Etelvina Santana da Silva, mais conhecida como Maninha Xukuru-Kariri (Palmeira dos Índios, 1966 — Palmeira dos Índios, 11 de novembro de 2006), foi uma liderança indígena e feminista brasileira, pertencente à etnia Xukuru-Kariri. Suas lutas em defesa dos direitos indígenas e pela melhoria da sua qualidade de vida lhe deram reconhecimento nacional e internacional.

Família Os Xukuru-Kariri são considerados um povo indígena emergente, reconhecido oficialmente em 1952, após um longo período de perseguições, quando foram expulsos de suas terras e obrigados a dissimular sua identidade, perdendo parte de suas tradições.Silva, Ana Valéria dos Santos. Entre invisibilidade e protagonismo: participação política de Maninha Xukuru Kariri no movimento indígena (1966-2006). Universidade Federal de Alagoas, 2024, pp. 19-20 Os ancestrais diretos de Maninha, desde pelo menos seu bisavô, participaram ativamente das lutas pela recuperação das suas terras e da sua identidade. Seu avô Alfredo Celestino foi uma liderança, reivindicando o reconhecimento oficial dos Xukuru-Kariri como um povo indígena, tendo o apoio da Igreja Católica. O reconhecimento foi dado em 1952, com a criação do Posto Indígena Irineu dos Santos e a aquisição da Fazenda Canto, em Palmeira dos Índios, que estava em posse privada, mas esse território tinha apenas 276 hectares, não sendo suficiente para o sustento de toda a população de cerca de 500 pessoas, e deixava de fora outros locais reivindicados pela etnia, incluindo o seu antigo cemitério, local sagrado localizado na Mata da Cafurna.Silva, pp. 21-22

Maninha nasceu em 1966 na aldeia da Fazenda Canto, filha de Marlene Santana da Silva e do cacique Antônio Celestino. Foi batizada com o nome de Etelvina Santana da Silva, homenageando sua avó materna Etelvina Santana, casada com José Augusto da Silva. Os Santana e os Celestino são as duas principais famílias locais e mantêm uma rivalidade histórica. Apesar da sua importância social na comunidade Xukuru-Kariri, ambas famílias lutavam com muita dificuldade pela sobrevivência num território pobre e conflituado. Sua mãe Marlene foi enfermeira prática e ajudante da escola. Seu pai Antônio quando jovem foi empregado pelo antigo Serviço de Proteção ao Índio como vaqueiro. Depois trabalhou em empregos temporários mal remunerados, e por fim dedicou-se à agricultura de subsistência. Como líder político, organizou a primeira retomada da Mata da Cafurna em 1979, e a segunda em 1986, que ocorreram em meio a represálias violentas. Teve os irmãos José Augusto, conhecido como José Neto, José Cícero, Meire, Sueli, Raquel, Célia e Yrákanã.Silva, pp. 23-26

Maninha desde jovem ajudou a família nas lavouras e na criação de seus irmãos. Começou seus estudos na escola da aldeia e depois, recebendo uma bolsa de estudos, continuou na escola particular Pio XII de Palmeira dos Índios, mas ali foi alvo do preconceito dos colegas.Silva, pp. 26-27

Carreira

Em 1986 partiu em direção ao Recife, pretendendo formar-se em Medicina, mas a bolsa da Funai não cobria o custo do curso preparatório. Conseguiu um emprego em Olinda, mas recebia um salário baixo. Não se adaptou ao meio urbano, voltando para sua terra em 1988. Ela disse que o período na cidade serviu para que se conscientizasse de quem era, e compreendesse que seu verdadeiro trabalho seria juntar-se às lutas do seu povo pela regularização da sua terra indígena. Passou a acompanhar seu pai em reuniões e eventos, tomando um contato mais íntimo com a política em torno da questão das terras e dos direitos indígenas, ganhando o respeito do seu povo pelo seu engajamento e talento para a liderança.Silva, pp. 28-31

Em setembro de 1990 participou da segunda reunião da Comissão Indígena Leste-Nordeste, fundada em maio por seu pai Antônio e outras lideranças, com o objetivo de lutar pelos territórios tradicionais e organizar o movimento na região. Maninha fora convidada pelo pai inicialmente para documentar as reuniões, pois tinha mais instrução que todos os outros. Em 1991 já era coordenadora geral da Comissão, que cresceu rápido e logo se fez notar em âmbito nacional, mas nos primeiros anos funcionou de maneira informal.Silva, pp. 35-38

Participou e debateu durante a primeira Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada no Rio de Janeiro em 1992.Ayres, Ariadne Dall'acqua et al. "A interpelação das mulheres indígenas sobre a conservação dos seus territórios". In: Revista Habitus, 2023; 21 (1): 34-51 Participou pessoalmente da retomada da Fazenda Caipe dos Xukuru de Ororubá em 1992; foi uma das lideranças da retomada da Fazenda Taboado dos Karapotó em 1993, correndo risco de vida num cenário violento; no mesmo ano participou de diversas mobilizações do povo Wassu Cocal, que estava em situação de fome, e da retomada da Fazenda Pedrinha. Em 1994 liderou a retomada das fazendas Jiboia e Brejinho dos Xukuru-Kariri, ocorrendo perigosos confrontos com tiroteios, envolvendo a polícia, posseiros e madeireiros ilegais. A partir desta retomada, passou a receber frequentes ameaças de morte.Silva, pp. 48-70

Em maio de 1995 a Comissão Leste-Nordeste foi reorganizada e fundada oficialmente como Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo (APOINME), que viria a ser uma das principais organizações indígenas do país.Silva, p. 32 Em 20 de novembro, acompanhada de Sebastião Machineri, coordenador da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira, denunciou em Genebra a difícil situação dos povos indígenas e a sistemática violação dos seus direitos durante a 46ª Sessão da Subcomissão de Prevenção da Discriminação e Proteção das Minorias, o principal órgão subsidiário do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas. A partir deste evento seu nome se consolidou definitivamente como uma importante liderança do movimento indígena brasileiro. Depois participou de inúmeras outras mobilizações. Em 2000 voltou à Europa para divulgar as reivindicações dos povos indígenas, passando por várias cidades da Alemanha e estabelecendo contato com autoridades locais e representantes de outros países. Em 2004 participou da delegação de lideranças que entregou ao presidente Lula uma série de reivindicações; foi convidada para o cargo de assessora do presidente da Funai, mas não aceitou, considerando que sua vinculação ao governo comprometeria sua liberdade de ação. Também recusou a coordenação da Funasa e convites para ingresso na política partidária.Silva, pp. 76-103

Seu trabalho à frente da APOINME se desenvolveu em vários campos. Iniciando nas reivindicações pela terra e organização do movimento indígena do Nordeste, depois se expandiu investindo na formação e capacitação de novas lideranças, buscando o engajamento de jovens e mulheres, atraindo importantes apoios nacionais e internacionais; organizando marchas, protestos e outras manifestações públicas; apoiando a formação de novas organizações indígenas locais e regionais; denunciando a violência contra os indígenas e a omissão do Estado em defendê-los e reconhecer seus direitos constitucionais, e pleiteando a promoção de políticas públicas de saúde, educação, etnodesenvolvimento, sustentabilidade e bem-estar dos povos nativos."Informe no. 736: Maninha Xukuru-Kariri faleceu na manhã desta quarta-feira, em Alagoas". Conselho Indigenista Missionário, 11 de outubro de 2006Silva, pp. 38-45

Seu ativismo feminista também foi relevante, abrindo espaço para as questões da mulher dentro do movimento indígena.Pankararu, C. "Somos filhos da terra". In: Pontes, A. L. M. et al (eds.). Vozes indígenas na saúde: trajetórias, memórias e protagonismos. Piseagrama | Editora Fiocruz, 2022, p. 165 Conforme depoimento da liderança Nailton Pataxó Hã-hã-hãe, que participou da criação da Comissão Leste-Nordeste, ao chegar Maninha já era feminista, e "no meio daqueles homens, tudo bruto porque a luta era pesada e a criação da gente não ajudava, Maninha sempre falava: 'Respeito é bom e eu gosto!' Ela não abaixava pra ninguém não, era uma guerreira. Enfrentava o que fosse, tinha homem que tremia". Segundo Liberato et alii, foi "atriz social crucial na discussão do papel da mulher nas aldeias indígenas brasileiras",Liberato, Rita Simone et alii. "Soberania Alimentar no Machimbombo e na aldeia: gênero na perspectiva Sul-Sul". In: Revista Estudos Feministas, 2019; 27 (3) — Seção Temática Nações e Memórias em Transe: Moçambique, África do Sul e Brasil e para Ana Valéria dos Santos Silva, "Maninha Xukuru-Kariri se fez presente em espaços difíceis de serem ocupados pelas mulheres em contexto nacional. Ao ingressar no movimento indígena em um período em que poucas mulheres tinham visibilidade, conquistou notoriedade tornando-se uma das mais importantes lideranças indígenas no país, com influências internacionais".Silva, p. 18

Deixou a coordenação geral da APOINME em 2005, pretendendo voltar a estudar. Estava cursando Filosofia quando faleceu de parada cardíaca, em 11 de novembro de 2006, quando buscava atendimento no hospital de Palmeira dos Índios, sendo sepultada no antigo cemitério Xukuru-Kariri de Mata da Cafurna. O hospital foi acusado de negligência, não forneceu atestado de óbito alegando que Maninha não morreu lá, e instalou-se uma grande polêmica. Segundo Silva, um mês depois, ainda sem o atestado, "cerca de quinhentas lideranças indígenas ocuparam as ruas de Palmeira dos Índios exigindo o documento, denunciando o descaso com a saúde oferecida aos povos indígenas e homenageando a companheira de luta. [...] À tarde, unificaram as forças, em frente da Catedral Diocesana, com outros movimentos sociais, entidades governamentais e população local, em passeata nas ruas de Palmeira dos Índios até a Câmara de Vereadores, dançando toré, com carros de som, faixas e cartazes".Silva, pp. 104-108

Seu desaparecimento foi lamentado por organizações indígenas de todo o país."Entrega da Comenda Maninha Xukuru Kariri marca o primeiro dia da 6ª CNSI". Ministério da Saúde, 16 de novembro de 2022 Em 21 de novembro recebeu homenagem na abertura do I Encontro Regional das Guerreiras Mulheres Indígenas do Nordeste e Leste, organizado pela APOINME com apoio do Serviço Alemão de Cooperação Técnica e Social, da Oxfam e do Instituto de Estudos Socioeconômicos.Santos, Hosana Celi Oliveira e. Dinâmicas sociais e estratégias territoriais: a organização social Xukuru no processo de retomada. Universidade Federal de Pernambuco, 2009, p. 125 Segundo Aldemir Barros da Silva Júnior, "sua trajetória não se finaliza com o seu precoce falecimento em 11 de outubro de 2006, pelo contrário, a memória de Maninha permanece no cotidiano dos povos indígenas do Nordeste, como instrumento de conscientização política. [...] Hoje, sua trajetória inspira novas lideranças e continua presente na luta dos povos indígenas pelo reconhecimento dos seus direitos".Silva Júnior, Aldemir Barros da. "Maninha Xukuru-Kariri: hoje sabemos o lugar que queremos ocupar na História do país". In: 30º Simpósio Nacional de História. Recife, 2019

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