miniatura|Mural em Nazaré com imagem de Shireen Abu Akleh, correspondente da Al Jazeera assassinada por Israel em 2022, antes do conflito atual. A guerra de Gaza, que começou em 2023, tem recebido ampla cobertura de diversos veículos de comunicação ao redor do mundo. No entanto, desde o início do conflito, em outubro de 2023, Israel tem proibido a entrada de toda a imprensa internacional no enclave e tem atacado deliberadamente jornalistas palestinos no terreno, com mais de 200 mortos nos últimos 20 meses.
A guerra teve um impacto severo na infraestrutura e na economia de Gaza, com extensos danos a casas, hospitais, escolas e serviços essenciais. O conflito causou perdas significativas de empregos e declínio econômico tanto na Faixa de Gaza quanto na Cisjordânia. O escrutínio internacional e a cobertura da mídia destacaram o custo humano e os desafios enfrentados pelos jornalistas que atuam na região.
Contexto Durante o conflito, Israel impôs controles rigorosos sobre jornalistas internacionais, exigindo escolta militar e revisão prévia das imagens antes da transmissão. Em janeiro de 2024, a Suprema Corte de Israel confirmou essas exigências por motivos de segurança. Grandes veículos de comunicação dos EUA, como a NBC e a CNN, confirmaram que Israel tinha autoridade para aprovar conteúdo proveniente de Gaza, e que jornalistas integrados às forças armadas israelenses eram obrigados a submeter materiais para revisão.
Controle israelense da informação Desde o início da guerra, em outubro de 2023, Israel proíbe a entrada de todos os jornalistas estrangeiros no enclave, exceto em visitas ocasionais escoltadas e lideradas pelo exército israelense. Esse bloqueio de informações tem sido criticado por diversos veículos de comunicação e associações de jornalistas. Em junho de 2025, 130 veículos e organizações, incluindo a Repórteres sem Fronteiras, exigiram o fim do bloqueio de informações sobre o enclave.
Além de fechar as fronteiras de Gaza para jornalistas estrangeiros, as forças israelenses "destruíram metodicamente a infraestrutura de mídia no território e sufocaram o jornalismo" a fim de impor um "apagão midiático" à guerra em Gaza, segundo a organização Repórteres sem Fronteiras. Mais de cem jornalistas foram mortos em um ano, redações foram destruídas, a internet e a eletricidade foram cortadas e a imprensa estrangeira foi bloqueada.
As Forças de Defesa de Israel (IDF) possuem uma Unidade de Porta-Vozes designada, responsável pela política de informação do exército israelense e pelas relações com a mídia em tempos de paz e de guerra. Ela serve como elo entre o exército e os mercados de mídia nacionais e internacionais, bem como o público em geral, e desempenha um papel fundamental na diplomacia pública de Israel.
Mídia em Gaza Com Israel proibindo o acesso da imprensa estrangeira ao enclave, oficialmente por razões de segurança, muitos palestinos, frequentemente jovens, foram forçados a denunciar as atrocidades israelenses por conta própria. Em seus ataques, Israel matou inúmeros jornalistas, quase 79 até 9 de janeiro de 2024 (três meses após o início da guerra), levando a organização Repórteres sem Fronteiras a declarar que "há uma verdadeira erradicação do jornalismo na Faixa de Gaza". Até abril de 2025, 210 jornalistas palestinos haviam sido mortos pelo exército israelense.
Motaz Aizaza, com 24 anos em 2023, tornou-se um dos jornalistas mais seguidos do mundo, com quase 18 milhões de seguidores no Instagram, graças à sua extensa cobertura da situação na Faixa de Gaza. Ele foi eleito Homem do Ano pela revista GQ Oriente Médio.
Em 5 de maio de 2024, o canal catariano Al Jazeera, um dos poucos que ainda transmitiam de Gaza, foi proibido em Israel e seus equipamentos foram confiscados.
Muitos jornalistas palestinos também são presos e encarcerados sob o regime de "prisão administrativa", que permite às autoridades israelenses manter palestinos presos indefinidamente, sem julgamento e sem informá-los das acusações contra eles.
Cobertura da mídia Mídia israelense Os principais veículos de comunicação israelenses oferecem apoio incondicional às operações do exército na Faixa de Gaza, enquanto ignoram o sofrimento da população palestina.
O The Seventh Eye, um site israelense de jornalismo investigativo focado na mídia, também observa que "todos os veículos de comunicação em Israel, do canal 11 ao 14, deixam de mostrar imagens do sofrimento humano em Gaza". As emissoras de televisão "podem mostrar imagens de escombros, de um prédio bombardeado, mas não as histórias individuais das pessoas afetadas". Os dados do Ministério da Saúde de Gaza, controlado pelo Hamas e considerados confiáveis pela ONU, não são divulgados pela mídia israelense. O Canal 14, por exemplo, afirma que todas as mais de 40.000 pessoas mortas entre outubro de 2023 e setembro de 2024 eram "terroristas".
No panorama midiático israelense, apenas o jornal Haaretz e o site de notícias online +972 Magazine realizam investigações sobre a Faixa de Gaza e noticiam o sofrimento dos civis. Contudo, seus leitores permanecem restritos a uma minoria de intelectuais de esquerda em Israel. Da mesma forma, já em novembro de 2023, a organização Repórteres sem Fronteiras denunciou a violência e a pressão enfrentadas em Israel por jornalistas que cobriam a guerra em Gaza.
O governo israelense obriga jornalistas a submeterem qualquer artigo relacionado a "questões de segurança" à censura militar. Em 2024, 1.635 artigos foram totalmente proibidos de publicação e 6.265 foram parcialmente proibidos, o que representa uma média de 21 reportagens censuradas por dia.
Mídia ocidental A mídia tradicional tem coberto amplamente o conflito, focando no custo humano e nos desafios enfrentados por jornalistas e veículos de comunicação. No entanto, separar fato de ficção tem se mostrado difícil devido à complexidade do conflito.
A BBC foi criticada por jornalistas e pelo Secretário de Estado da Defesa do Reino Unido, Grant Shapps, por usar o termo "militantes" em vez de "terroristas" para se referir a membros do Hamas, que é considerado uma organização terrorista pelo governo britânico. A BBC respondeu afirmando que, para reportar de forma objetiva, não usaria o termo "terrorista" sem atribuir a devida atribuição e que também havia convidado colaboradores que descreveram o Hamas como uma organização terrorista.
Uma análise da cobertura da BBC feita pela OpenDemocracy revelou que as perspectivas palestinas estavam "completamente ausentes" da cobertura da emissora, e que a BBC descrevia regularmente as mortes de israelenses com palavras como "assassinato", "massacre", "atrocidade" e "carnificina", mas não as mortes de palestinos.
O comediante, apresentador de televisão e cirurgião egípcio Bassem Youssef, conhecido por seu humor satírico, foi entrevistado por Piers Morgan para seu programa Piers Morgan Uncensored nos dias 17 de outubro e 1º de novembro de 2023. A entrevista de outubro viralizou e alcançou pelo menos 17 milhões de visualizações, com Youssef destacando o contexto do conflito israelo-palestino, sua justaposição com a guerra russo-ucraniana e a guerra em curso em Gaza, frequentemente com seu humor satírico.
Segundo o site Arrêt sur Images, a cobertura da guerra está provocando debates internos acalorados na redação do jornal francês Libération. O chefe da seção de checagem de fatos, CheckNews, acredita que as capas do jornal são desfavoráveis aos habitantes de Gaza, enquanto um jornalista da seção social do jornal argumenta que um artigo da CheckNews contendo informações falsas, duvidosas ou não verificáveis sobre supostas atrocidades do Hamas "alimentou o negacionismo". O diretor do Libération, Dov Alfon, por sua vez, retirou da versão impressa um perfil de Hala Abou Hassira, representante da Autoridade Palestina em Paris, por considerar que continha observações "negacionistas".
Padrão duplo na cobertura da mídia Surgiram acusações do uso de "dois pesos e duas medidas" na cobertura da mídia sobre os conflitos. Os críticos argumentam que o direito da Ucrânia à autodefesa é frequentemente elogiado por líderes internacionais, mas o mesmo apoio nem sempre é dado às ações de Israel na Cisjordânia e em Gaza. O ministro das Relações Exteriores da Jordânia, Ayman Safadi, também acusou a comunidade internacional de aplicar o "padrão duplo" em relação aos palestinos.
Em 23 de novembro de 2023, oito jornalistas baseados no Reino Unido e empregados pela BBC escreveram à Al Jazeera para expressar suas preocupações sobre o duplo padrão da BBC em sua cobertura da guerra de 2023 entre Israel e o Hamas, comparando-a à cobertura "direta" dos supostos crimes de guerra russos na Ucrânia. Jornalistas acusaram a empresa de mídia de omitir o contexto histórico e de se concentrar em humanizar as vítimas israelenses, negligenciando a humanização das vítimas palestinas.
Em uma carta aberta à mídia australiana, jornalistas criticaram o duplo padrão de confiança depositado nas Forças de Defesa de Israel (IDF), afirmando que "o governo israelense também é um ator neste conflito, com evidências crescentes de que está cometendo crimes de guerra e um histórico documentado de disseminação de desinformação. A versão dos fatos apresentada pelo governo israelense jamais deve ser reproduzida integralmente, sem contexto ou verificação dos fatos".
Demissão de Steve Bell Em 19 de outubro, o jornal The Guardian anunciou a demissão do cartunista Steve Bell, que contribuía para o jornal desde 1983, após ele ter desenhado uma caricatura do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu segurando um bisturi e se preparando para fazer uma incisão no formato da Faixa de Gaza em seu abdômen. Embora Bell tenha afirmado que se inspirou numa caricatura semelhante do presidente americano Lyndon Johnson durante a Guerra do Vietnã, foi acusado de antissemitismo por supostamente fazer referência à "libra de carne" exigida pelo personagem judeu Shylock na peça O Mercador de Veneza, de William Shakespeare.
Mídia brasileira Análises do discurso da mídia corporativa brasileira entre 2023 e 2025, revelam que o conflito em Gaza é quase que invariavelmente visto sob a ótica do governo israelense, e em alguns casos se aproxima muito da cobertura enviesada de veículos como a Fox News dos Estados Unidos. Um outro aspecto, que traz à baila a polarização política e ideológica existente no Brasil, é que o governo Lula é simpático à causa palestina, sendo o próprio Lula considerado "persona non grata" em Israel, justamente por ter feito declarações (posteriormente corroboradas pela ONU e outras entidades internacionais) de que estaria ocorrendo um genocídio na Faixa de Gaza. Como a mídia corporativa brasileira historicamente possui um viés anti-esquerda, favorecer uma visão pró-Israel perante o grande público contribuiria para desgastar a imagem do governo, visto que este apoiaria "terroristas" e pessoas que não seguem "valores judaico-cristãos" ou mesmo "ocidentais".
Uma análise das publicações online de alguns dos principais órgãos da mídia corporativa brasileira (G1, UOL, Folha de S.Paulo, O Estado de S.Paulo, O Globo e BBC Brasil) no período de outubro de 2023 a maio de 2025, constatou o emprego de três estratégias principais de representação do conflito, a partir de uma visão pró-Israel mascarada por um verniz de neutralidade jornalística:
Legitimação da violência como resposta defensiva: apresenta a "legítima defesa" como verdade inquestionável; ações israelenses seriam apenas reações a provocações palestinas. A violência na atualidade é apresentada "como continuidade natural de padrões históricos inevitáveis", transformando a ocupação colonial num conflito simétrico (no qual ambos os lados usariam armas equivalentes);