Desde 2014, a Rússia ocupa a Península da Crimeia, uma parte da Ucrânia. Em 27 de fevereiro de 2014, a Rússia enviou soldados em uniformes sem identificação para a Crimeia para tomar o controle da região, iniciando a guerra russo-ucraniana. Esta ocupação militar abriu caminho para a anexação da Crimeia pela Rússia em 18 de março de 2014. Enquanto o governo russo considera a Crimeia como parte da Federação da Rússia, a Ucrânia e a maior parte da comunidade internacional a veem como um território ocupado da Ucrânia.
A ocupação começou durante a Revolução da Dignidade na Ucrânia, que depôs o presidente pró-russo Viktor Ianukovytch. Forças especiais russas, disfarçadas de "forças de autodefesa da Crimeia", assumiram o controle dos edifícios governamentais da Crimeia, cercaram bases militares ucranianas e bloquearam a península. A Rússia negou envolvimento na época, mas Putin posteriormente admitiu que eram tropas russas. Um governo pró-russo foi instalado e um referendo sobre o status da Crimeia foi realizado sob ocupação. De acordo com as autoridades instaladas pela Rússia, o resultado foi a favor da adesão à Rússia. A Rússia anexou a Crimeia em 18 de março de 2014, reorganizando-a como uma república russa e transformando Sebastopol em uma cidade federal russa. A Rússia também reivindicou uma zona econômica exclusiva no Mar Negro ao redor da Crimeia. Esta zona é três vezes maior que a península e contém vastas reservas de gás natural e petróleo. A Assembleia Geral das Nações Unidas adotou uma resolução afirmando a "integridade territorial da Ucrânia dentro das suas fronteiras internacionalmente reconhecidas", e a ONU considera a Crimeia como ocupada pela Rússia.
Desde o início da invasão russa da Ucrânia continental em fevereiro de 2022, a Rússia tem usado a Crimeia como base para atacar a Ucrânia continental. As forças militares ucranianas têm respondido com . Uma das pré-condições da Rússia para encerrar a invasão tem sido o reconhecimento das reivindicações russas sobre a Crimeia, enquanto um dos objetivos da Ucrânia é libertar o território, por meios militares se necessário.
O Escritório de Direitos Humanos da ONU afirmou que a Rússia cometeu graves violações de direitos humanos na Crimeia ocupada. Isso inclui a restrição severa do direito à liberdade de expressão, reunião e religião; prisão arbitrária e detenção; e desaparecimento forçado. Ucranianos étnicos e tártaros da Crimeia muçulmanos sofreram discriminação e repressão. Residentes que não aceitaram a cidadania russa perderam o direito de viver e trabalhar na Crimeia. A Rússia também tem sido acusada de neocolonialismo por meio da russificação forçada e do assentamento de um grande número de russos na Crimeia, empurrando ucranianos e tártaros da Crimeia para fora.
História Planejamento russo
No início de fevereiro de 2014, quando os protestos na Ucrânia pareciam prestes a derrubar o governo, o Kremlin recebeu um documento estratégico delineando planos para a ocupação e anexação da Crimeia. Os documentos afirmavam que o governo ucraniano e o presidente Viktor Ianukovytch não durariam. Eles propunham que a Rússia deveria fomentar o separatismo na Crimeia e em outras províncias orientais, e deveria começar a trabalhar para tomar o controle delas. Em 21 de fevereiro de 2014, o presidente ucraniano Ianukovytch fugiu secretamente da capital, e no dia seguinte, o parlamento votou pela sua destituição. A liderança russa estava preocupada, segundo relatos, que sua Base Naval de Sebastopol na Crimeia pudesse estar em risco sob um novo governo ucraniano comprometido com laços mais estreitos com o Ocidente. Em 22 e 23 de fevereiro de 2014, o presidente russo Vladimir Putin realizou uma reunião noturna com chefes de segurança para discutir a crise. No final da reunião, Putin disse: "devemos começar a trabalhar para trazer a Crimeia de volta à Rússia".
A Rússia aproveitou-se da incerteza na Ucrânia imediatamente após a deposição de Ianukovytch.Lessons from Russia's Operations in Crimea and Eastern Ukraine , p. 19, publicado pela RAND Corporation em 2017. "O governo da Ucrânia estava em transição após a deposição de Yanukovych. Como resultado, não reagiu à operação russa quando foi lançada. A tarefa da Rússia foi facilitada pela confusão e caos que geralmente se seguem a uma revolta, como aconteceu em Kiev. Moscou capitalizou as tensões e incertezas na Crimeia, bem como a inexperiência do governo provisório da Ucrânia. As anotações da discussão entre a liderança ucraniana revelam muita ansiedade, incerteza e falta de vontade de agir por medo de escalada." Em 26 de fevereiro, Putin ordenou que as Forças Armadas da Rússia fossem "colocadas em alerta no Distrito Militar Ocidental, bem como unidades estacionadas no comando do 2.º Exército do Distrito Militar Central envolvidas na defesa aeroespacial, tropas aerotransportadas e transporte militar de longo alcance". O ministro da Defesa russo, Serguei Shoigu, negou que isso estivesse relacionado aos eventos na Ucrânia.
Tomada de controle militar pela Rússia
No início de 27 de fevereiro de 2014, forças especiais russas começaram a ocupar a Crimeia, usando uniformes sem identificação para esconder sua origem. Eles foram chamados de "homenzinhos verdes". Os soldados partiram da base russa em Sebastopol e viajaram para a capital Simferopol. Lá, eles tomaram o edifício do parlamento da Crimeia e o edifício do Conselho de Ministros. Bandeiras russas foram hasteadas sobre eles e barricadas foram erguidas. Um posto de controle militar, com uma bandeira russa e veículos militares russos, foi montado na principal rodovia entre Sebastopol e Simferopol.
Horas após o início da tomada, o parlamento da Crimeia realizou uma sessão de emergência enquanto os homens armados ocupavam o edifício. Votou pela destituição do governo da Crimeia e pela substituição do primeiro-ministro Anatoli Mohyliov por Serguei Axionov; um membro do partido Unidade Russa, que recebeu apenas 4% dos votos na última eleição. De acordo com a Constituição da Ucrânia, o primeiro-ministro da Crimeia é nomeado pelo parlamento da Crimeia (Conselho Supremo da Crimeia) em consulta com o presidente da Ucrânia. Tanto Axionov quanto o presidente Vladimir Konstantinov afirmaram que consideravam Viktor Ianukovytch o presidente de jure da Ucrânia. O parlamento também votou pela realização de um referendo sobre o status político da Crimeia, marcado para 25 de maio. O historiador Andrew Wilson e o jornalista Luke Harding chamaram isso de "golpe da Crimeia".
As tropas haviam cortado todas as comunicações do edifício e confiscaram os telefones dos deputados ao entrarem. Nenhum jornalista independente foi autorizado a entrar no edifício enquanto as votações ocorriam. Alguns deputados disseram que foram ameaçados e que votos foram dados por eles e outros deputados, mesmo não estando no plenário. A Interfax-Ukraine noticiou que não havia como saber quantos deputados estavam presentes e se votaram eles próprios ou se alguém usou seus cartões de voto. A chefe do departamento de informação do parlamento, Olha Sulnikova, telefonou para jornalistas de dentro do edifício, dizendo-lhes que 61 dos 64 deputados registrados haviam votado pela resolução do referendo e 55 pela resolução para destituir o governo. Estas votações foram imediatamente declaradas ilegais pelo governo interino ucraniano.
O coronel do FSB russo Igor Guirkin (alcunha 'Strelkov'), um dos comandantes dos soldados, disse em janeiro de 2015 que os deputados da Crimeia foram mantidos sob a mira de armas e forçados a votar a favor. Girkin disse:"Infelizmente, não vi nenhum apoio das autoridades [da Crimeia] em Simferopol, onde eu estava... Foram militantes que reuniram os deputados e os forçaram a votar. Sim, eu era um dos comandantes desses militantes. Eu vi isso de dentro".
No mesmo dia, mais tropas não identificadas montaram postos de controle de segurança no Istmo de Perekop e na Península de Tchonhar, que separam a Crimeia do continente ucraniano. Eles foram ajudados pelo que parecia ser a polícia de choque local Berkut, bem como tropas russas da 31.ª Brigada de Assalto Aerotransportado Separada vestidas com uniformes da Berkut. Em poucas horas, a Ucrânia foi isolada da Crimeia. Os canais de TV ucranianos tornaram-se indisponíveis para os telespectadores da Crimeia, alguns substituídos por estações russas. Em 29 de fevereiro, forças especiais russas não identificadas ocuparam os aeroportos e centros de comunicação da Crimeia.
Em 1.º de março de 2014, Axionov disse que exerceria o controle de todas as instalações militares e de segurança ucranianas na península. Ele também pediu a Putin "assistência para garantir paz e tranquilidade" na Crimeia. Putin prontamente recebeu autorização do Conselho da Federação da Rússia para uma intervenção militar russa na Ucrânia até que a "situação político-social no país seja normalizada". O primeiro-ministro da Ucrânia, Arseni Iatseniuk, disse que a intervenção militar russa seria o início da guerra.
Uma reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU foi realizada em 2 de março de 2014 para discutir a crise. O embaixador ucraniano Iuri Serheiev disse que a Rússia estava cometendo "um ato de agressão contra o estado da Ucrânia". Ele afirmou que a Rússia havia quebrado o Memorando de Budapeste e pediu que os outros signatários fornecessem a assistência que haviam acordado. O embaixador russo Vitali Tchurkin acusou os EUA e a UE de "encorajarem" os protestos que levaram à deposição do presidente ucraniano Ianukovytch. Ele negou que as forças russas tivessem invadido a Crimeia. A embaixadora dos EUA, Samantha Power, disse à sessão que a Rússia havia violado a soberania da Ucrânia e pediu o "envio imediato" de monitores internacionais da ONU e da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE).
Em 2 de março, as tropas russas estavam no controle total da Crimeia, tendo se deslocado da base naval em Sebastopol e sido reforçadas por tropas, blindados e helicópteros da Rússia continental. Em 3 de março, eles bloquearam a Base Naval Sul.
Em 4 de março, o Estado-Maior ucraniano disse que havia unidades russas da 18.ª Brigada de Fuzileiros Motorizados, 31.ª Brigada de Assalto Aerotransportado e 22.ª Brigada Spetsnaz implantadas e operando na Crimeia, não apenas pessoal da Frota Russa do Mar Negro, o que violava acordos internacionais assinados pela Ucrânia e Rússia.
Numa conferência de imprensa a 4 de março, o presidente Putin disse que a Rússia não tinha planos de anexar a Crimeia. Ele também disse que não tinha planos de invadir a Ucrânia, mas que poderia intervir se os russos na Ucrânia fossem ameaçados. Isso fazia parte de um padrão de negações públicas da operação militar russa em curso.
Numerosos relatos da mídia e declarações dos governos ucraniano e estrangeiros notaram a identidade das tropas não identificadas como soldados russos, mas as autoridades russas ocultaram a identidade de suas forças, alegando que eram unidades locais de "autodefesa" sobre as quais não tinham autoridade. Ainda em 17 de abril, o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Serguei Lavrov, disse que não havia "tropas russas excessivas" na Ucrânia. Na mesma conferência de imprensa, Putin disse sobre a península que "apenas os próprios cidadãos, em condições de livre expressão de vontade e sua segurança, podem determinar seu futuro". Putin posteriormente reconheceu que havia ordenado "trabalho para trazer a Crimeia de volta à Rússia" já em fevereiro. Ele também reconheceu que no início de março houve "pesquisas de opinião secretas" realizadas na Crimeia, que, segundo ele, relataram apoio popular esmagador à incorporação da Crimeia à Rússia.