No Pará, a Revolução de 1930 destituiu o governo de Eurico de Freitas Vale e elevou ao poder o militar tenentista Magalhães Barata. De 5 a 6 de outubro, Eurico Vale, último representante da Primeira República no Estado, conseguiu derrotar um levante do 26.º Batalhão de Caçadores (26.º BC) do Exército graças à lealdade da sua Força Pública. A transição de poder ocorreu somente a partir de 24 de outubro, quando o governo federal foi destituído por um golpe militar no Rio de Janeiro.

O governo Eurico Vale tinha boa imagem, mas o descrédito do sistema político e a crise financeira já eram duradouros quando ele assumiu. Uma revolta tenentista muito semelhante já havia ocorrido no 26.º BC em 1924, e as conspirações para um movimento armado de escala nacional encontraram no Pará aliados como Magalhães Barata e o jornalista Abel Chermont. Barata foi preso pela polícia em agosto, mas a conspiração continuou. Em 3 de outubro, data nacional de início do movimento, as autoridades frustraram uma tentativa dos conspiradores de capturar munições no Forte da Barra. Somente na noite do dia 5 os revoltosos sublevaram o 26.º BC.

A perda do fator surpresa, a morte acidental do líder da revolta, o oficial da Marinha Eurico de Castilhos França, e a inferioridade numérica, agravada pela divisão do efetivo em múltiplos ataques simultâneos, condenaram o levante do 26.º BC. Na manhã do dia 6, após o fracasso de investidas contra o Palácio do Governo e o Quartel General da 8.ª Região Militar, os revoltosos tomaram a estrada de ferro para Bragança, de onde pretendiam unir-se aos seus companheiros no Maranhão. A viagem era longa e difícil e pouquíssimos chegaram ao destino. O líder, o tenente do Exército Ismaelino de Castro, foi preso em Viseu no dia 19.

Os legalistas reforçaram Belém e censuraram a imprensa, mas as notícias de vitórias revolucionárias em outros estados, incluindo o Maranhão, ainda chegavam ao conhecimento do povo. Em território revolucionário, a "Brigada Norte" de Landri Sales prepara uma expedição para conquistar o Pará, mas a batalha foi evitada pela instauração de uma junta militar no Rio de Janeiro em 24 de outubro. Após uma breve transição, chegava ao poder Magalhães Barata, que seria a figura predominante na política paraense dos próximos anos.

Antecedentes Cenário político local Nos anos antecedentes à Revolução de 1930, o Pará vivia em crise intermitente por conta da baixa no preço da borracha, o eixo da sua economia, que era voltada à exportação. As dívidas pareciam inescapáveis. A pecuária, agricultura e indústria eram pouco desenvolvidas e o sistema de aviamento, predominante na economia extrativa, mantinha os pequenos produtores em profunda dependência. Os serviços públicos minguavam por falta de recursos. Na política, as práticas eram típicas da Primeira República: oligarquias dominantes perpetuavam-se com perseguições e fraude eleitoral. Alguns setores insatisfeitos buscavam uma alternativa política nos militares, especialmente entre as classes médias urbanas, empurradas para a pobreza, e segmentos das elites que não estavam no poder. Seu ideal revolucionário era basicamente liberal.

No campo militar, Belém sediava o 26.º Batalhão de Caçadores (26.º BC) do Exército. Os estados do Pará, Amazonas, Maranhão e Piauí compunham a 8.ª Região Militar (8.ª RM). A oficialidade nos batalhões de Belém e Manaus, conforme relatório do comandante regional, era "constituída na quase totalidade [...] de oficiais removidos inoportunamente para a Amazônia, como indesejáveis em outros pontos do país e que vinham eivados de ideias subversivas". Desta forma, em julho de 1924, paralelamente às revoltas tenentistas em São Paulo, no Amazonas e em outras guarnições, o 26.º BC revoltou-se, mas foi derrotado pela Força Pública. O Forte de Óbidos, no interior paraense, aderiu aos militares rebeldes do Amazonas, que seriam dispersos após a chegada de reforços federais. A capacidade da Força Pública de derrotar a guarnição federal é também típica da Primeira República, na qual tais instituições funcionavam como "exércitos estaduais".

O governador eleito para o período de 1929 a 1933 era Eurico de Freitas Vale, considerado um líder prudente e tolerante, que abandonou as violências à oposição. Entretanto, sua boa imagem não era suficiente para salvar do descrédito o sistema político. A aceitação ao governo Eurico Vale coexistia com a vontade de mudança a nível nacional. O grande propagandista do que viria a ser a Revolução de 1930, que encerrou a Primeira República, foi o jornalista Abel Chermont, diretor do jornal oposicionista O Estado do Pará. A Folha do Norte, de Paulo Maranhão, havia feito oposição aos governos anteriores, mas agora apoiava Eurico Vale.

Conspirações locais

A maioria dos governos estaduais, incluindo o paraense, alinharam-se ao governo federal de Washington Luís para apoiar a candidatura de Júlio Prestes na eleição presidencial de 1930. Dizia-se que Eurico Vale poderia ser nomeado ministro no gabinete de Júlio Prestes, possivelmente na Fazenda. O processo eleitoral viciado da Primeira República deu vitória ao candidato governista. Ainda antes da eleição, o candidato oposicionista e governador do Rio Grande do Sul, Getúlio Vargas, iniciou contatos com militares revolucionários, presos ou exilados, visando um movimento armado contra o governo. Além dos militares, a conspiração estendeu-se a políticos de renome. No Norte e Nordeste do país, o chefe militar revolucionário era o capitão Juarez Távora.

No Pará, o líder da conspiração era Abel Chermont. Outros conspiradores civis eram Abelardo Conduru e o padre Leandro Pinheiro. No Exército, conspiravam os tenentes Osmar Pacheco Dilon, Mário Machado, Emanuel de Almeida Morais, Ismaelino Sarmento de Castro e Luís Geolás de Moura Carvalho. Na Flotilha do Amazonas, conspiravam os oficiais da Marinha Eurico de Castilhos França, Álvaro Cabo e Rogério Coimbra. O chefe militar do movimento seria Magalhães Barata, oficial paraense, veterano do movimento de 1924 no Amazonas.

Barata vivia no exílio no Uruguai até retornar ao Brasil via Rio Grande do Sul alguns meses antes da revolução. Segundo o jornalista e conspirador maranhense José Maria dos Reis Perdigão, Barata embarcou de Fortaleza para Belém com a identidade falsa de um representante de laboratório de Paramaribo, fornecida pelo médico Fernandes Távora, tio de Juarez. Távora enviou um telegrama a Chermont: "Segue encomenda avião". A polícia paraense suspeitou e quase capturou o oficial no porto. Poucos dias depois, em 21 de agosto, Reis Perdigão visitou Chermont, encontrando-o no Hospital da Beneficência Portuguesa, onde estava internado para facilitar o trabalho conspiratório. Estabelecido na Catedral de Belém, onde tinha a proteção do padre Clotário de Alencar, Magalhães Barata tratou de articular a revolta. Quando o esconderijo foi descoberto pela polícia, vestiu-se de padre e mudou-se para a capela do Hospital Juliano Moreira, onde o capelão era Leandro Pinheiro. A polícia encontrou o novo refúgio e encaminhou o oficial preso ao Rio de Janeiro. No seu lugar, os militares elegeram o oficial da Marinha Eurico de Castilhos França para a chefia do movimento.

Revolta do 26.º BC A revolução teve início em escala nacional em 3 de outubro. O Chefe do Estado-Maior da 8.ª RM declarou à imprensa que a situação estava normal em todo o país, mas o chefe de polícia, Augusto Borborema, ordenou providências de segurança de rotina. A Força Pública entrou de prontidão. Na noite do dia 3 para o dia 4, a polícia frustrou a tentativa de um grupo de conspiradores que desviavam cinco toneladas de munição de fuzil do Forte da Barra para o Curro Velho. Os revolucionários perderam todo o elemento de surpresa e a munição que seria usada pelo 26.º BC. A polícia prendeu diversos civis e militares suspeitos, entre eles Abel Chermont, seu irmão Mário e Leandro Pinheiro.

O levante não tinha chances, mas ainda seria iniciado, segundo Ismaelino de Castro, apenas para honrar compromissos com os companheiros revolucionários do Nordeste e Sul. Os conspiradores tinham planos de levantar o 26.º BC, dividir os meios para atacar o Palácio do Governo, o Quartel General da 8.ª RM e os quartéis da polícia e, em caso de fracasso, tomar a estrada de ferro para Bragança, juntariam-se aos seus aliados no Maranhão e retornariam com reforços a Belém. Era o mesmo dispositivo de combate assumido em 1924, com a única diferença de poder contar com o apoio de outros estados. O planejamento deixava a desejar e a execução teve uma falha após a outra. O primeiro erro era na divisão do efetivo, dispersando forças para ataques simultâneos, quando uma força concentrada teria tido melhores chances.

Os legalistas estavam em vantagem numérica: 811 militares da Força Pública contra pouco mais de trezentos militares do 26.º BC. A Força Pública, organizada num Grupo Misto, Esquadrão de Cavalaria e Batalhão de Infantaria e reforçada pelo Corpo de Bombereos Municipais, era bem armada e com fama de vencer em momentos semelhantes.

A revolta em Belém começou por volta das 21h00 de 5 de outubro, com atraso de mais de 48 horas em relação aos outros estados. Neste primeiro momento, o capitão-tenente Castilhos França morreu na entrada do quartel, alvejado pelo soldado de sentinela, quando entrava acompanhado de outros líderes. Atordoados, os revolucionários escolheram o tenente Ismaelino de Castro como seu novo chefe. O tenente-coronel Joaquim Francisco Duarte e o capitão Sant'Anna de Medeiros, respectivamente o comandante e oficial do batalhão, foram presos ao entrar. Todo o restante da oficialidade estava rebelada. Após os primeiros sinais de revolta no Exército, o capitão-tenente Coimbra foi ao Arsenal de Marinha. O plano era dominar a unidade naval e prender o capitão-de-mar-e-guerra Emanuel Braga, inspetor do Arsenal da Marinha e comandante da Flotilha, e o capitão-tenente Jayme Barreto e dominar a unidade naval. Nenhum dos dois oficiais estava ali e Coimbra juntou-se aos seus companheiros no Exército. O comandante Braga mais tarde chegaria à base e tomaria providências defensivas. O efetivo total era de oitenta homens.

Uma chácara na avenida Tito Franco foi incendiada para desviar a atenção das forças do governo, mas os poucos bombeiros enviados para apagar o fogo retornaram a tempo de defender o governo. Às 21h30, tiros saídos de dentro do quartel espalharam o pânico na praça Justo Chermont e a notícia da revolta espalhou-se pela cidade. Uma mulher foi ferida e um condutor de bonde morreu após recusar uma ordem de parar. Patrulhas espalharam-se pela praça. Segundo a Folha do Norte, alguns civis foram presos e obrigados a aderir ao movimento, mas houve adesão espontânea de funcionários da Pará Electric e estivadores. Das 23h00 até as 03h00 da madrugada, silêncio absoluto e então uma fuzilaria que acordou Belém. miniaturadaimagem|Coronel Artur Coelho de Souza, comandante da 8.ª Região Militar

Combate em Belém Os revoltosos dividiram-se em dois: o grosso da tropa seguiu pela avenida Nazaré, São Jerônimo, São Brás, Benjamin Constant, Boaventura da Silva e Ruy Barbosa para a praça da República, visando ataques simultâneos ao Quartel General do Exército e ao Palácio do Governo, no centro da cidade. Outro contingente seguiu para a 22 de Junho para atacar o quartel do Esquadrão de Cavalaria da Força Pública. Os legalistas assumiram posições defensivas na praça da República e no começo das avenidas afluentes.