O Palácio Real do Sítio da Nazaré é uma edificação de arquitectura civil palaciana, situada no Sítio da Nazaré, no concelho da Nazaré, Portugal. Trata-se de um paço de traço sóbrio e inspiração seiscentista, erigido no século XVIII para servir de pousada à família real portuguesa durante as suas peregrinações ao Santuário de Nossa Senhora da Nazaré. O edifício é gerido pela Confraria da Nossa Senhora da Nazaré.
Descrição
Exterior O palácio apresenta-se como um volume articulado de planta rectangular, subdividido em dois corpos dispostos em eixo, sendo o volume situado a Oeste mais estreito do que o principal. O conjunto edificado implanta-se paralelamente à igreja do Santuário, definindo um pátio intermédio outrora encerrado por um muro de considerável altura. Este muro, que incluía um portal central em arco de volta perfeita ornamentado com colunas, arquitrave e pináculos, integrava igualmente espaços comerciais que prolongavam o esquema do edifício principal. As coberturas distinguem-se entre o telhado de três águas do corpo principal, que ostenta uma ampla mansarda voltada a Norte, e o telhado de duas águas do corpo Oeste, ambos rematados por beirada simples.
Fachadas As fachadas, rebocadas e caiadas de branco, são marcadas por uma fenestração rítmica de vãos rectilíneos moldurados. A fachada Este, voltada para o largo onde se situa o coreto, serve actualmente como ponto de acesso principal através de uma varanda alpendrada que se estende por toda a largura do alçado. Esta varanda assenta em pilares sobre plintos paralelepipédicos e possui uma guarda de madeira em balaustrada plana. No piso térreo deste alçado, as aberturas estão interligadas pela verga, compreendendo portas e janelas jacentes dispostas de forma irregular.
A fachada Norte é antecedida por uma escadaria de cantaria no ângulo Nordeste, dotada de balaustrada e acrotérios, que comunica com o andar nobre. Neste sector, a fenestração inclui seis janelas de varandim com guardas em ferro forjado e uma bífora de vãos jacentes, enquanto o piso inferior abriga vãos funcionais, incluindo um espaço côncavo onde se encontra instalada uma caixa-multibanco.
Na fachada Sul, orientada para o oceano, as janelas de varandim apresentam um ritmo mais denso, tendo sido, em momento posterior, adaptadas a janelas de peitoril com a inclusão de panos de peito em cantaria. Do alto desta fachada, vislumbra-se o panorama da Praia da Nazaré, da Pederneira e da Serra de Albardos.
O alçado Oeste, adossado em ângulo recto ao Hospital da Confraria, exibe vãos mais simples e um óculo (olho de boi).
Interior O interior do palácio organiza-se em torno de um corredor central que percorre toda a extensão do andar nobre, apresentando pavimentação cerâmica e lambris de madeira envernizada. A ala Sul, voltada ao mar, distingue-se pela sua riqueza decorativa, conservando tectos e paredes com apainelados de estuque executados em 1889, com motivos fitomórficos e molduras recortadas. Algumas destas dependências ostentavam, originalmente, revestimentos em tecido. Em contraste, as salas situadas a Norte apresentam uma sobriedade decorativa superior. O piso térreo, outrora ocupado por cavalariças e lojas abobadadas na década de 1770, serve actualmente propósitos administrativos, oficinas e refeitório da Confraria, mantendo em certas zonas os antigos espaços comerciais voltados para o Largo de Nossa Senhora da Nazaré e para o Largo do Hospital. Os detalhes ornamentais incluem ainda silhares de azulejos de padrão azul e branco oriundos do Juncal e tectos de caixotões de madeira na zona da varanda.
História A necessidade de providenciar alojamento digno para os peregrinos e para a corte no Sítio da Nazaré recua ao início do século XVII. Em 1677, o Padre Matias da Conceição já registava uma "igreja acompanhada do muy grandiosas cazarias e aposentos nobre".
No entanto, a edificação do palácio actual deve-se à iniciativa de D. Nuno Álvares Pereira de Mello, primeiro Duque de Cadaval e administrador da Real Casa de Nossa Senhora da Nazaré, que em 1718 ordenou a sua construcção para acomodar a Família Real. Ao longo do século XVIII, o edifício foi palco de diversos eventos e reformas: em 1738, serviu de abrigo ao Círio de Lisboa após a destruição das hospedarias de romeiros; em 1758, registaram-se obras significativas envolvendo mestres pedreiros e carpinteiros; e na década de 1770, proceder-se-ia ao lajeamento da varanda e à construção de abóbadas nas lojas.
A direcção das obras passou, em 1779, para as mãos de Paulo Almeida Nazaré, seguindo-se um período de intenso apetrechamento. Entre 1784 e 1794, o palácio foi mobilado com dezenas de cadeiras encomendadas em Leiria e cadeiras tripeças. Um incidente notável ocorreu durante as festividades de 1790, quando o lançamento de foguetes a partir da varanda provocou um incêndio no edifício. A transição para o século XIX trouxe novos melhoramentos, como a recepção de mais de mil e seiscentos azulejos do Juncal em 1802 e a preparação do palácio para a visita do Príncipe Regente em 1806, que incluiu a aquisição de novos trens de cozinha e roupas. Em 1807, a varanda foi novamente intervencionada com a colocação de pedras lavradas.
O século XIX foi marcado por frequentes visitas régias, destacando-se as passagens de D. João VI, do Príncipe D. Pedro, de D. Miguel e da Rainha D. Maria I. Em 1832, o pintor Duarte José Coelho foi responsável pela pintura do imóvel, e no ano seguinte o inventário registava a presença de um retrato de D. Miguel. Em Maio de 1852, a família real pernoitou novamente no palácio após uma viagem pelo Norte do país. O investimento na sumptuosidade do espaço continuou com a compra de um faqueiro de prata da Alemanha em 1853 e novos mobiliários em 1858 e 1887. Foi também em 1887 que se abriu uma nova entrada para o edifício, seguindo-se a instalação de campainhas eléctricas e a execução dos estuques decorativos em 1889.
O palácio sofreu danos em 1898 devido à queda de um raio que atingiu a denominada sala rica. No início do século XX, o uso do espaço foi restringido por decreto aos membros da Família Real, Ministros e Governadores Civis. Contudo, com a queda da Monarquia e a implantação da República, o perfil de utilização alterou-se drasticamente. Em 1914, procedeu-se à venda em hasta pública do mobiliário histórico e, anos mais tarde, em 1919 e 1922, o palácio foi arrendado para a realização de bailes de Entrudo e festas sociais.
Na actualidade, o monumento cumpre funções administrativas para a Confraria de Nossa Senhora da Nazaré, enquanto o Salão Nobre é aproveitado para a realização de exposições temporárias, preservando-se como um marco da memória histórica e social da região.
Galeria