A esquerda dos Estados Unidos corresponde aos grupos ou ideias à esquerda do espectro político nos Estados Unidos. O termo também é usado para designar grupos alinhados ao Partido Democrata. Em outros contextos, refere-se a grupos que buscaram mudanças igualitárias nas instituições econômicas, políticas e culturais dos Estados Unidos. Vários subgrupos com alcance nacional estão ativos. Liberais e progressistas acreditam que a igualdade pode ser acomodada nas estruturas capitalistas existentes, mas diferem em sua crítica ao capitalismo e no grau de e do estado de bem-estar social. Anarquistas, comunistas e socialistas com imperativos internacionais também estão presentes nesse macro movimento. Muitas comunas e comunidades igualitárias existiram nos Estados Unidos como uma subcategoria do movimento mais amplo de comunidade intencional, algumas das quais baseadas em ideais de socialismo utópico. A esquerda esteve envolvida tanto no Partido Democrata quanto no Partido Republicano em diferentes momentos, tendo origem no Partido Democrata-Republicano em oposição ao Partido Federalista.

Embora a esquerda política tenha chegado aos Estados Unidos no século XIX, atualmente não há partidos políticos de esquerda majoritários no país. Apesar das facções existentes dentro do Partido Democrata, bem como pequenos partidos de terceira via, como o Partido Verde, Partido Comunista dos Estados Unidos (CPUSA), Partido pelo Socialismo e Libertação (PSL), Partido Comunista Americano (ACP), Partido Mundial dos Trabalhadores (WWP), Partido Socialista (SPUSA) e Partido Americano da Solidariedade (um partido de democracia cristã inclinado à esquerda na economia), houve poucos representantes de partidos de terceira via de esquerda no Congresso. Acadêmicos estudam há muito tempo as razões pelas quais nenhum partido socialista viável emergiu nos Estados Unidos. Alguns autores atribuem isso às falhas na organização e liderança socialista, outros à incompatibilidade do socialismo com os valores americanos, ou ainda, às limitações impostas pela Constituição dos Estados Unidos. Lenin e Leon Trotsky ficaram especialmente preocupados porque isso desafiava as crenças de que o país industrial mais avançado forneceria um modelo para o futuro das nações menos desenvolvidas. Se o socialismo representasse o futuro, então deveria ser mais forte nos Estados Unidos. Apesar de vertentes do Partido dos Homens Trabalhadores serem fundadas nas décadas de 1820 e 1830 nos Estados Unidos, eles defendiam reforma agrária, educação universal e condições de trabalho melhoradas na forma de direitos trabalhistas, não propriedade coletiva, desaparecendo após seus objetivos serem assumidos pela democracia jacksoniana. Samuel Gompers, líder da Federação Estadunidense do Trabalho, acreditava que os trabalhadores deviam confiar em si mesmos, pois quaisquer direitos fornecidos pelo governo poderiam ser revogados.

A agitação econômica na década de 1890 foi representada pelo e pelo Partido do Povo que, embora usasse retórica anticapitalista, representava as visões de pequenos agricultores que queriam proteger sua própria propriedade privada, não um apelo ao comunismo, coletivismo ou socialismo. No início do século XX, progressistas criticaram a forma como o capitalismo se desenvolveu, mas estes eram, principalmente, de classe média e reformistas; no entanto, tanto o populismo quanto o progressismo direcionaram alguns para a política de esquerda e muitos escritores populares do período progressista eram de esquerda. Até a Nova Esquerda baseava-se em tradições democráticas radicais em vez de ideologia de esquerda. Friedrich Engels achava que a falta de um passado feudal era a razão pela qual a mantinha valores de classe média, escrevendo em uma época em que a indústria americana se desenvolvia rapidamente em direção ao sistema de produção em massa conhecido como fordismo. Max Weber e Antonio Gramsci viam o individualismo e o liberalismo laissez-faire crenças fundamentais compartilhadas pelos americanos. Conforme o historiador David De Leon, o radicalismo americano estava enraizado no libertarismo e no sindicalismo em vez de comunismo, no fabianismo e social-democracia, sendo oposto ao poder centralizado e ao coletivismo. O caráter do sistema político estadunidense é hostil a partidos de terceira via e também foi apresentado como uma razão para a ausência de um partido socialista forte no país. A repressão política também contribuiu para a fraqueza da esquerda nos Estados Unidos, já que muitas cidades possuíam () para monitorar e reprimir grupos de esquerda em resposta a agitações trabalhistas, como a Revolta de Haymarket. O legado da escravidão e da discriminação racial criou divisões profundas na classe trabalhadora, produzindo uma força de trabalho racialmente estratificada e de dois níveis. Essas divisões fomentaram prioridades políticas divergentes e minaram a solidariedade de classe, tornando mais difícil para os movimentos de esquerda construir coalizões amplas.

Durante a Segunda Guerra Mundial, o tornou ilegal a filiação a grupos revolucionários. Após a guerra, o senador Joseph McCarthy usou o Smith Act para lançar uma cruzada (macarthismo) para purgar supostos comunistas do governo e da mídia. Na década de 1960, o programa Programa de Contrainteligência (COINTELPRO) do Departamento Federal de Investigação (FBI) monitorou, sabotou, desacreditou e infiltrou-se em grupos radicais nos Estados Unidos. No ano de 2008, foi revelado que a adicionou nomes e informações pessoais de manifestantes anti-guerra e opositores da pena de morte a um banco de dados destinado a rastrear terroristas. Terry Turchie, ex-diretor assistente adjunto da Divisão de Contraterrorismo do FBI, admitiu que "uma das missões do FBI em seus esforços de contrainteligência era tentar manter essas pessoas (progressistas e autodenominados socialistas) fora do cargo".

História

Origens e desenvolvimentos (século XVII–século XX) Muitas tribos indígenas da América do Norte praticavam o que os marxistas mais tarde chamariam de comunismo primitivo, ou seja, praticavam cooperação econômica entre os membros das suas tribos.

Os primeiros socialistas europeus a chegarem à América do Norte foram uma seita cristã conhecida como , que fundaram a comuna de Bohemia Manor em 1683, a cerca de a oeste da Filadélfia, na Pensilvânia. O seu modo de vida comunal baseava-se nas práticas comunais dos apóstolos e dos primeiros cristãos.

Os primeiros socialistas americanos seculares foram imigrantes alemães marxistas que chegaram após as Revoluções de 1848, também conhecidos como (48ers). Joseph Weydemeyer, colega alemão de Karl Marx que se refugiou em Nova Iorque em 1851 após as revoluções de 1848, fundou o primeiro jornal marxista nos EUA, chamado Die Revolution, que só durou duas edições. Em 1852 ele criou o Proletarierbund, que se tornaria a Liga dos Trabalhadores Americanos, a primeira organização marxista no país, mas esta também não durou muito por não conseguir atrair membros anglófonos nativos.

No ano de 1866, formou a (NLU). Friedrich Albert Sorge, alemão que se refugiara em Nova Iorque após 1848, levou a Seção Local n.º 5 da NLU para a Primeira Internacional como Seção Um nos Estados Unidos. Até 1872 havia 22 seções, que conseguiram realizar uma convenção em Nova Iorque. O Conselho Geral da Internacional mudou-se para Nova Iorque com Sorge como Secretário-Geral, mas, após conflitos internos, dissolveu-se em 1876.

Uma onda maior de imigrantes alemães chegou nas décadas de 1870 e 1880, incluindo seguidores social-democratas de Ferdinand Lassalle. Lassalle acreditava que a ajuda estatal por via da ação política era o caminho para a revolução e opunha-se ao sindicalismo, que considerava inútil, pois, segundo a , os patrões só pagariam salários de subsistência. Os lassalleanos formaram o Partido Social-Democrata da América do Norte em 1874 e tanto marxistas como lassalleanos criaram o em 1876. No ano seguinte, quando os lassalleanos assumiram a liderança, mudaram o nome para Partido Trabalhista Socialista da América (SLP). Contudo, muitos socialistas abandonaram a ação política e passaram ao sindicalismo. Dois ex-socialistas, e Samuel Gompers, fundaram a Federação Estadunidense do Trabalho (AFL) em 1886.

Os anarquistas separaram-se do Partido Trabalhista Socialista da América para formar o Partido Socialista Revolucionário em 1881. Em 1885 tinham 7 000 membros, o dobro do SLP. Inspiravam-se no Congresso Anarquista Internacional de 1881 em Londres, na Inglaterra. Havia duas federações nos Estados Unidos que declaravam adesão à Internacional. Uma convenção de anarquistas imigrantes em Chicago formou a Associação Internacional do Povo Trabalhador (Internacional Negra), enquanto um grupo de americanos nativos em São Francisco criou a Associação Internacional dos Trabalhadores (Internacional Vermelha). Após uma revolta em Haymarket, Chicago, em 1886, a opinião pública virou-se contra o anarquismo. Embora muito pouca violência pudesse ser atribuída aos anarquistas, a tentativa de assassinato de um financiador por um anarquista em 1892 e o assassinato do presidente americano William McKinley em 1901 por um anarquista declarado levaram ao fim do asilo político para anarquistas em 1903. Em 1919, após os ataques de Palmer, anarquistas foram presos e muitos, incluindo Emma Goldman e Alexander Berkman, foram deportados. Ainda assim, o anarquismo voltou a ter grande atenção pública com o julgamento dos anarquistas Sacco e Vanzetti, executados em 1927.

Daniel De Leon, jornalista de orientação marxista, que tornou-se líder do SLP em 1890, empurrou o partido para uma visão mais à esquerda. Eugene V. Debs, que foi organizador da , formou o rival em 1898. Membros do SLP, liderados por e opostos ao domínio pessoal de De Leon e à sua política anti-AFL, juntaram-se aos social-democratas para formar o Partido Socialista da América (SPA). Em 1905, uma convenção de socialistas, anarquistas e sindicalistas descontentes com a burocracia e o da AFL fundou o rival Trabalhadores Industriais do Mundo (IWW), liderado por figuras como William D. "Big Bill" Haywood, Helen Keller, De Leon e Debs.

Os organizadores do IWW discordavam sobre se a política eleitoral podia ser usada para libertar a classe trabalhadora. Debs deixou o sindicato em 1906 e De Leon foi expulso em 1908, formando um IWW rival de Chicago ligado ao SLP. A ideologia do do sindicato em Minneapolis evoluiu para o anarcossindicalismo ou "sindicalismo industrial revolucionário" e evitou completamente a atividade política eleitoral. Teve sucesso na organização de trabalhadores migrantes não qualificados nas indústrias madeireira, agrícola e construção nos estados ocidentais e de trabalhadores têxteis imigrantes nos estados orientais, aceitando por vezes a violência como parte da ação industrial.

O SPA estava dividido entre reformistas que acreditavam que o socialismo podia ser alcançado por reformas graduais do capitalismo e revolucionários que pensavam que o socialismo só poderia surgir após a derrubada do capitalismo, mas o partido seguiu um caminho intermédio. O SPA atingiu o auge do sucesso em 1912, quando o seu candidato presidencial obteve 5,9 % do voto popular. O primeiro congressista socialista, , foi eleito em 1910. No início de 1912, havia 1.039 políticos socialistas, incluindo 56 prefeitos, 305 vereadores e conselheiros, 22 autoridades policiais e alguns legisladores estaduais. Milwaukee, Berkeley, Butte, Schenectady e Flint eram governadas por socialistas. Um desafiante socialista a Gompers obteve um terço dos votos na disputa pela liderança da AFL. O SPA tinha 5 jornais diários em inglês e 8 em línguas estrangeiras, 262 semanários em inglês e 36 em línguas estrangeiras, e 10 mensários em inglês e 2 em línguas estrangeiras.