Jean-François Marie de Surville (18 de janeiro de 1717 – 8 de abril de 1770) foi um capitão mercante a serviço da Companhia Francesa das Índias Orientais. Ele comandou uma viagem de exploração ao Oceano Pacífico entre 1769 e 1770.
Nascido na , na França, Surville ingressou na Companhia Francesa das Índias Orientais em 1727, aos 10 anos de idade. Nos anos seguintes, navegou em diversas viagens pelas águas da Índia e da China. Em 1740, alistou-se na Marinha Nacional Francesa; lutou na Guerra de Sucessão Austríaca e na Guerra dos Sete Anos, tornando-se prisioneiro de guerra em duas ocasiões. Após encerrar sua carreira militar, retornou à Companhia Francesa das Índias Orientais. Em 1769, no comando do Saint Jean-Baptiste, partiu da Índia em uma expedição ao Pacífico em busca de oportunidades comerciais. Explorou os mares ao redor das Ilhas Salomão e da Nova Zelândia antes de seguir para leste através do Pacífico Sul em direção à América do Sul. Parte de sua rota ao redor da Nova Zelândia coincidiu com a de James Cook a bordo do HMS Endeavour, que o havia precedido por apenas alguns dias. De Surville morreu afogado na costa do Peru em 8 de abril de 1770, enquanto buscava ajuda para sua tripulação, gravemente afetada pelo escorbuto.
Primeiros anos Nascido em 18 de janeiro de 1717, Jean-François Marie de Surville era filho de Jean de Surville, funcionário do governo em Port-Louis, na Bretanha, e de sua esposa, Françoise Mariteau de Roscadec, filha de um dono de navios. Um dos nove filhos, Surville deixou a casa da família aos 10 anos de idade e ingressou na Companhia Francesa das Índias Orientais. Já existiam vínculos familiares com a companhia; um irmão mais velho já trabalhava para ela e sua mãe era sobrinha de um dos diretores da empresa. Seu empregador era uma empresa comercial apoiada pelo governo francês, criada alguns anos antes para atuar no comércio das Índias Orientais, e Surville participou de viagens comerciais pela Índia e pela China. Em 1740, alcançou o posto de segundo alferes.
Carreira naval Com o início da Guerra de Sucessão Austríaca em 1740, Surville ingressou na Marinha Nacional Francesa e participou do conflito. Serviu a bordo do Hercule como alferes e tornou-se prisioneiro de guerra em 1745, quando a embarcação foi capturada pela Marinha Real Britânica ao largo de Sumatra. Após ser libertado em 1746, passou a servir no Duc de Chartres, que transportava mercadorias da França para a África Ocidental, de onde levava pessoas escravizadas para o Caribe e, posteriormente, melaço do Caribe para a França, processo conhecido como comércio triangular. Em 1747, Surville recebeu o comando do Bagatelle e uma carta de corso, que o autorizava a atuar como corsário em nome da França. Durante uma dessas missões, foi novamente capturado pela Marinha Real Britânica e levado como prisioneiro para a Inglaterra.
Libertado em 1748, Surville retornou à Companhia Francesa das Índias Orientais como primeiro-tenente a bordo do Duc de Béthune, um navio mercante armado com 40 canhões que operava na rota comercial até a China. Ao retornar à França em 1750, casou-se com Marie Jouaneaulx em Nantes. O casal teve dois filhos, que posteriormente ingressaram no Exército Real Francês. Nos anos seguintes, Surville realizou viagens comerciais entre portos franceses no Oceano Índico e, nesse período, adquiriu uma propriedade rural na ilha de Reunião.
Em 1753, Surville tornou-se comandante do Renommée e fez contato com Marc-Joseph Marion du Fresne, que mais tarde se tornaria conhecido por suas viagens ao Pacífico. Durante a Guerra dos Sete Anos, iniciada em agosto de 1756, Surville retornou ao serviço ativo na Marinha Nacional Francesa e navegou no Oceano Índico com a frota naval do Conde d'Aché como comandante do Duc d'Orléans. Foi bem avaliado por seus superiores por sua habilidade náutica e liderança, sendo nomeado “oficial dos azuis”, título utilizado para oficiais não aristocratas.
Surville participou da em 1758 e foi ferido no ano seguinte na . Em reconhecimento à sua conduta, recebeu a Cruz de São Luís. Terminou a Guerra dos Sete Anos como comandante do La Fortuné, um navio de guerra de 64 canhões. Ao transportar soldados de volta à França, enfrentou mau tempo ao largo da costa da África do Sul. O navio passou a apresentar vazamentos e naufragou próximo à Cidade do Cabo. Surville conseguiu conduzir toda a tripulação e os passageiros em segurança até a costa e, posteriormente, até a Cidade do Cabo. Esse episódio atrasou seu retorno à França até o início de 1764.
Índia Francesa Surville retomou o serviço na Companhia Francesa das Índias Orientais em 1765 e, ainda nesse ano, comandou o Duc de Praslin na viagem que transportou o novo governador de Pondicherry, , para a Índia Francesa. Posteriormente, juntamente com Lauriston e Jean-Baptiste Chevalier, governador de Chandannagar — assim como Pondicherry, um assentamento francês na costa leste da Índia —, Surville organizou um empreendimento voltado ao comércio no Oceano Índico. Retornando à França em 1766, obteve a aprovação da Companhia Francesa das Índias Orientais para seus planos comerciais. Necessitando de um navio, supervisionou a construção do Saint Jean-Baptiste, um grande navio mercante armado com 36 canhões, em Port-Louis. Em junho de 1767, partiu com a embarcação rumo à Índia. Nos meses seguintes, realizou uma série de viagens comerciais ao longo da costa indiana. Também exerceu a função de vice-governador de Pondicherry. alt=uma gravura colorida mostrando um porto, com um navio em primeiro plano e edifícios ao fundo à direita|esquerda|miniaturadaimagem|Vista de Pondicherry no final do século XVIII No final de 1768, a Companhia Francesa das Índias Orientais enfrentava graves dificuldades financeiras, e seu monopólio sobre o comércio nas Índias Orientais estava ameaçado de revogação. Surville e seus associados perceberam que isso poderia representar novas oportunidades para seu consórcio e planejavam uma expedição comercial às Filipinas. Nesse mesmo período, tomaram conhecimento de rumores sobre uma recente descoberta britânica de terras no Pacífico Sul, supostamente a ilha de . Esses rumores baseavam-se nos relatos do sobre o Taiti.
Davis Land representava uma possibilidade comercial significativa para o consórcio de Surville, mas também era necessário estabelecer uma presença francesa no Pacífico Sul antes que os britânicos o fizessem, sob risco de exclusão da região. Assim, decidiu-se que Surville lideraria uma expedição ao Pacífico Sul. O plano previa que ele navegasse com o Saint Jean-Baptiste até Malaca e, em seguida, para o Mar da China Meridional e as Filipinas. Depois, deveria percorrer as latitudes norte e sul do Pacífico em busca de Davis Land. Esse objetivo deveria permanecer em segredo, inclusive para os oficiais da expedição. No retorno, Surville faria escalas em Manila e Batavia. Para evitar suspeitas britânicas quanto ao real propósito da viagem, os destinos oficiais do Saint Jean-Baptiste eram Manila e Cantão.
Após mais de dois meses de preparação, Surville partiu de Chandannagar a bordo do Saint Jean-Baptiste em 3 de março de 1769, transportando uma variedade de mercadorias comerciais como carga. Caso não fosse possível negociá-las com os mercadores judeus que se acreditava viverem em Davis Land, os produtos seriam vendidos em Manila no retorno da expedição, aumentando sua rentabilidade. Também estavam a bordo diversos mapas e relatos de viagens ao Pacífico, incluindo um relato da jornada de Abel Tasman à Nova Zelândia em 1642. Após escalas em assentamentos franceses ao longo da costa indiana para reabastecimento, Surville fez sua última parada em Pondicherry, onde incorporou alguns granadeiros ao contingente da expedição. A expedição, então com 172 homens, partiu em 22 de junho de 1769.
Exploração do Pacífico alt=Mapa dos oceanos Índico e Pacífico mostrando a rota do navio Saint Jean-Baptiste|direita|miniaturadaimagem|Rota do navio Saint Jean-Baptiste Surville navegou inicialmente até as Ilhas Nicobar para tentar verificar a presença de uma colônia dinamarquesa, mas encontrou ventos adversos quando as ilhas já estavam à vista. Em vez de perder tempo tentando manobrar para uma posição mais favorável, seguiu para Malaca, onde chegou em 29 de junho de 1769. A recepção inicial, cordial por parte do governador neerlandês, rapidamente se deteriorou quando outra embarcação, um navio britânico, chegou com acusações de que os franceses se dirigiam às Índias Orientais, onde os neerlandeses detinham o monopólio comercial. Surville partiu prontamente, navegando até Trenganu, na península da Malásia, e depois até as ilhas do canal de Bashi, entre Taiwan e as Filipinas, onde reabasteceu água e alimentos. Vários tripulantes desertaram e, não conseguindo localizá-los, Surville sequestrou alguns habitantes das ilhas Bashi para substituir os homens ausentes.
Para surpresa da maior parte da expedição, Surville então seguiu rumo sudeste, afastando-se do destino oficial de Cantão, em conformidade com suas instruções secretas de procurar Davis Land. Avançando em direção às Ilhas Salomão, que não eram avistadas por europeus desde sua descoberta em 1568, a tripulação começou a sofrer com o escorbuto. Eles alcançaram a costa da Ilha de Santa Isabel, nas Ilhas Salomão, em 7 de outubro de 1769. No primeiro ancoradouro, que Surville denominou “Port Praslin”, foram recebidos de forma hostil. Na tentativa de obter alimentos frescos para auxiliar os doentes, um grupo desembarcou, mas foi atacado pelos habitantes locais. Vários franceses ficaram feridos, um deles fatalmente, e mais de 35 moradores da ilha foram mortos. A expedição tentou então outro ancoradouro, mas não conseguiu realizar trocas comerciais nem reabastecer o navio sem sofrer novos ataques.
Nesse momento, o Saint Jean-Baptiste enfrentava grave escassez de alimentos frescos, e muitos tripulantes já haviam morrido de escorbuto. A motivação da tripulação estava baixa, agravada pelo mau estado do navio, que apresentava vazamentos. Surville foi forçado a buscar um ancoradouro seguro, mas não quis arriscar uma nova parada nas Ilhas Salomão. Assim, após consultar os mapas de Tasman, decidiu, em meados de novembro, seguir para a Nova Zelândia. Para evitar perder o ponto de chegada devido a erros de longitude, navegou inicialmente para sudoeste através do Mar de Coral, antes de rumar para leste na latitude do norte da Nova Zelândia. Durante grande parte do trajeto ao sul, manteve-se aproximadamente paralelo à costa da Austrália e, antes de virar para leste, é provável que tenha chegado próximo a alcançar e descobrir a costa da atual Nova Gales do Sul. Foram avistadas várias aves e a tripulação relatou sentir cheiro de terra, mas, ainda assim, Surville manteve a mudança de rumo.
Nova Zelândia alt=Mapa do norte da Ilha Norte da Nova Zelândia mostrando as rotas do Saint Jean-Baptiste e do Endeavour|esquerda|miniaturadaimagem|Rota do Saint Jean-Baptiste ao redor do extremo norte da Nova Zelândia em dezembro de 1769. Também é indicada a rota do Endeavour. As datas correspondem aos diários de bordo das respectivas embarcações, que diferem em pelo menos um dia devido a métodos distintos de marcação do tempo e ao porto de origem Em 12 de dezembro de 1769, às 11h15, o Saint Jean-Baptiste avistou a costa da Nova Zelândia e navegou até próximo de , na costa oeste da parte norte da Ilha Norte. Considerando a costa inóspita, Surville seguiu para o norte. Em 16 de dezembro, o navio contornou o Cabo Norte e, rumando ao sul, passou pela área que o HMS Endeavour de James Cook havia atravessado um ou dois dias antes. Surville e Cook foram os primeiros europeus a navegar pelas águas da Nova Zelândia desde a viagem de Abel Tasman, 127 anos antes.