Eunice Antunes, nome em Guarani Kerexu Yxapyry, ou Eunice Kerexu (Terra Indígena Xapecó, Entre Rios, registrada em Chapecó, 14 de julho de 1979), é uma política, gestora ambiental, educadora e liderança indígena brasileira, pertencente ao povo mbyá guarani. Foi a primeira mulher guarani a chegar à posição de cacique, coordenou a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil e entre 2023 e 2024 ocupou uma das secretarias do Ministério dos Povos Indígenas.
Biografia Registrada com o nome português de Eunice Antunes, nasceu em 14 de julho de 1979 na aldeia da Linha Limeira, na Terra Indígena Xapecó, situada no município catarinense de Entre Rios, mas seu registro civil é de Chapecó.Eleições 2022 - Ficha dos candidatos."Kerexu. Candidato a deputado federal – SC". Folha de S.Paulo É a filha mais velha de Adão Antunes (Karaí Tataendy) (1957-2015) professor e agricultor, mestiço de branco e xiripá guarani e adotado pelos mbyá guarani, e Ivete de Souza (Jaxuka Rete), mbyá guarani.Santos, Adriana Heredia dos. "Adão Antunes". In: Literatura Infantil & Juvenil produzida em Santa Catarina. UFSC / CNPq, 2012 Oliveira, Andrea de. "Mulheres de ImPACTO – Kerexu Yxapyry". Pacto Pela Mata Atlântica, 11 de maio de 2021
Sua família mudou-se para a Terra Indígena Morro dos Cavalos, no município de Palhoça, quando Eunice tinha cerca de oito anos, e lá ela passou a usar o nome indígena Kerexu Yxapyry, que diz ser seu "verdadeiro nome". Estudou em uma escola para colonos italianos, e ela diz que o choque cultural e o preconceito que sofreu foram experiências difíceis. Quando terminou a quarta série teve de interromper os estudos, pois não havia nas proximidades escolas para as séries seguintes. Neste período sua família se mudou para Curitiba, onde tiveram dificuldade de encontrar trabalho e caíram na pobreza.
Os pais voltaram para Morro dos Cavalos mas Kerexu ficou, encontrando colocação como empregada doméstica na casa de um pastor evangélico e depois como secretária em uma loja de informática. Retomou sua educação ao completar 18 anos, cursando módulos de Ensino de Jovens e Adultos e depois um curso de Magistério, formando-se professora. Durante o curso conheceu o acadêmico indígena Marcos Moreira (Karai Popygua), com quem casou, tendo com ele os filhos Kennedy, Karai e a filha Rayane.Melo, Clarissa Rocha de. Da universidade à casa de rezas guarani e vice-versa: reflexões sobre a presença indígena no ensino superior a partir da experiência dos guarani na licenciatura intercultural indígena do sul da Mata Atlântica/UFSC. Universidade Federal de Santa Catarina, 2014, p. 226 Depois de vários anos em Curitiba, decidiu juntar-se aos pais em Morro dos Cavalos, onde o pai havia conseguido empregar-se na Escola de Ensino Fundamental da aldeia Itaty. Ali Kerexu começou sua carreira profissional, por convite do cacique Artur Benite, atuando como alfabetizadora a partir de 2004.Azara, Weuler Pereira de. Aldear a política é exatamente estar onde estamos da forma que somos: mulheres indígenas na política catarinense (2018-2024). Universidade do Estado de Santa Catarina, 2024, p. 109 Trabalhou também na secretaria da escola e depois na Coordenação Regional e na Secretaria de Educação.Santos, Diogo Pereira dos & Martins, Davi Timóteo. "Um lugar político como Guarani". Museu da Pessoa, 9 de março de 2023
Seu ativismo pelos direitos indígenas começou em 2007, quando a Secretaria de Educação proibiu que rituais agrícolas tradicionais fossem utilizados no aprendizado das escolas indígenas, participando então de um grupo de estudos que elaborou um currículo escolar específico para o povo guarani, o que levou à criação do primeiro Projeto Político Pedagógico indígena oficial no Estado de Santa Catarina. Em 2011 ingressou na primeira turma do curso de Licenciatura Intercultural Indígena do Sul da Mata Atlântica, da Universidade Federal de Santa Catarina, com ênfase em Gestão Ambiental."Sobre os palestrantes". XXII Semana de Relações Internacionais. CEUB, 2023 Seu principal objetivo com o curso era aprender mais sobre os mecanismos da sociedade brasileira e assim poder ajudar seu povo nas lutas pela educação e pela regularização fundiária da sua terra.Azara, pp. 108-109 Porém, mesmo tendo uma formação universitária, muitas vezes seus conhecimentos foram questionados: nas palavras de Weuler Pereira de Azara, "a sua existência é perpassada diariamente pelo enfrentamento à violência de gênero por ser mulher, ao racismo por ser indígena e à tentativa de epistemicídio por ser uma intelectual mulher/indígena que carrega consigo a união desses dois saberes, ancestral e acadêmico".Azara, pp. 39-40
Em 2012 Kerexu foi eleita cacica da sua aldeia, a primeira mulher guarani a ser reconhecida nesta posição. Contudo, ela ainda não tinha preparo para as grandes responsabilidades exigidas, que envolviam conhecimentos sobre articulação política, legislação fundiária, processo de demarcação, processo judicial e outros temas correlatos, tendo de aprender na prática. Leites, Ísis; Filho, Jucelino & Barbosa, Rodrigo. "Kerexu: conheça a primeira cacica Guarani reconhecida no Brasil". Cotidiano, UFSC, 11 de outubro de 2022 Segundo Andrea de Oliveira, o início do seu cacicado foi tímido, nas assembleias dos caciques ela mais ouvia que falava, "mas esta situação não se prolongou por muito tempo, pois os caciques foram percebendo que quando Kerexu acompanhava qualquer reunião, tudo era diferente. Ela conversava muito bem, argumentava, defendia e era ouvida". O contato e a integração com outras etnias fortaleceram o propósito da defesa da terra, e "com o apoio da universidade, a questão ganhou grande visibilidade".
Tornou-se também a primeira mulher a assumir a coordenadoria da Comissão Guarani Yvyrupa, com abrangência nacional e parcerias internacionais, e da Comissão Nhemonguetá, a comissão dos caciques de Santa Catarina, promovendo pautas como cultura, tradições, espiritualidade, qualidade de vida, reflorestamento, agricultura tradicional, conscientização e ativismo político, articulação com a sociedade."Kerexu Yxapyry fala sobre o nhanderekó, o Bem Viver no modo de vida Guarani". Portal Catarinas, 6 de agosto de 2021 Em 2015, durante os trabalhos do II Fórum Nacional de Cultura dos Povos Indígenas, foi eleita um dos dois representantes da Região Sul no Colegiado Setorial de Culturas dos Povos Indígenas, órgão do Ministério da Cultura encarregado de elaborar as políticas culturais do Ministério voltadas para os indígenas."II Fórum Nacional de Cultura dos Povos Indígenas". Conselho Nacional de Política Cultural, 14 de agosto de 2015 Ainda em 2015 concluiu sua licenciatura com o trabalho intitulado Nhandereko nhanhembo'e nhembo' ea py — Sistema nacional de educação: um paradoxo do currículo diferenciado das escolas indígenas guarani da Grande Florianópolis, onde defendeu o modelo de escola indígena construída a partir das demandas e diálogos com os próprios indígenas.Azara, p. 108
Seu período como cacica foi marcado por intensos conflitos, gerados pela disputa da Terra Indígena Morro dos Cavalos com grileiros, agentes imobiliários, fazendeiros e políticos. A TI era reconhecida pela Funai desde 2002 e em 2010 havia sido demarcada, mas ainda não estava definitivamente homologada, ocorrendo uma série invasões, ameaças, atentados e outras violências contra os indígenas da TI, ela mesma e sua família. Depois que sua mãe sofreu um grave atentado em 2017, onde quase perdeu a vida, Kerexu não resistiu mais à tensão contínua e renunciou ao cacicado. As ameaças a ela e sua família não cessaram, passando a necessitar de escolta policial por algum tempo.
Aproveitando um convite para ingressar na política partidária, filiou-se ao PSOL e em 2018 e 2022 concorreu a deputada federal. Obteve 35 mil votos na segunda eleição, mas seu partido não atingiu o quociente eleitoral e ela não pôde assumir um mandato. No entanto, segundo Leites, Filho & Barbosa, a expressiva votação a colocou na posição de uma das principais lideranças da esquerda em Santa Catarina. Em 2021 era coordenadora executiva da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB),Zank, Sofia. "A voz de uma liderança indígena feminina sobre a questão de gênero - uma oportunidade de escuta e reflexão para a pesquisa etnobiológica". In: Ethnoscientia, 2021; 6 (2) foi fundadora e coordenadora de projetos do Centro de Formação Tataendy Rupa e co-fundadora da Articulação Nacional de Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade, participou das Marchas das Mulheres Indígenas em Brasília e em 2021 da mobilização indígena em Florianópolis contra a tese do marco temporal. Em 2022 a Câmara Municipal de Florianópolis concedeu-lhe o título de Cidadã Honorária."Resolução n.º 02521/2022". Câmara Municipal de Florianópolis, 28 de abril de 2022 Em 2023 sua trajetória de vida foi incluída no Museu da Pessoa.Martins, Dalton. "Um lugar político como Guarani". Brasiliana Museus, 9 de setembro de 2023
Em novembro de 2022, por indicação da APIB, foi agregada ao Grupo de Trabalho dos Povos Originários do Gabinete de Transição do presidente eleito Lula,"Após pressão da Apib, Governo de Transição acata indicações da organização". Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, 17 de novembro de 2022 e em janeiro de 2023 foi indicada para chefiar a Secretaria de Direitos Ambientais e Territoriais do Ministério dos Povos Indígenas.Navegantes, Vitórya. "UFSC ajudou a formar indígenas que vão atuar no Ministério dos Povos Indígenas". Secretaria de Comunicação/UFSC, 23 de janeiro de 2023 Deixou o cargo em fevereiro de 2024, alegando que sua terra continuava precisando de atenção.Bastos, Ângela. "Um ano depois de nomeada, Kerexu deixa Ministério dos Povos Indígenas e volta a SC". NSC Total, 22 de fevereiro de 2024
Em 30 de abril de 2025 assumiu a coordenação do Distrito Sanitário Especial Indígena Interior Sul, órgão do Ministério da Saúde responsável pela atenção à saúde de 42 mil indígenas de Santa Catarina e Rio Grande do Sul, de 16 etnias, distribuídos em 200 aldeias, sendo a primeira mulher indígena a ocupar o cargo. Analúcia Hartmann, procuradora da República, expressou que "minha felicidade é grande pois acompanho a Eunice desde quando ela era professora no Morro dos Cavalos. De professora, ela passou à liderança, cacique, depois chegou ao Ministério, na proteção dos territórios dos povos indígenas, e agora neste cargo responsável pela reconstrução da saúde indígena no sul do pais"."MPF/SC prestigia posse da primeira indígena na coordenação do DSEI interior sul". Ministério Público Federal em Santa Catarina, 30 de abril de 2025 Em outubro foi uma das pessoas indicadas pelo Ministério dos Povos Indígenas para compor a Câmara de Conciliação proposta pelo Supremo Tribunal Federal a fim de discutir a tese do marco temporal. A tese é intensamente repudiada pelos povos indígenas, pois impõe grandes obstáculos às demarcações. A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil e a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira publicaram notas protestando contra a sua e as outras indicações, considerando que, sendo funcionários de órgãos do governo, não teriam legitimidade para representar os povos nativos.Medeiros, Taísa. "Movimento indígena reprova indicações para conciliação no STF". 15 de outubro de 2024 Misna, Letícia. "Coiab se posiciona contra nomes indicados para discutir Marco Temporal". Revista Cenarium, 18 de outubro de 2024 Kerexu participa de atividades articuladoras de grupos de pesquisa universitários e veículos de imprensa.Ago 2021. "Kerexu Yxapyry fala sobre o nhanderekó, o Bem Viver no modo de vida Guarani". Portal Catarinas, 6 de agosto de 2021"Mulheres indígenas na política: entrevista com Kerexu Yxapyry". Aya Laboratório, 13 de maio de 2024
Em 21 de julho de 2026, Kerexu oficializou sua candidatura como deputada federal pelo estado de Santa Catarina pelo Partido dos Trabalhadores."Campo Democrático de SC unifica forças em convenções conjuntas". PT - Florianópolis, 23 de julho de 2026