"Darmok" é o segundo episódio da quinta temporada da série de ficção científica estadunidense Star Trek: The Next Generation. É o 102º episódio geral da série e foi exibido pela primeira vez nos Estados Unidos por redifusão em 30 de setembro de 1991. Foi dirigido por Winrich Kolbe e escrito por Joe Menosky a partir de uma história sua e de Phillip LaZebnik. The Next Generation se passa no século XXIV e acompanha as aventuras da tripulação da nave estelar USS Enterprise-D. Neste episódio, o capitão Jean-Luc Picard precisa superar uma barreira linguística para estabelecer relações com uma espécie alienígena.
A história original foi proposta por LaZebnik na terceira temporada, porém nenhum roteirista conseguiu criar um roteiro considerado aceitável. Menosky recebeu a história na quinta temporada e, após uma dificuldade inicial, concebeu a ideia de uma espécie se comunicar usando um idioma baseado em metáforas, criando ele mesmo a língua usando várias referências literárias e acadêmicas. Dois dias de filmagens foram passados em locação no Cânion Bronson, com Kolbe tendo uma dificuldade especial para criar uma cena de luta. Este episódio marcou a estreia de um novo figurino mais casual para Picard.
"Darmok" já foi analisado academicamente, com comentários sobre o uso de metáforas e alegorias no idioma tamariano e como tais figuras de linguagem se refletem nas comunicações culturais humanas. O episódio foi muito bem recebido pela equipe de produção e crítica especializada, com elogios especialmente para sua abordagem de história, as atuações de Patrick Stewart e Paul Winfield e uso da comunicação como o tema central, apesar de algumas críticas quanto a praticidade e lógica do idioma tamariano. O episódio já foi lançado em diferentes formatos de mídia caseira desde meados da década de 1990.
Enredo A tenta fazer contato com os tamarianos em órbita do planeta El-Adrel. Contatos anteriores falharam porque foi impossível entender o que esses alienígenas estavam falando; apesar do tradutor universal traduzir suas palavras, os tamarianos se comunicam usando alusões a sua mitologia e história a fim de transmitirem pensamentos e intenções. Semelhantemente, os tamarianos não conseguem entender a linguagem direta usada pela Federação dos Planetas Unidos.
Dathon, o capitão tamariano, se teletransporta junto com o capitão Jean-Luc Picard para a superfície do planeta, com a nave tamariana bloqueando qualquer tentativa da Enterprise de resgatar Picard. Dathon fica repetindo a frase "Darmok e Jalad em Tanagra" enquanto oferece uma adaga para Picard, com este achando que Dathon quer que os dois lutem até a morte. No dia seguinte, Dathon aparece correndo e preocupado e Picard percebe que há um predador na área. Ele começa a compreender os jargões tamanarianos ao reconhecer uma alegoria como uma tática para enfrentarem a fera. Os dois tentam enfrentar o predador juntos, porém uma tentativa da Enterprise de teletransportar Picard o atrapalha e Dathon é seriamente ferido.
Picard tenta cuidar dos ferimentos de Dathon e deduz que Darmok e Jalad eram guerreiros que se conheceram na ilha de Tanagra e foram forçados a lutar contra uma fera, tornando-se amigos no processo. Dathon tentou recriar isso com Picard na esperança de forjar uma amizade por meio de uma adversidade compartilhada. Picard então conta a Epopeia de Gilgamés, uma história semelhante com a de Darmok e Jalad. Dathon parece compreender a história antes de morrer por conta de seus ferimentos.
Enquanto isso, a bordo da Enterprise, o comandante William Riker e o resto da tripulação não conseguem se comunicar com os tamarianos, com todas as suas tentativas de resgatar Picard sendo impedidas. A Enterprise acaba atirando contra a nave tamariana, derrubando o bloqueio do teletransporte e trazendo Picard de volta. Os tamarianos preparam-se para revidar, mas Picard entra em contato e, com seu conhecimento recém adquirido do idioma, consegue conversar com eles. Picard oferece o diário e adaga de Dathon depois de lhes contar sobre o sacrifício de seu capitão. Os tamarianos dizem para ele ficar com a adaga como lembrança, mas pegam o diário e registram todo o ocorrido na superfície como "Picard e Dathon em El-Adrel". Picard depois lamenta a morte de Dathon, que se sacrificou em nome da comunicação, se perguntando se faria o mesmo.
Produção Roteiro A história base de "Darmok" foi proposta pelo roteirista independente Philip LaZebnik na terceira temporada. Na versão original, uma equipe avançada da visitaria um planeta e se dividiria, com cada tripulante encontrando uma misteriosa criança alienígena que sempre lhes saudaria dizendo "Darmok?" Não importando qual resposta, o tripulante seria lançado para a órbita do planeta dentro de um "casulo de mumificação". Por fim, o capitão Jean-Luc Picard encontraria a criança e, em vez de responder à pergunta, ele ficaria em silêncio e começaria a brincar com ela no chão, tendo deduzido que "Darmok" significava "brincar". Isto libertaria os tripulantes presos e a história terminaria.
O produtor executivo Rick Berman odiou o conceito, mas o produtor executivo Michael Piller adorou e quis levá-lo adiante, achando-o "curioso e interessante". A equipe de roteiristas determinou que a proposta de LaZebnik não funcionava no contexto de Star Trek: The Next Generation e precisava ser retrabalhada, porém ninguém conseguiu criar uma versão considerada aceitável, tanto que "Darmok" ganhou fama entre os roteiristas da série como o roteiro "insolúvel". Piller não estava disposto a abandoná-la, chegando a passá-la para dois roteiristas independentes que fracassaram em criarem uma versão aceitável e foram dispensados da série. A ideia continuou sendo considerada por duas temporadas até ser entregue para Joe Menosky, quem Piller achou que poderia conseguir criar algo interessante por ser um "cara muito inteligente e intelectual".
Menosky trabalhou em "Darmok" por vários dias, mas não conseguiu criar algo, chegando até temer que também seria demitido. Nesse meio tempo, Piller tinha assistido ao filme Dances with Wolves e ficou impressionado por uma cena em que um homem branco e um nativo-americano conseguem se fazer entender ao redor de uma fogueira sem falarem o mesmo idioma, dizendo durante uma reunião de roteiro: "É isso: um homem, um alienígena, sozinhos em um planeta, ao redor do fogo. Eles não sabem o idioma do outro, eles tem dificuldades em superar suas diferenças, e finalmente atravessam a comunicação. E talvez haja um monstro grande". Menosky ficou inspirado e, durante um fim de semana, escreveu um memorando que estabelecia o enredo da história, criava uma explicação para o não funcionamento do tradutor universal e abordava os temas de comunicação, linguagem e mitologia. A única coisa que Menosky manteve da história original de LaZebnik foi a palavra "Darmok", pois "eu gostei do som da palavra".
Uma das primeiras dificuldades de Menosky ao desenvolver a história foi encontrar um motivo para o tradutor universal não conseguir decifrar o idioma alienígena, por fim tendo a ideia de uma língua baseada em metáforas. A partir disso o roteirista criou sozinho todo o idioma tamariano dentro de um prazo apertado, usando três fontes principais. A primeira foi os trabalhos do psicólogo James Hillman, que enfatizava que "tudo é metáfora". A segunda foi a citação "Toda palavra é um poema", do tradutor John Ciardi. A terceira foi as metáforas de obras poéticas e filosóficas chinesas medievais, como I Ching. Menosky então criou os vários contos da mitologia tamariana, colocando um imagético suficiente para ser compreensível para os telespectadores. A escolha da Epopeia de Gilgamés para a cena da fogueira entre Picard e Dathon veio porque o roteirista achou que ela definia vários arquétipos ocidentais, com sua semelhança geral com o enredo do próprio episódio sendo uma "combinação de 'sorte do escritor' e inevitabilidade".
Filmagens thumb|esquerda|240px|O Cânion Bronson serviu de locação para o planeta El-Adrel "Darmok" foi dirigido por Winrich Kolbe. As cenas na superfície do planeta El-Adrel foram filmadas em locação durante dois dias no Cânion Bronson em Los Angeles, porém as cenas de Picard e Dathon ao redor da fogueira foram filmadas em estúdio. O diretor de fotografia Marvin V. Rush considerou estas cenas as mais desafiadoras do episódio, mas achou que o resultado final "tem um visual bastante crível e bonito". A iluminação nos rostos dos atores parece vir do fogo, mas na verdade era uma iluminação artificial que Rush criou com rebatedores e luzes fracas apontadas para cima e para baixo, filmando tudo com lentes longas. "Darmok" marcou a estreia de um novo cenário para a nave auxiliar, sendo a primeira vez que o interior combinou com o exterior da miniatura de filmagem.
Kolbe achou que a parte mais desafiadora foi o confronto com a criatura. Ele elaborou por conta própria a batalha, estabelecendo os movimentos de câmera e dos atores, porém o editor Tom Benko ficou confuso com os copiões recebidos após cada dia de filmagem, afirmando não saber o que fazer. Kolbe sentou-se com Benko para editar a cena para que desta forma o editor entendesse sua visão. O monstro em si foi interpretado pelo dublê Rex Pierson e gravado em frente de um chroma key azul; as imagens foram captadas primeiro em fita de vídeo e depois reveladas em uma película superexposta. O supervisor de efeitos visuais Robert Legato também usou uma versão mais barata dos efeitos de derretimento do filme Terminator 2: Judgment Day para criar o brilho da criatura. O figurino da criatura tinha uma cabeça de espuma tão pesada que precisou ser feita em três partes, enquanto em planos fechados a cabeça foi colocada num suporte com uma alavanca que abria e fechava a boca.
A maquiagem tamariana foi desenvolvida pelo supervisor de maquiagem Michael Westmore, que queria criar um humanoide com grandes diferenças físicas em relação aos humanos, bem como um visual interessante já que o personagem de Dathon apareceria bastante pelo decorrer da história. Já que o ator Paul Winfield tinha um porte físico grande, Westmore não queria deixá-lo maior, especialmente no rosto, assim criou uma prótese na cabeça que ia até os olhos e uma segunda peça menor no lábio superior. Os padrões e pintas da pele dos alienígenas foram pintadas depois da maquiagem ser aplicada, com a maquiagem de Dathon sendo usada como base para os outros atores. Um novo uniforme mais casual para Picard foi criado na quinta temporada e fez sua primeira aparição em "Darmok", consistindo em uma camisa cinza e preta por baixo de uma jaqueta vermelha e preta. Este novo figurino foi uma sugestão do ator Patrick Stewart e criado pelo figurinista Robert Blackman para fazer Picard se destacar do resto da tripulação.
O elenco convidado teve Paul Winfield interpretando Dathon; o ator já tinha aparecido antes na franquia no filme Star Trek II: The Wrath of Khan como o capitão Terrell. Richard Allen apareceu como o primeiro oficial tamariano, tendo antes interpretado Kentor em "The Ensigns of Command". Ashley Judd fez a alferes Robin Lefler, personagem que interpretaria novamente no episódio "The Game"; apenas seu sobrenome foi mencionado em "Darmok", enquanto seu primeiro nome só seria estabelecido em "The Game".
Análise