John Drummond V, também referido como João Escórcio ou Escócio (c. 1395, Cargill, Perthshire, Escócia – c. 1465, Santa Cruz, ilha da Madeira, Portugal), foi um nobre e cavaleiro de origem escocesa que participou de campanhas militares na França e na Espanha durante o contexto da Guerra dos Cem Anos. Posteriormente estabeleceu-se em Portugal, onde se fixou na Ilha da Madeira nos primeiros anos da colonização do arquipélago.
Origem familiar
John Drummond nasceu aproximadamente em 1395 em Cargill, no condado de Perthshire, na Escócia. Era filho de Sir John Drummond IV, associado à linhagem senhorial de Stobhall, e de Elizabeth Sinclair. A família era proprietária do Castelo de Stobhall, tradicional residência da casa Drummond. Por linhagem familiar, John Drummond era também sobrinho de Anabela Drummond, rainha consorte da Escócia, esposa de João Stewart, que posteriormente ascendeu ao trono escocês como rei Roberto III.
Careira militar
Em 1419, John Drummond teria deixado a Escócia "em busca de fama e glória" e viajado para a França, onde se integrou a contingentes de combatentes escoceses que atuavam em apoio ao delfim Carlos, no contexto da Guerra dos Cem Anos. Algumas narrativas afirmam que participou de campanhas militares associadas às forças que apoiaram a causa francesa, período em que também teria atuado ao lado de Joana d'Arc. Após essas campanhas, passou por territórios da Coroa de Castela, onde teria servido militarmente em conflitos contra o Reino de Granada.
Chegada à Madeira
Após o período de serviço militar na Península Ibérica, John Drummond deslocou-se para Portugal. Teria passado por Santarém antes de se estabelecer na Ilha da Madeira, onde participou dos primeiros anos do processo de povoamento do arquipélago, iniciado na década de 1430.Diferentes fontes apresentam datas distintas para a chegada de John Drummond à ilha da Madeira, sendo frequentemente mencionados os anos de 1427 ou 1430. Na ilha, recebeu uma sesmaria e passou a utilizar o nome João Escórcio, ocultando sua identidade de origem escocesa. Estabeleceu-se nas proximidades da ribeira da Boaventura, na localidade de Santa Cruz, onde mandou erguer uma capela dedicada a São Pedro.O edifício religioso foi posteriormente destruído pelo grande aluvião ocorrido na ilha da Madeira em 1724, cujas enxurradas o arrastaram para o mar.
Casamentos e descendência
João Escórcio casou-se inicialmente com Catarina Vaz de Lordelo, viúva do navegador Tristão Vaz Teixeira, um dos capitães do povoamento da Madeira. Dessa união teria nascido um filho, Henrique Drummond.
Após o falecimento de Catarina Vaz, contraiu segundas núpcias com Branca Afonso da Cunha, natural da região de Castelo Branco, em Portugal. Dessa união são atribuídos nove filhos: Clara Anes Escórcio, Branca Afonso Drummond, Catarina Anes Drummond, Diogo Escórcio Drummond, João Escórcio Drummond, Joana Escórcio, Guiomar Escórcio Drummond, Beatriz Escórcio Drummond e Isabel Anes Escórcio Drummond.
Morte
João Escórcio faleceu por volta de 1465 na localidade de Santa Cruz, na Ilha da Madeira. Foi apenas em seus momentos finais que teria revelado ao seu confessor sua identidade original como John Drummond, de origem nobre escocesa e pertencente ao Clã Drummond. Há afirmações de que nem mesmo Branca Dias teria conhecimento da origem e da linhagem escocesa de seu marido, tendo falecido antes dele.
(...) por ser homem magnanimo e mui desejoso de conhecer várias nações e correr diversos reinos, deixando o reino de Escócia, seguindo melhor fortuna a que a esperança o guiava, se partio para França, e d°ahi para o reino de Granada para pelejar contra os inimigos de Christo contrarios de graça aos Christãos, e depois se partio para a Ilha da Madeira (...) o qual em quanto viveu, porque era Escocez, não usando de proprio vocabulo de sua geração e ascendencia, como costuma muitas vezes accontecer aquelles que se mudão para nações estranhas mas usando d'a lingua portuguesa, ou de outra qualquer particular, os homens d”aquella Ilha lhe costumarão chamar João de Escócia, o qual não se esquecendo de sua nobreza pelas grandes partes de seu animo, veio a enriquecer muito, e porque seus filhos depois não viessem, nem fossem tidos e respeitados, por de geração obscura e baixa, descobrio estas cousas a seu Confessor e a outros, e de que maneira, deixando o Reino de Escocia se partira para a dicta Ilha d'a Madeira.
Contatos posteriores com a Escócia
No ano de 1519 um membro da família Drummond chamado Thomas Drummond, descrito como um cadete da linhagem, teria realizado uma viagem marítima em direção ao sul e aportado na Ilha da Madeira. Na ocasião, encontrou na ilha diversos indivíduos que utilizavam o sobrenome Drummond e que afirmavam descender de um antepassado de origem escocesa.
Entre esses descendentes, Thomas Drummond manteve contato particular com Manuel Afonso Ferreira Drummond e seus irmãos. Durante esses encontros, teria sido relatada a história de John Drummond, identificado como o antepassado comum da família, que teria deixado a Escócia e se estabelecido na Madeira, onde viveu sob o nome de João Escórcio até o momento de sua morte. Segundo esse relato, apenas em seus últimos momentos ele teria revelado sua verdadeira identidade, bem como sua origem nacional e familiar.
Após essas conversas, Manuel Afonso Ferreira Drummond e seus irmãos teriam incumbido Thomas Drummond de regressar à Escócia com o objetivo de obter um relato detalhado de sua genealogia e a confirmação das armas heráldicas pertencentes à casa de onde supostamente provinham. Thomas Drummond levou consigo cartas destinadas a David, Lorde Drummond, então chefe da família e descrito nas narrativas como ainda jovem. David, Lorde Drummond, teria examinado o conteúdo das cartas com a assistência de parentes próximos e membros influentes da nobreza escocesa, entre eles Archibald, Conde de Angus e George, Conde de Huntly. Após examinar as informações disponíveis e consultar registros e testemunhos familiares, o assunto teria sido apresentado ao Conselho da Escócia.
Thomas Drummond retornou ao arquipélago trazendo consigo a carta e a atestação selada. Ao chegar à ilha de Porto Santo, teria entregue os documentos aos seus parentes, os quais receberam a notícia com grande satisfação.
Reconhecimento de nobreza em Portugal Considerando que a correspondência e os documentos apresentados indicavam uma origem nobre para a linhagem, decidiram encaminhar uma petição à Coroa portuguesa a fim de obter o reconhecimento formal da sua fidalguia e dos privilégios associados a essa condição.
Para esse fim, enviaram Diego Perez Drummond a Portugal. O rei de Portugal, João III, ordenou que a questão fosse examinada por oficiais da corte responsáveis pela verificação de títulos e linhagens, de modo que pudesse posteriormente declarar a sua decisão.
Retomada das correspondências
A correspondência entre os ramos da família teria sido retomada apenas no início do século XVII. Por volta de 1604, Martine Mendez de Vasconcellos Drummond, residente na vila de Porto Santo, procurou recuperar um extrato dos documentos antigos relativos à linhagem. Para isso, apresentou petição às autoridades competentes, declarando que possuía uma cópia de uma carta enviada da Escócia por Lorde Drummond a Manuel Afonso Ferreira Drummond. Martine Mendez Drummond recebeu posteriormente notícias da corte espanhola informando que James, Conde de Perth, chefe da família Drummond na Escócia, encontrava-se em Madrid juntamente com Charles Howard, Conde de Nottingham, em missão diplomática relacionada à confirmação de acordos de paz entre reinos europeus. Também teria sido informado de que o conde de Perth e sua irmã, Lady Jean Drummond, Condessa de Roxburgh, gozavam de prestígio junto ao rei da Grã-Bretanha.
Martine Mendez Drummond enviou então pedidos de apoio ao conde de Perth, solicitando que este intercedesse para que pudesse obter cartas de recomendação destinadas aos embaixadores espanhóis presentes na corte inglesa, com o objetivo de apresentá-las ao rei da Espanha.
Ver também Clã Drummond Roberto III da Escócia Guerra dos Cem Anos Joana d'Arc História da Madeira Tristão Vaz Teixeira
Bibliografia
Categoria:Nascidos no século XIV Categoria:Mortos no século XV Categoria:Naturais da Escócia Categoria:Nobres do Reino Unido Categoria:Escoceses do século XV Categoria:Guerra dos Cem Anos Categoria:Escoceses expatriados em Portugal