O edifício da Capitania do Porto da Nazaré e a Capela de Nossa Senhora dos Aflitos constituem um conjunto arquitectónico integrado localizado em frente à Praia da Nazaré, na Nazaré, em Portugal. O templo remonta originalmente a 1760, tendo sido edificada a mando dos monges cistercienses de Alcobaça, enquanto a Capitania foi formalmente instalada em 1908 para centralizar a autoridade marítima e os serviços de socorro a náufragos da região da Nazaré.

Descrição O Edifício da Capitania da Nazaré e a Capela de Nossa Senhora dos Aflitos constituem um conjunto arquitectónico integrado e isolado, que forma um quarteirão na zona da Praia da Nazaré, circundado por vias. A fachada principal da Capitania está voltada para a praça principal da vila, a Praça Sousa Oliveira, n.º 3, enquanto a capela se orienta para a Avenida da República e marginal. Nas imediações, encontra-se a Capela de Santo António.

O conjunto possui uma planta rectangular, composta pela Capitania, com uma planta em forma de L, e pela Capela, de planta rectangular, que se integra no ângulo. A cobertura é homogénea, em telhado de quatro águas, rematada por beirada simples. Inicialmente, o edifício da Capitania apresentava apenas dois pisos, mas foi-lhe acrescentado um terceiro, mais baixo e recuado. O remate da capela encontra-se subordinado ao do edifício principal, apesar de se destacar. A estrutura é de cantaria e alvenaria, com soco em cantaria de calcário e betão. As fachadas encontram-se pintadas de bege e rebocadas, exceptuando a fachada principal da capela.

Capitania O edifício possui fachadas de dois pisos, percorridas por um silhar de cantaria e rematadas por uma cornija de massa, com um terceiro piso, mais baixo, também rematado por platibanda plena e cornija de massa. Os vãos são rectilíneos, com molduras de argamassa, abertos apenas nos topos no primeiro e segundo pisos, e emoldurando os vãos no terceiro piso. A fachada principal, orientada a sul, apresenta no primeiro piso duas portas nos extremos, uma mais estreita à direita, e quatro janelas jacentes centrais. No segundo piso, rasgam-se sete janelas, sendo as três centrais de sacada comum, com guarda de ferro assente em consolas, e as laterais de peitoril.

O terceiro piso exibe o mesmo número de janelas, todas de peitoril. A fachada virada a sul (fachada lateral direita) tem o piso térreo rasgado por um vão rectangular amplo sobre impostas, correspondente à antiga arrecadação do salva-vidas, com portão de ferro. O segundo piso apresenta três janelas de sacada corrida, com guarda de ferro, e o terceiro andar igual número de janelas de peitoril. A fachada lateral direita está rasgada por cinco eixos de vãos, correspondendo a janelas jacentes no piso térreo, de peitoril no segundo piso, e semelhantes às das outras fachadas no terceiro. Na fachada norte, abrem-se duas portas, uma janela de peitoril e dois vãos de menor dimensão, sobrepostos nos pisos superiores por três janelas idênticas às precedentes.

Capela de Nossa Senhora dos Aflitos A capela possui uma planta rectangular, composta por nave e sacristia disposta em eixo, com acesso independente. A fachada principal, orientada a oeste, é de pano único e revestida por azulejos de padrão azuis e brancos, terminada por uma empena de argamassa sobre falsas mísulas laterais, ao nível da platibanda do edifício da Capitania. É sobreposta por uma sineira em arco de volta perfeita, que alberga um sino, e rematada por cornija contracurva encimada por uma cruz latina. A fachada é rasgada por um portal em arco apontado, com duas arquivoltas pintadas de branco, e encimada por um óculo circular, cuja moldura se encontra também pintada de branco. A fachada lateral esquerda é rematada por platibanda plena e cornija, à semelhança do edifício da Capitania, e rasgada por três janelas em arco de volta perfeita, com capialço.

O interior é de espaço único, com pavimento de madeira e cobertura plana em estuque. As paredes, rebocadas e pintadas de bege, apresentam apainelados rectilíneos com molduras pintadas de branco, e um silhar de azulejos de padrão, com motivos florais em tons azuis, brancos e amarelos. Na zona do altar, os azulejos datam do século XVIII, enquanto os da nave são do século XIX ou mesmo do século XX. A iluminação interna é garantida por um óculo no frontispício e três janelões. No interior, pregado à porta, existia um cofre de madeira, com uma fenda na porta que comunicava com o mealheiro da Santa, onde os devotos depositavam as suas esmolas.

O espaço do presbitério está demarcado por dois painéis figurativos: a “Estigmatização de S. Francisco” do lado do evangelho e “Santo António e o Menino Jesus” do lado da epístola. Na parede testeira, entre duas portas de verga recta e com cortinas, encontra-se o retábulo-mor de talha policroma, de planta recta e um eixo. É definido por duas colunas torsas, ornadas de pâmpanos, sobre mísulas e com capitéis coríntios, que sustentam o remate em cornija recta. Ao centro, integra-se uma maquineta com a imagem do orago inserida num nicho rectilíneo, sustentada por quatro colunas torsas assentes em mísulas. O altar é do tipo urna, pintado de branco com decoração a dourado.

Os materiais utilizados incluem estruturas de alvenaria e cantaria, betão, molduras dos vãos em argamassa, caixilharia e portas de madeira, portão de ferro e vidros simples. A decoração da capela é em estuque, o retábulo em talha policroma, e o silhar em azulejos policromos e azuis e brancos. A cobertura é de telha.

História A criação da Capitania do Porto da Nazaré foi formalizada a 18 de Abril de 1895, impulsionada pelo desenvolvimento da área como praia de banhos e pela crescente relevância da actividade piscatória. Esta decisão, da Secretaria de Estado dos Negócios da Marinha e do Ultramar, reconheceu a emergente importância local, contrastando com o declínio dos portos vizinhos de São Martinho do Porto, Paredes e Pederneira.

Embora os registos sobre a pesca na costa nazarena sejam limitados, a partir do final do século XVIII, a actividade conheceu um desenvolvimento notável. Naquela época, os pescadores residiam nos planaltos do Sítio e da Pederneira, procurando refúgio dos frequentes assaltos levados a cabo por piratas holandeses e argelinos que navegavam nas águas costeiras de Portugal. Segundo diversos historiadores e autores, a designação Praia da Nazaré foi atribuída pelos pescadores que se fixaram no local, originários de Ílhavo, em homenagem à Virgem do Milagre. O local era frequentado, sobretudo no Verão, por banhistas e pelos que se dedicavam à pesca.

A Capitania do Porto instalou-se formalmente no dia 4 de Julho de 1908, na antiga Casa dos Frades, um imóvel adquirido em 1906 pelo Instituto de Socorros a Náufragos na Praia da Nazaré. Três anos antes, em 1898, havia sido endereçada uma petição à Rainha D. Amélia, então Presidente do Instituto de Socorros a Náufragos, a solicitar a instalação de um salva-vidas, bóias de salvação e um farol no Forte de S. Miguel Arcanjo. Em 1909, ocorreram a inauguração da Estação de Salva-Vidas e o lançamento da barca de salvação, baptizada como “Nossa Senhora dos Aflitos”, que fora especificamente construída para operar naquela praia.

A introdução de melhoramentos marítimos e a fixação da Capitania do Porto tiveram um efeito multiplicador, catalisando o desenvolvimento da Praia no início do século XX, atraindo população e instituições tanto privadas como públicas. A Nazaré tornou-se rapidamente um dos maiores portos de pesca artesanal do litoral português, servido por pescadores considerados dos mais arrojados e laboriosos do país. Na década de 1930, registavam-se na Capitania do Porto mais de quatro mil pescadores e mais de quinhentas embarcações. O indivíduo Joaquim Bernardo de Sousa Lobo, conhecido localmente como “Joaquim da Rita”, destacou-se pela sua bravura e coragem em inúmeros salvamentos no período compreendido entre 1893 e 1914, alcançando o estatuto de herói venerado do Instituto de Socorros a Náufragos como Cabo-de-Mar. A Capela de Nossa Senhora dos Aflitos foi edificada em 1760, por ordem dos monges cistercienses de Alcobaça, com o propósito de receber a dízima do pescado, dado os pescadores se recusarem a pagar o imposto na Pederneira. A capela foi construída em simultâneo com o edifício da Capitania em 1902. O edifício da Capitania da Nazaré é um exemplar de arquitectura de segurança do século XX.

A Capela de Nossa Senhora dos Aflitos foi edificada em 1760, por ordem dos monges cistercienses de Alcobaça, com o propósito de receber a dízima do pescado, dado os pescadores se recusarem a pagar o imposto na Pederneira. A capela foi construída em simultâneo com o edifício da Capitania em 1902. O edifício da Capitania da Nazaré é um exemplar de arquitectura de segurança do século XX.

Ao longo do tempo, o conjunto sofreu diversas intervenções. Em 1953, a Capitania solicitou que se providenciasse o rebaixamento da fossa do edifício, devido ao rebaixamento do pavimento da rua pela Câmara Municipal. Em Fevereiro de 1969, um abalo sísmico causou danos ligeiros nas paredes e tectos, e mais severos nas coberturas já em mau estado, além de provocar algumas fendas na capela.

Em Março de 1973, na sequência de uma vistoria solicitada pelo Instituto de Socorros a Náufragos à Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais (DGEMN), verificou-se que a parede transversal que separa a sacristia da capela estava totalmente desligada da parede exterior, com uma fenda acentuada de alto a baixo, e que na fachada principal surgiam duas fendas a partir da rosácea. Levantaram-se dúvidas quanto à segurança do pavimento do coro, que exibia uma ligeira deformação, e notou-se que a parede fundeira, com estuque sobre fasquia, apresentava muitos estragos e fendas devido a infiltrações internas. Referiu-se que os projectos para o edifício da Capitania previam a abertura de um novo óculo na capela, num nível mais elevado, e o tapamento do óculo existente, bem como os demais trabalhos de reparação e consolidação necessários.

Entre 1969 e 1974, o conjunto foi alvo de uma profunda intervenção de conservação e modernização pela DGEMN. Os trabalhos incluíram a substituição das coberturas originais por lajes de betão pré-esforçado e a ampliação do edifício da Capitania com um terceiro piso destinado a habitação de funcionários.

Devido ao avançado estado de degradação da argamassa e à impossibilidade de encontrar peças de substituição idênticas, os azulejos das fachadas da Capitania foram removidos em 1974, mantendo-se o revestimento cerâmico apenas na frontaria da capela. No interior do templo, procederam-se a trabalhos de consolidação estrutural, restauro de talhas douradas e reformulação do coro, que passou a integrar a residência do capitão do porto.

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