Fusō (扶桑) foi um ironclad de bateria central construído para a Marinha Imperial Japonesa (IJN) na década de 1870. Foi construído no Reino Unido, uma vez que navios desse tipo ainda não podiam ser produzidos no Japão. O navio participou da Primeira Guerra Sino-Japonesa (1894–1895), na qual foi danificado durante a Batalha do Rio Yalu, em 1894, e participou da Batalha de Weihaiwei no início de 1895. Ele colidiu com dois navios japoneses durante uma tempestade e afundou em 1897. Foi reflutuado no ano seguinte e reparado. O Fusō teve um papel menor na Guerra Russo-Japonesa (1904–1905) e foi reclassificado como navio de defesa costeira após o conflito. Foi retirado da lista da marinha em 1908 e vendido para sucata no ano seguinte.

Contexto As tensões entre o Japão e a China aumentaram depois que o primeiro lançou sua expedição punitiva contra Taiwan em maio de 1874, em retaliação ao assassinato de 54 marinheiros de Ryūkyū que haviam naufragado e foram mortos por aborígenes Paiwan, perto da ponta sudoeste de Taiwan, em dezembro de 1871. A China consultou o Reino Unido sobre a possibilidade de comprar ironclads, enquanto o Japão já negociava com o governo brasileiro a compra do ironclad Independência, então em construção na Grã-Bretanha. Os japoneses encerraram as negociações com os brasileiros em outubro, depois que o navio foi seriamente danificado durante o lançamento, e quando a força expedicionária japonesa estava prestes a se retirar de Taiwan. A crise demonstrou a necessidade de reforçar a Marinha Imperial Japonesa, e o ministro interino da Marinha, Kawamura Sumiyoshi, apresentou naquele mesmo mês uma solicitação orçamentária de 3,9 a 4,2 milhões de ienes para comprar três navios de guerra no exterior. A proposta foi rejeitada por ser muito cara, e um pedido revisado de 2,3 milhões de ienes foi aprovado mais tarde naquele mês. Nenhum estaleiro japonês era capaz de construir navios desse porte, por isso eles foram encomendados ao Reino Unido. Nada foi feito até março de 1875, quando Kawamura propôs comprar um ironclad com metade do dinheiro autorizado e usar o restante para a construção de navios e produção de canhões no Arsenal de Yokosuka. Nenhuma resposta foi dada pelo gabinete do primeiro-ministro antes que a proposta fosse revisada para usar todo o valor alocado na compra de três navios: um ironclad blindado de casco de ferro e duas corvetas blindadas de construção composta, a serem projetados pelo renomado arquiteto naval britânico Sir Edward Reed, ex-construtor-chefe da Marinha Real Britânica. Reed também supervisionaria a construção dos navios, recebendo uma remuneração de 5% do custo total da obra. O gabinete do primeiro-ministro aprovou a proposta revisada em 2 de maio e notificou o cônsul japonês Ueno Kagenori de que oficiais navais seriam enviados para negociar o contrato com Reed.

O comandante Matsumura Junzō chegou a Londres em 21 de julho e entregou a Reed as especificações dos navios. Reed respondeu em 3 de setembro com uma proposta que excedia o valor orçado. Ueno assinou os contratos para os três navios em 24 de setembro, apesar desse problema, porque Reed estava prestes a viajar para a Rússia e o acordo precisava ser concluído antes de sua partida. Ueno havia informado o Ministério da Marinha sobre os custos antes de assinar, mas a resposta de Kawamura — instruindo-o a adiar o pedido do ironclad— só chegou em 8 de outubro. O valor total dos três contratos chegou a £433 850, equivalentes a ¥ 2 231 563, e não incluía o armamento. As armas foram encomendadas à Krupp, com pagamento antecipado de 50%, no valor de £24 978. O governo teve dificuldades para levantar o dinheiro necessário, mesmo depois de o gabinete do primeiro-ministro ter aprovado as despesas adicionais em 5 de junho de 1876, especialmente porque seriam necessários recursos extras para equipar completamente os navios e provisioná-los para a viagem de entrega ao Japão.

Descrição O projeto do Fusō baseava-se em uma versão reduzida do HMS Iron Duke, um ironclad de bateria central da classe Audacious, conhecido dos japoneses por ter sido o navio-chefe da Estação da China da Royal Navy entre 1871 e 1875. O navio tinha 67,1 metros de comprimento entre perpendiculares e 14,6 metros de boca (largura). Seu calado era de 5,4 metros à frente e 5,6 metros à popa. Deslocava 2 248 toneladas longas (2 284 t) e tinha uma tripulação de 26 oficiais e 269 marinheiros.

Propulsão O Fusō possuía dois motores a vapor do tipo trunk, de dupla expansão e dois cilindros, fabricados pela John Penn and Sons, cada um acionando uma hélice de duas pás com 15 pés e 6 polegadas de diâmetro (4,7 metros). Oito caldeiras cilíndricas forneciam vapor às máquinas a uma pressão de trabalho de 4,09 bar (409 kPa; 59 psi). Os motores foram projetados para desenvolver 3 500 cavalos de potência indicados (2 600 kW), o que permitiria ao navio alcançar uma velocidade de 13 nós (24 km/h; 15 mph). Durante suas provas de mar, realizadas em 3 de janeiro de 1878, o navio atingiu uma velocidade máxima de 13,16 nós (24,37 km/h; 15,14 mph), produzindo 3.824 cavalos de potência indicados (2 852 kW). O Fusō podia transportar até 350 toneladas longas (360 toneladas métricas) de carvão, o suficiente para percorrer 4 500 milhas náuticas (8 300 km; 5 200 milhas) a uma velocidade de 10 nós (19 km/h; 12 mph). O ironclad, com três mastros, era aparelhado como uma barca e possuía uma área vélica total de 17 mil pés quadrados (1 579 m²). Para reduzir a resistência ao vento quando navegava exclusivamente à vela, a chaminé podia ser parcialmente recolhido.

O navio passou por um processo de modernização no Arsenal Naval de Yokosuka a partir de 1891. Seus mastros foram removidos, e o mastro do traquete e o da mezena foram substituídos por dois mastros militares, equipados com cestos de gávea de combate. A chaminé tornou-se fixo em altura, e o navio recebeu quatro novas caldeiras cilíndricas. Para compensar a redução no número de caldeiras, as novas foram equipadas com tiro forçado, o que elevou a pressão de trabalho para 6,13 bar (613 kPa; 89 psi). O espaço liberado pela remoção das caldeiras antigas foi aproveitado para aumentar a capacidade de armazenamento de carvão em 36 toneladas longas (37 toneladas métricas).

Armamento e blindagem O Fusō era equipado com quatro canhões Krupp 24 cm RK L/22 de carregamento pela culatra (RBL), com calibre real de 235,4 mm (9,3 polegadas). Essas armas tinham comprimento de 22 calibres (L/22) e peso de 15,5 toneladas métricas cada. Adicionalmente, o navio tinha dois canhões Krupp 17 cm RK L/25, também de carregamento pela culatra, com calibre real de 172,6 mm (6,8 polegadas), comprimento de 25 calibres (L/25) e peso de 5,6 toneladas métricas cada. Os canhões de 24 cm estavam instalados nos cantos da cidadela blindada, sobre o convés principal, com ângulo de 65 graus em relação à linha de centro do navio. Cada canhão podia girar 35 graus para esquerda e para a direita, com uma faixa de 60 graus à proa e à popa onde não podiam disparar. Já os canhões de 17 cm, montados em pivô, ficavam nas laterais do convés superior, cada um com três portinholas que permitiam emprego como canhões de perseguição à vante, ré e por bombordo ou estibordo. O arsenal incluía ainda quatro canhões longos e dois curtos de 75 mm (3,0 polegadas), sendo estes últimos designados para uso em terra ou instalados nos botes do navio.

O projétil perfurante dos canhões de 24 cm pesava 160 kg, atingindo velocidade inicial de 475 m/s e, a curta distância, podia penetrar 393 mm de blindagem de ferro forjado. O projétil dos canhões de 17 cm, com 60 kg, tinha velocidade inicial entre 460 e 487 m/s, sendo capaz de furar blindagens entre 262 mm e 290 mm. Para os canhões de 75 mm, as únicas informações disponíveis referem-se às velocidades iniciais: 473 m/s para o canhão longo e 292 m/s para o curto.

Durante a década de 1880, o armamento do Fusō foi ampliado. Em junho de 1883, sete metralhadoras Nordenfelt de 25,4 mm (quádruplos canos) foram instaladas para defesa contra barcos-torpedo, cinco no convés superior e uma em cada topo de combate. Três anos depois, mais duas metralhadoras Nordenfelt de 11 mm e cinco canos foram fixadas nos cestos de gávea de combate. Ainda nos anos 1880, o Fusō tornou-se o primeiro navio da Marinha Imperial Japonesa a receber tubos lança-torpedos de 356 mm para torpedos Schwartzkopff, dois acima da linha d’água, um por bordo. Em 1886, após testes iniciais que mostraram danos frequentes aos torpedos, o engenheiro naval francês Louis-Émile Bertin recomendou a adição de "colheres" nas extremidades dos tubos para melhorar o lançamento, solução que se mostrou eficaz.

Com a reforma de 1891 a 1894, os armamentos antitorpedeiros foram reforçados: substituíram-se três Nordenfelt de 25,4 mm por dois canhões Hotchkiss de 2,5 libras e um Hotchkiss de 3 libras, além de mais duas Nordenfelt de 11 mm nos cestos de gávea de combate. Após a Primeira Guerra Sino-Japonesa, um pequeno deque de popa foi adicionado em 1896 para instalar um canhão de disparo rápido de 12 cm (4,7 polegadas) como canhões de caça à ré, acrescentando outro igual à proa e substituindo os dois canhões de 17 cm por mais dois QF de 12 cm. Também foram instalados doze canhões Hotchkiss de 3 libras e as armas de 11 mm foram trocadas por novas Nordenfelt de 25,4 mm. Em março de 1900, os canhões QF de 12 cm foram substituídos por dois QF de 15 cm, que se tornaram as armas principais de perseguição à proa e popa, e os antigos canhões reaproveitados para liberar espaço. O último grande ajuste ocorreu em julho de 1906, com a substituição dos obsoletos canhões de 24 cm por dois QF de 15 cm e a adição de mais dois Hotchkiss de 3 libras.

Quanto à proteção, o Fusō tinha um cinturão blindado de ferro forjado na linha d’água com 229 mm (9 polegadas) de espessura na seção central, reduzindo-se para 162 mm (6,4 polegadas) nas extremidades. Os flancos da bateria central também tinham 229 mm de blindagem e os anteparos transversais chegavam a 203 mm (8 polegadas).

Construção e carreira Batizado com um nome poético do Japão, o Fusō foi construído no estaleiro Samuda Brothers, em Cubitt Town, Londres, com a quilha batida em setembro de 1875, integrando o Programa de 1875 da Marinha Imperial Japonesa, destinado a ampliar e modernizar a frota japonesa no início da era Meiji. O Fusō foi lançado ao mar em 14 de abril de 1877, quando Ueno Ikuko, esposa do cônsul japonês, cortou a corda de retenção usando um martelo e um cinzel. Concluído em janeiro de 1878, o navio partiu para o Japão antes de 22 de março sob o comando de um capitão britânico e com uma tripulação britânica, já que a Marinha Imperial Japonesa ainda não estava preparada para conduzir uma viagem tão longa. Durante a passagem pelo Canal de Suez, a embarcação sofreu danos leves ao encalhar. Ela recebeu reparos temporários em um estaleiro local e chegou a Yokohama em 11 de junho. Ainda durante o trajeto, o navio foi classificado como embarcação de guerra de segunda classe. Em 17 de junho, foi transferido para o Arsenal Naval de Yokosuka para passar por reparos permanentes. Em 10 de julho, realizou-se em Yokohama uma cerimônia formal de recepção do navio, com a presença do imperador Meiji e de vários altos funcionários do governo. Depois disso, a embarcação foi aberta à visitação da nobreza, de suas famílias e de convidados por três dias. A partir de 14 de julho, o público geral pôde visitar o navio durante uma semana. esquerda|miniaturadaimagem|Fusō fundeado após sua reconstrução