outros Trabalhos A publicação de poemas é marca do autor. A maioria são sonetos, mas existem outras estruturas poéticas. Em comum têm, de novo, a exaltação da conformidade de Bento Faria à doutrina política e social dos periódicos. Contudo, há presente uma multiplicidade de temas expressos: desde a defesa da questão operária à crítica de instituições; a expressão do sentimento versus a exposição de verdades – estas segundo a ótica do que as próprias revistas pretendiam divulgar na sociedade lisboeta –, entre outros.
São exemplos:
“O homem artista”, novembro de 1908; “A justiça dos tribunaes em face da ciencia moderna”, parte 1 de 2, janeiro de 1909; “Amor!”, maio de 1916; “O Capital e o Trabalho”, abril de 1919; “Hereje”, julho de 1925; “A moleirinha”, agosto de 1925; “O político profissional”, outubro de 1925; “O palácio da justiça”, dezembro de 1925; “Paixão” e “Aleluia”, abril de 1926; “O Homem”, maio de 1926 “O cristianismo não se fundou para ensinar...”, maio de 1926; “A Mulher”, novembro de 1926; “Vozes do cárcere” – igual título para dois artigos distintos: o primeiro em fevereiro de 1910 e o segundo em novembro de 1925. Bento José explorou outras atividades singulares, como a criação original de uma música impressa, Fado Rico e Alex, com José Rodrigues Alves Coelho. É confirmado como tradutor ao estender-se na reinterpretação de obras estrangeiras.
As fronteiras, de Leopoldo Cano y Masas, 1916; A anarquia perante os tribunais, de Pedro Gori, 1940.
Reconhecimento No seu período de vida, obteve reconhecimento devido às suas produções teatrais. Nunca atingiu uma verdadeira fama nacional. Ainda assim, foi referido em revistas como um autor promissor, embora houvesse maiores expectativas quanto a ele e às suas produções posteriores.
Por outro lado, aquando do centenário do teatro português, cerca de 1980, foi autorizada pela diretora-geral do Património Cultural, Paula Silva, a publicação de uma biografia sobre este dramaturgo.
A página web da junta de freguesia de Rio de Mouro caracteriza Bento Faria como personalidade do local, por entre nomes como Aquilino Ribeiro.
Referências
Ver também
Biografia Pública de Bento Faria - Centenário do Teatro Português