O Grande Cometa de 371 a.C. (também chamado Cometa de Aristóteles) foi um cometa observado na Grécia Antiga entre 372 e 371 a.C., durante o arcontado de Asteius em Atenas. Foi descrito por Aristóteles — que tinha aproximadamente 12 anos na época —, Éforo, Calístenes e, posteriormente, por Diodoro Sículo e Sêneca., por Diodoro Sículo e Sêneca. Segundo as fontes antigas, projetava sombras noturnas comparáveis às da Lua cheia, exibia uma cauda longa e avermelhada e um núcleo mais brilhante do que qualquer estrela no céu.
O cometa é considerado por muitos pesquisadores como o possível progenitor da família de cometas rasantes solares conhecida como grupo de Kreutz. Se confirmada essa hipótese, seu núcleo original teria tido ao menos 120 km de diâmetro. Não foram encontrados registros independentes do cometa em crônicas chinesas, babilônicas ou de outras civilizações fora da Grécia Antiga.
Contexto histórico
O cometa apareceu num período de grande turbulência no mundo grego. Sua observação coincidiu com o terremoto que destruiu as cidades aquéias de Helike e Bura, tragadas pelo mar em 373 a.C., evento registrado por Pausânias e Plínio, o Velho. Pouco depois, em 371 a.C., os espartanos sofreram derrota decisiva na Batalha de Leuctra, perdendo a hegemonia sobre a Grécia após quase quinhentos anos. Plínio, o Velho, em sua Naturalis Historia, associou explicitamente o cometa à ruína do poderio espartano, interpretando-o como presságio divino.
Fontes antigas
Aristóteles
Aristóteles descreveu o cometa no Livro I de sua obra Meteorologica, situando sua aparição no arcontado de Asteius e associando-a ao terremoto na Acaia. Segundo ele, o cometa surgiu no ocidente durante um inverno rigoroso e claro, exibindo uma cauda tão extensa que cobria um terço do céu — denominada pelos observadores como uma "via" ou "caminho" — e subia até a altura do cinturão de Órion, onde desaparecia.
Aristóteles interpretou o fenômeno não como um corpo celeste independente, mas como uma exalação seca e quente da Terra, inflamada nas camadas superiores da atmosfera — teoria que prevaleceu na filosofia natural por quase dois milênios.
Éforo de Cime
Éforo relatou, em obra hoje perdida e citada por fontes posteriores, que o cometa se dividiu em dois fragmentos. Esse relato é uma das primeiras descrições históricas de fragmentação cometária. A divisão teria produzido um fragmento maior e um menor, sendo o maior candidato ao retorno em 1106 d.C. como X/1106 C1.
Calístenes
Calístenes, sobrinho de Aristóteles, registrou que o núcleo do cometa era mais brilhante do que qualquer estrela no céu noturno e que sua cauda apresentava coloração avermelhada — uma das primeiras descrições de cor cometária na literatura ocidental.
Diodoro Sículo
Diodoro Sículo, citando uma fonte perdida, descreveu o cometa como uma "grande tocha flamejante" visível durante muitas noites seguidas, com brilho suficiente para projetar sombras sobre a Terra comparáveis às da lua cheia. Registrou também o debate entre os filósofos naturais da época sobre a origem do fenômeno, mencionando que os caldeus afirmavam ser capazes de prever tais aparições com base em ciclos astronômicos precisos. Pesquisadores modernos, como Sekanina e Kracht, levantaram a hipótese de que Diodoro pode ter deslocado deliberadamente a data do cometa para torná-la mais próxima da Batalha de Leuctra, servindo a propósitos narrativos e dramáticos.
Sêneca
Sêneca, em Naturales Quaestiones (VII), citou a observação do cometa em relação à destruição de Helike e Bura, sugerindo uma data ligeiramente anterior (373–372 a.C.). Sêneca também questionou o relato de Éforo sobre a fragmentação, argumentando que ninguém mais havia testemunhado a divisão e que Éforo não nomeou os dois "astros" resultantes.
Datação
A datação do cometa é disputada entre as fontes antigas e modernas. Aristóteles situa o fenômeno no arcontado de Asteius, que corresponde a 373–372 a.C. segundo o Mármore de Paros (Marmor Parium). Diodoro Sículo, por sua vez, fornece elementos que permitem datar o evento em 372–371 a.C. — o centésimo segundo Olimpíada, a partir da data convencional de 776 a.C. para os primeiros jogos olímpicos.
O consenso moderno tende a adotar 372–371 a.C. como período mais provável de observação, embora referências utilizem simplesmente "371 a.C." ou "373 a.C." A divergência decorre da imprecisão na correspondência entre o calendário ático e o calendário juliano proléptico.
Características observadas
As fontes antigas descrevem as seguintes características do cometa:
Cauda extensa cobrindo cerca de um terço do céu, orientada no sentido oeste Coloração avermelhada da cauda Núcleo mais brilhante do que qualquer estrela visível Projeção de sombras noturnas de intensidade comparável à da Lua cheia Visibilidade durante muitas noites consecutivas Elevação máxima até a altura do Cinturão de Orion Possível fragmentação em dois pedaços (relatada por Éforo, questionada por Sêneca) Ausência de registros independentes em crônicas chinesas, babilônicas ou de outras civilizações
Órbita estimada
Não existem dados orbitais calculados com precisão para este cometa, dado o caráter qualitativo das descrições antigas. O astrônomo francês Alexandre Guy Pingré foi o primeiro a tentar uma estimativa formal, propondo em 1783 uma inclinação orbital de aproximadamente 150°, compatível com uma órbita retrógrada. John Cooper elaborou essa análise em 1852, refinando os parâmetros com base nas mesmas fontes textuais.
Com base na hipótese de que seja o progenitor do grupo de Kreutz, modelos de Sekanina e Chodas sugerem que o cometa original era um cometa rasante solar de longo período com periélio muito próximo ao Sol, órbita retrógrada e inclinação elevada.
Hipótese do cometa progenitor dos Kreutz
Proposta de Marsden
O astrônomo alemão Heinrich Carl Friedrich Kreutz foi o primeiro a propor, no século XIX, que um conjunto de cometas rasantes solares muito brilhantes compartilhava órbitas semelhantes, sugerindo uma origem comum. Brian Marsden formalizou essa hipótese em dois estudos publicados em 1967 e 1989 no The Astronomical Journal, nos quais propôs que o Grande Cometa de 371 a.C. poderia ser o progenitor de todo o grupo de Kreutz, incluindo X/1106 C1, C/1965 S1 (Ikeya-Seki) e C/1843 D1.
Segundo esse modelo, o fragmento maior resultante da divisão relatada por Éforo teria retornado ao Sol em 1106 d.C. como X/1106 C1, sofrendo nova fragmentação e dando origem aos membros mais brilhantes do grupo observados nos séculos XIX e XX.
Modelos de Sekanina e Chodas (2004–2007)
Zdeněk Sekanina e Paul Chodas desenvolveram entre 2004 e 2007 modelos matemáticos detalhados da evolução do grupo de Kreutz. Contudo, em seu trabalho de 2004, concluíram que **não há evidência orbital suficiente** para confirmar o Grande Cometa de 371 a.C. como progenitor do grupo, dado que as incertezas nas descrições antigas são grandes demais para determinar parâmetros orbitais confiáveis.
Modelo de Sekanina e Kracht (2022)
Em 2022, Sekanina e Rainer Kracht reabriram a questão com um novo modelo baseado na hipótese de que o progenitor dos Kreutz era um **binário de contato** — dois núcleos em órbita mútua muito próxima. Nesse cenário, a separação dos dois corpos durante a passagem pelo periélio explicaria tanto o relato de Éforo sobre a fragmentação quanto a diversidade orbital observada nos membros modernos do grupo. O modelo é compatível com uma estimativa de núcleo original de ao menos 120 km de diâmetro e com o retorno do fragmento maior em 1106 d.C.
Controvérsias
A identificação do Grande Cometa de 371 a.C. como progenitor dos Kreutz não é universalmente aceita. A hipótese alternativa de Göran Henriksson propõe que o cometa observado por Aristóteles era na verdade o Cometa Encke, com base em correspondências entre os dados textuais e os elementos orbitais do Encke para o período. Essa identificação não recebeu ampla aceitação na comunidade astronômica. A Agência Espacial Europeia reconhece a possibilidade do parentesco com os Kreutz, mas ressalva que as incertezas nas descrições antigas impedem uma confirmação definitiva.
Ver também
Cometas rasantes Kreutz — família de cometas rasantes solares possivelmente originada neste cometa X/1106 C1 — possível fragmento que retornou em 1106 d.C. C/1965 S1 (Ikeya-Seki) — membro brilhante do grupo de Kreutz Aristóteles — principal fonte antiga sobre o cometa Meteorologica — obra de Aristóteles que descreve o cometa Grande Cometa — lista de grandes cometas históricos
Referências
Ligações externas
Categoria:Grandes Cometas Categoria:Cometas históricos Categoria:Cometas da Antiguidade Categoria:Cometas Kreutz Categoria:Astronomia da Grécia Antiga Categoria:Aristóteles Categoria:372 a.C. Categoria:371 a.C.