A língua zuruahã (em zuruahã: ari jati), também escrita como suruwahá, sorowaha, suruahá e zuruahá, é uma língua pertencente à família arawá. Possui cerca de 156 falantes (2024), que habitam terras entre os igarapés Riozinho e Coxodoá, no município Tapauá do estado do Amazonas.

O idioma não possui um sistema de escrita próprio. Ainda assim, o zuruahã é transcrito com base na análise fonológica de autores que escrevem sobre a língua no Alfabeto Fonético Internacional. Além disso, de acordo com o Atlas Mundial das Línguas em Perigo (2010) da UNESCO, o idioma se encontra em estado de vulnerabilidade.

A situação da língua se relaciona intimamente à história do povo Zuruahã, marcada por redução populacional e contatos externos ocorridos principalmente a partir do final do século XX. Sua documentação linguística é relativamente recente e ainda limitada, baseando-se em poucos estudos especializados.

De acordo com o Atlas Mundial de Estrutura de Idiomas, o zuruahã detém um inventário fonológico compacto, tanto no sistema vocálico como consonantal. A gramática marca o tempo e o modo das ações por meio de elementos adicionados às palavras, e a frase normalmente segue a ordem sujeito-verbo-objeto. O vocabulário é pequeno, mas permite criar palavras novas combinando partes de outras palavras.

Etimologia

Zuruahã era o nome de um indígena que vagava sozinho pela região dos igarapés Riozinho e Coxodoá. O nome foi atribuído por um membro da comunidade na década de 1980, com o objetivo de fornecer aos indivíduos que visitassem a reserva um termo para se referir ao povo, passando, também, a ser utilizado para designar a língua falada. Já ari jati, nome nativo da língua, significa "nossa língua".

Distribuição miniaturadaimagem|upright=1|Rio Purus, região onde vivem povos de línguas da família arawá. Os falantes da língua se encontram localizados nas terras altas entre os igarapés Riozinho e Coxodoá, afluentes do rio Cuniuá, na bacia hidrográfica do rio Purus, no município Tapauá, no sul do estado do Amazonas. O idioma é falado pelo povo Zuruahã, também chamado de Suruwahá ou Índios do Coxodoá, que habita a Terra Indígena Zuruahã.

Devido à sua localização em uma área de difícil navegação no médio curso do rio Purus, os Zuruahã viveram isolados até a década de 1970, quando foram localizados por um grupo de missionários da Prelazia de Lábrea, mesmo que o primeiro contato devidamente documentado seja de 08 de maio de 1980, com o CIMI

Atualmente, a língua está limitada aos cerca de 156 membros da comunidade e não há outros registros de pessoas que falam a língua fluentemente. Além disso, o zuruahã é a primeira língua da comunidade e, embora alguns membros demonstrem interesse em aprender a língua portuguesa, preferem utilizar sua língua nativa para a comunicação com visitantes.

Línguas relacionadas A língua zuruahã pertence à família linguística arawá, um conjunto de línguas indígenas amazônicas faladas principalmente na região da bacia do rio Purus, no estado do Amazonas. As línguas dessa família apresentam características estruturais semelhantes, especialmente na organização verbal, nos sistemas de marcação de pessoa e em aspectos morfossintáticos compartilhados.

A classificação do zuruahã dentro da família linguística mostra que a língua não é isolada, mas possui relação histórica com outros idiomas originados de uma mesma língua ancestral.

História História da língua A história da língua zuruahã está profundamente ligada com a história de seu povo. Segundo sua tradição oral, os Zuruahã descendem de grupos que falavam diferentes dialetos de uma mesma língua e ocupavam um território mais amplo, cada comunidade com sua denominação e território. Contudo, devido a massacres, doenças e à expansão da indústria de extração do látex e constante invasão de seringueiros e sorveiros, o número de falantes da língua e a extensão territorial diminuíram ao longo do tempo, unificando os Zuruahã como é atualmente.

Após a redução de sua população, os Zuruahã viveram isolados até a década de 1980, quando estabeleceram seu primeiro contato externo com ONGs, como a OPAN, a JOCUM e o CIMI. Entretanto, a FUNAI e a FUNASA acusaram as duas últimas organizações de atuação ilegal na região, além de tentativa de desaculturação e evangelização forçada do povo Zuruahã.

A partir dos anos 2000, intensificou-se a presença institucional na região, com a oferta de serviços de saúde indígena, posteriormente organizados pela SESAI. Em 2008, a FUNAI instalou uma Base de Proteção Etnoambiental na área. Esses processos ampliaram o contato dos Zuruahã com falantes de português, influenciando o contexto sociolinguístico de uso da língua.

História da documentação A primeira documentação de contato com o povo Zuruahã data de 8 de maio de 1980, pelo CIMI. Entretanto, o primeiro registro acerca da língua data de 1995, feito por Márcia Suzuki, linguista e presidente do conselho da ONG ATINI ("voz" em zuruahã).

Em 1997, esposo de Márcia Suzuki e membro da JOCUM, Edson Massamiti Suzuki produziu um estudo sobre o idioma.

Márcia Suzuki também elaborou, posteriormente, mais dois documentos tratando da língua zuruahã: um sobre a fonologia das sibilantes, em 2000; o outro, um dicionário que traduz palavras do zuruahã para o português, em 2002.

O documento mais recente com o idioma como foco principal foi elaborado pela doutora em antropologia social Adriana Maria Huber Azevedo, em 2024.

Até o momento, o zuruahã conta com apenas esses registros documentais de linguistas, tendo a língua como foco central, embora haja outros documentos que trazem informações sobre o idioma, sem tê-lo como tema principal.

Fonologia Consoantes O idioma compreende um inventário de 11 fonemas consonantais, sendo eles: cinco consoantes plosivas, duas nasais, um tap ou flap e uma consoante fricativa. Quanto a produção, temos quatro pontos de articulação, os quais são bilabial, alveolar, velar e glotal.

De modo geral, as consoantes apresentam variações fonéticas condicionadas pelo contexto, principalmente pela vogal precedente, podendo ocorrer formas palatalizadas após /i/ e labializadas após /u/. Essas variações aparecem em diferentes posições da palavra, como em kahu ("lugar para pendurar rede"), igatɨ ("animal de estimação") e namɨ ("céu"), evidenciando a influência do ambiente fonológico na realização consonantal.

+Inventário consonantal zuruahãBilabialAlveolarVelarGlotal Plosiva Nasal Tap ou flap Fricativa

Vogais O inventário fonológico do zuruahã apresenta 4 fonemas vocálicos.

O fonema /a/ pode ser realizado como [a] ou [ɛ], especialmente após sílabas com /i/, como em imadɨ ("macho") e nangai ("eu disse"). A vogal /ɨ/ é menos estável e pode aproximar-se de /i/ ou /u/ em sílabas não acentuadas, como em bɨdadɨ ("tire uma foto!"). Já /i/ e /u/ frequentemente se tornam semivogais ([j] e [w]) entre vogais, como em miakauani ("sua barriga") e uamɨ ("meu sangue"). Além disso, /i/ tende a palatalizar consoantes seguintes, enquanto /u/ pode provocar labialização.

+Inventário vocálico zuruahã Anterior Central Posterior Fechada Aberta

Nasalização No zuruahã, a nasalização vocálica não constitui um traço fonêmico, mas ocorre de maneira condicionada pelo contexto fonológico. Em geral, manifesta-se na fala rápida cotidiana, quando uma vogal precede uma sílaba que foi reduzida ao seu onset /n/.

Nas vogais /a/ e /u/, há um processo de nasalização quando elas são seguidas por /n/ em posição final de palavra.

Fonotática As sílabas do zuruahã são geralmente formadas seguindo o padrão CV (consoante-vogal), sendo o tipo de sílaba mais ocorrente no idioma. Contudo, também ocorrem sílabas dos tipos V (vogal), CVC (consoante-vogal-consoante), CCV (consoante-consoante-vogal) ou CVV (consoante-vogal-vogal).

No caso das sílabas do tipo V, a maioria das ocorrências se dá no início das palavras, embora possa aparecer também no fim delas. Nesses casos, a vogal frequentemente faz parte de um hiato.

Além disso, vale ressaltar em palavras com mais de duas sílabas, todas as sílabas fonéticas precisam apresentar onset, exceto a primeira sílaba. Dessa forma, com o morfema formado por uma sílaba simples V prefixado no início da palavra, o núcleo dela é reduzido a uma semivogal, onde o /u/ torna-se [w] e o /i/ torna-se [ɟ]. Quando um clítico de caso é acrescentado a palavras com hiato, ocorre ditongação. Ademais, se um morfema gramatical formado por V é anexado à direita de uma sílaba aberta, ele pode desaparecer, apagar a vogal anterior ou fundir-se a ela, formando um ditongo.

As sílabas do tipo CVC ou CCV ocorrem com menos frequência e aparecem principalmente em falas rápidas do cotidiano.

O tipo CVV é de menor ocorrência no zuruahã e assim como os casos CVC e CCV, costuma aparecer em falas do cotidiano, embora o uso não seja restrito a essas circunstâncias.

Prosódia No zuruahã, a tonicidade principal encontra-se na última sílaba das palavras e a tonicidade secundária na primeira.

A duração de cada sílaba depende do tamanho da palavra, já que os falantes buscam manter a palavra com uma duração total estável, geralmente como se fosse uma palavra dissílaba com duas sílabas longas.

Palavras monossílabas alongam a vogal por reduplicação, formando duas sílabas longas. Palavras com mais de duas sílabas frequentemente têm a segunda sílaba, ou até mesmo a terceira, encurtada ou removida.

Ortografia A língua não possui uma ortografia oficial e nem alfabeto escrito, podendo ser considerada como ágrafa. Até o momento, não há registro de falantes do idioma alfabetizados, e não foram identificadas iniciativas consolidadas para a criação ou adoção de um sistema de escrita. Segundo Adriana Maria Huber Azevedo, o povo Zuruahã argumenta que não precisam de um sistema de escrita, uma vez que a escrita funciona como um recurso mnemônico para pessoas com pouca capacidade de memória.

Apesar disso, em obras e registros sobre o idioma, utiliza-se a ortografia fonêmica, baseada no AFI, como é o caso dos registros de Edson e Márcia Suzuki, ou de mais de um tipo de ortografia, como é o caso de Adriana Maria Huber Azevedo, que utiliza ortografias alofônica e fonêmica em suas obras.

No caso da ortografia alofônica, um mesmo fonema pode corresponder a mais de um grafema, dependendo de sua realização fonética. Por exemplo, a vogal /u/ pode ser representada por <u>, quando realizada como [u] ou [ʊ], ou por <w>, quando realizada como [w]. De modo semelhante, a consoante /s/ pode ser representada por <s> ou <x>, conforme o contexto fonético.

Além disso, os alofones marcados pelos diacríticos palatalizado (ʲ) e labializado (ʷ) são representados ortograficamente pelo acréscimo de <i> ou <w> ao grafema consonantal, como é o caso da consoante <g>, que pode ser grafada como <g>, <gw> ou <gi>.

+Tabela grafema-fonema do zuruahãGrafemaFonema AFIRealização alofônicaAproximação com outras línguasa/a/[] ~ []casab/b/[]barrod/d/[]dadog/g/[]gatoh/h/[]carroi/i/[] ~ []vidaj/i/[]ioiôj/z/[]gyerek (em húngaro)k/k/[]casam/m/[]massan/n/[]narizr/r/[]caros/s/[]sapatot/t/[]tabacou/u/[] ~ []lulaw/u/[]quasex/s/[]extremoy/ɨ/[]kız (em turco)z/z/[]zangão

Gramática Artigos O zuruahã não possui artigos em sua gramática. A função de determinação pode ser desempenhada pelas palavras dêiticas hy ("o citado anteriormente"), ydy ("aquele"), hi ("este"), una ("outra"), uua ("outro") e hady (qual), que acompanham substantivos. Esses termos também podem funcionar como pronomes, substituindo substantivos nas frases.

Pronomes Com relação aos pronomes, o idioma contém cinco tipos diferentes de pronomes, sendo eles: pronomes pessoais, demonstrativos, possessivos, interrogativos e reflexivos ou recíprocos.

Pronomes pessoais O zuruahã possui formas diretas para os pronomes pessoais de primeira e segunda pessoa, tanto no plural quanto no singular. Contudo, não existe uma palavra que indique a terceira pessoa do singular e, no caso do plural, o substantivo madi ("pessoas") pode ser empregado para indicar sujeitos humanos.