Francisco de Assis de Souza Filho (Senador Pompeu, 19 de agosto de 1966 — São Paulo, 25 de março de 2026) foi um engenheiro civil, professor universitário e pesquisador brasileiro dedicado ao estudo e à gestão dos recursos hídricos. Professor titular da Universidade Federal do Ceará (UFC) e pesquisador nível 1B do CNPq, concentrou sua produção acadêmica em temas como distribuição e uso da água, gestão de secas e cheias, efeitos das mudanças climáticas sobre bacias hidrográficas e elaboração de políticas públicas para o semiárido nordestino. Dirigiu a Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (FUNCEME) e presidiu a Associação Brasileira de Recursos Hídricos (ABRHidro), e manteve ao longo de quase duas décadas vínculo como pesquisador associado da Universidade Columbia.
Vida pessoal
Francisco de Assis de Souza Filho nasceu em 19 de agosto de 1966 na cidade de Senador Pompeu, no sertão central do Ceará, filho de Francisco de Assis de Souza, bancário, e Zélia Becco de Souza, professora. Era o mais velho de sete irmãos. A família mudou-se para Fortaleza quando os filhos chegaram à idade escolar, em busca de melhores condições de ensino.
Em 1998, casou-se com Leila Maria Carvalho Costa, Defensora Pública do Estado do Ceará. O casal teve dois filhos, Letícia e Vinícius.
Faleceu em 25 de março de 2026, aos 59 anos, na cidade de São Paulo, em decorrência de um leiomiossarcoma, tipo raro de câncer contra o qual lutava havia seis anos. O reitor da UFC, Custódio Almeida, decretou luto oficial de três dias, e a Assembleia Legislativa do Estado do Ceará prestou minuto de silêncio em sessão plenária.
Primeiros anos e formação
As vivências da infância no sertão marcaram sua vocação científica. Em depoimento ao Colégio de Estudos Avançados da UFC, Assis Filho relatou duas memórias fundadoras: a dos retirantes da seca invadindo Senador Pompeu em busca de alimento, por volta de 1970, e a grande cheia de 1974, quando o rio Patu, na confluência com o Banabuiú, inundou a cidade. Décadas mais tarde, ao analisar dados climáticos, identificou que a seca de sua memória correspondia provavelmente à estiagem de cerca de 1970. Essas experiências de secas e cheias tornaram-se o fio condutor de sua carreira acadêmica.
Estudou no Colégio Cearense do Sagrado Coração, em Fortaleza, e ingressou no curso de Engenharia Civil da Universidade Federal do Ceará em 1984, graduando-se em 1990. Durante a graduação, teve intensa atuação no movimento estudantil: foi presidente do Centro acadêmico de Engenharia Civil (1986–1987), presidente do Diretório Central dos Estudantes da UFC (1987–1988) e membro do Conselho Universitário (CONSUNI) entre 1987 e 1989. No Centro Acadêmico, sucedeu Cid Gomes, que presidira a gestão anterior. Segundo seu próprio relato, a experiência no movimento estudantil — que o levou a acompanhar debates em áreas como Medicina, Direito e Economia — foi decisiva para desenvolver a visão multidisciplinar que caracterizaria sua carreira.
Obteve o título de mestre em Engenharia Hidráulica e Saneamento pela Universidade de São Paulo (USP) em 1995, com a dissertação Modelação numérica da hidrodinâmica em canais com a utilização de modelos de turbulências, recebendo Menção de Distinção e Louvor.
Em 2006, concluiu o doutorado em Engenharia Civil pela USP, com a tese Alocação de água sazonal e anual: modelos matemáticos, experimentação comportamental e justiça alocativa, sob orientação de Rubem La Laina Porto, recebendo Menção de Distinção.
De 2006 a 2007, fez estágio de pós-doutorado na Universidade Columbia, nos Estados Unidos, sob supervisão de Upmanu Lall, investigando variabilidade climática e seus efeitos sobre a disponibilidade hídrica. Na ocasião, passou a integrar o Columbia Water Center como pesquisador associado.
Carreira profissional
Gestão pública de recursos hídricos (1994–2008)
Entre 1994 e 2008, Assis Filho trabalhou na Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos do Ceará (COGERH), onde se dedicou à elaboração de planos diretores de bacias hidrográficas e a projetos de infraestrutura hídrica. De 1995 a 2001, exerceu paralelamente o cargo de gerente de planejamento técnico na Secretaria de Recursos Hídricos do estado (SRH).
De 2001 a 2006, dirigiu a Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (FUNCEME), onde trabalhou para aproximar a produção de dados meteorológicos das decisões sobre uso da água no Ceará.
Carreira acadêmica na UFC (2008–2026)
Em 2008, ingressou como professor adjunto na UFC e, a partir de 2016, tornou-se professor associado do Departamento de Engenharia Hidráulica e Ambiental, em regime de dedicação exclusiva. Em maio de 2025, foi promovido a professor titular, titulação que corresponde ao topo da carreira docente nas universidades federais brasileiras. Lecionou disciplinas de graduação e pós-graduação, incluindo Hidrologia, Climatologia, Drenagem Urbana e Economia e Planejamento dos Recursos Hídricos.
Foi vice-coordenador (2009–2011) e coordenador (2011–2014) do Programa de Pós-Graduação em Engenharia Civil (Recursos Hídricos) da UFC. Na instituição, dirigia o Centro Estratégico de Excelência em Políticas de Águas e Secas (CEPAS), núcleo transdisciplinar voltado a articular pesquisa e políticas públicas na área hídrica, e coordenava o Grupo de Gerenciamento do Risco Climático para a Sustentabilidade Hídrica (GRC).
Ocupava ainda a função de cientista-chefe de Recursos Hídricos junto à Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FUNCAP) e liderava a coordenação temática de Recursos Hídricos na Rede Clima.
Atuação internacional
Desde 2008, manteve colaboração contínua com a Universidade Columbia, onde chegou a exercer a direção do Columbia Water Center e a ministrar disciplinas de pós-graduação em Earth & Environmental Engineering. Participou do International Scientific and Technical Advisory Committee do International Research Institute for Climate and Society (IRI) e integrou grupos da Organização Meteorológica Mundial (WMO) dedicados aos efeitos das mudanças climáticas sobre a produção agrícola.
No âmbito da internacionalização acadêmica, liderou projeto financiado pelo PRINT-CAPES. Proferiu conferências na Universidade Harvard e na Universidade de Illinois em Urbana-Champaign, e foi convidado a expor sobre gestão hídrica em sessões da Câmara dos Deputados e do Senado Federal.
Contribuições
Pesquisa e produção científica
Suas linhas de pesquisa abrangiam sistemas de apoio à decisão em recursos hídricos, gerenciamento do risco climático (secas e cheias), alocação de água e hidrocomplexidade. Publicou mais de 130 artigos em periódicos científicos e era revisor de periódicos internacionais como Water Resources Research, Water Resources Management, Water Policy e Journal of Water and Climate Change. Ao longo de sua carreira, orientou mais de 20 teses de doutorado e cerca de 30 dissertações de mestrado.
Inovação no ensino
Em 2016, idealizou o Projeto AMANA, iniciativa baseada no modelo de sala de aula invertida aplicada à disciplina de Hidrologia dos cursos de Engenharia Civil e Engenharia Ambiental da UFC. Os conteúdos teóricos eram transmitidos por videoaulas on-line, enquanto os encontros presenciais eram dedicados a atividades práticas e colaborativas. O projeto foi desenvolvido em parceria com o Instituto UFC Virtual, por meio do Grupo de Pesquisa e Produção de Ambientes Interativos e Objetos de Aprendizagem (PROATIVA).
Políticas públicas e gestão hídrica
Um de seus trabalhos de maior repercussão foi o desenvolvimento do Plano de Gestão Proativa de Seca, elaborado em parceria entre a UFC, a COGERH e a FUNCEME, que estabelece normas específicas para cada um dos 157 reservatórios monitorados no Ceará, com o princípio do planejamento antecipado frente a eventos de estiagem.
Assis Filho sintetizava os desafios hídricos do semiárido na formulação de que "o problema da água é a água tanta na cheia, tão pouca na seca, tão suja, tão conflituosa e tão cara", condensando cinco dimensões — excesso, escassez, qualidade, conflitos e custo — que orientavam sua abordagem integrada.
Foi consultor do Banco Mundial e membro do Conselho Nacional de Recursos Hídricos (CNRH) entre 2002 e 2006, tendo presidido a Câmara Técnica do Plano Nacional de Recursos Hídricos (2004–2006). Coordenou ainda o capítulo de Recursos Hídricos no Painel Brasileiro de Mudança Climática.
Em dezembro de 2025, já durante o tratamento contra o câncer, participou de reunião na UFC para discutir alternativas tecnológicas para garantir água potável em escolas do semiárido, projeto ao qual dedicou suas últimas contribuições técnicas.Depoimento do deputado estadual Renato Roseno (PSOL-CE) em homenagem a Francisco de Assis de Souza Filho, março de 2026.
Atuação institucional
Na Associação Brasileira de Recursos Hídricos (ABRHidro), ocupou a presidência (2008–2009) após passagem pela vice-presidência (2006–2007) e pela diretoria (2002–2003). Era membro da Academia Cearense de Engenharia desde 2022, na cadeira nº 23, e participava do Comitê de Assessoramento do CNPq. Pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), integrava o Fundo Setorial de Recursos Hídricos (CT-Hidro) como representante da entidade.
Perfil intelectual
Para além da engenharia, Assis Filho cultivava interesse por filosofia, arte e questões existenciais, traço que marcava suas aulas e reuniões de trabalho. Mantinha interlocução com o Departamento de Sociologia da UFC e era reconhecido pela formação humanística ampla. Um exemplo dessa postura é a sua dissertação de mestrado pela USP (1995), dedicada à modelagem computacional de canais, mas cujos capítulos eram abertos com epígrafes de autores como Gaston Bachelard, Jean-Paul Sartre, Karl Marx, Friedrich Nietzsche e Fernando Pessoa.
Em entrevista ao Colégio de Estudos Avançados da UFC, destacava que a ciência transforma a percepção da realidade, mas a ética deve guiá-la. Para ele, o princípio ético central era o "reconhecimento do outro", e a atuação acadêmica devia ser entendida como serviço à sociedade.
Prêmios e honrarias
Medalha UFC 70 anos — Universidade Federal do Ceará (2024) Prêmio Flávio Terra Barth — Associação Brasileira de Recursos Hídricos (2023), a mais alta honraria da entidade Medalha Paulo de Frontin — Centro de Tecnologia da UFC (2023) Medalha Engenheiro Francisco Gonçalves de Aguiar — Secretaria de Recursos Hídricos do Ceará (2021), honraria máxima dos recursos hídricos do estado Medalha do Comitê das Bacias Hidrográficas da Região Metropolitana de Fortaleza (2018) I Prêmio INMET de Estudos sobre Benefícios da Meteorologia para o Brasil (2006) Menção de Distinção na tese de doutorado — USP (2006) Menção de Distinção e Louvor na dissertação de mestrado — USP-EESC (1995) Finalista do Prêmio ANA (2021 e 2023)
Repercussão do falecimento
O falecimento de Assis Filho gerou ampla repercussão na comunidade científica e institucional brasileira. A UFC decretou luto oficial de três dias. Notas de pesar foram emitidas por instituições como a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), a FUNCEME, a FUNCAP, a ABRHidro, a Fundação FASTEF, o Serviço Geológico do Brasil, a COGERH e a Universidade Estadual Vale do Acaraú, entre outras.