As relações econômicas entre a Alemanha e a União Soviética começaram a se deteriorar rapidamente após a ascensão de Hitler ao poder em 1933. O comércio entre os dois lados diminuiu. Após vários anos de alta tensão e rivalidade, os dois governos começaram a melhorar as relações em 1939. Em agosto daquele ano, os países expandiram suas relações econômicas ao firmarem um acordo de comércio e crédito, pelo qual a URSS enviava matérias-primas essenciais à Alemanha em troca de armas, tecnologia militar e máquinas civis. Esse acordo acompanhou o Pacto Molotov-Ribbentrop, que continha protocolos secretos dividindo a Europa Central entre ambos, após o qual tanto as forças nazistas quanto as soviéticas invadiram territórios listados em suas "esferas de influência".
Posteriormente, os países expandiram ainda mais suas relações econômicas com um acordo comercial mais amplo em fevereiro de 1940. A partir de então, a Alemanha recebeu quantidades significativas de matérias-primas essenciais para seus futuros esforços de guerra, como petróleo, grãos, borracha e manganês, enquanto enviava armas, tecnologia e maquinário industrial para a União Soviética. Após negociações inconclusivas sobre uma possível entrada da URSS no Pacto do Eixo, os dois governos resolveram diversas disputas e expandiram ainda mais suas relações econômicas com o Acordo Comercial e de Fronteiras Germano-Soviético de janeiro de 1941.
As relações econômicas entre os dois países foram abruptamente interrompidas quando a Alemanha invadiu a União Soviética em junho de 1941, violando o Pacto Molotov-Ribbentrop.
Antecedentes
Comércio tradicional, Primeira Guerra Mundial e Revolução Russa
A Alemanha não carecia de recursos naturais, incluindo as principais matérias-primas necessárias para as operações econômicas e militares. Antes da Primeira Guerra Mundial, o país importava anualmente 1,5 bilhão de Reichsmarks em matérias-primas e outros bens da Rússia. No entanto, as economias dos dois países eram muito diferentes antes da Primeira Guerra Mundial. A Alemanha havia se tornado a segunda maior economia comercial do mundo, com uma força de trabalho altamente qualificada, em grande parte dominada pelo setor privado. Embora a Rússia Imperial tivesse se modernizado rapidamente, dez vezes mais, nos cinquenta anos anteriores à guerra, sua economia ainda dependia fortemente de encomendas estatais e sua indústria era rigidamente regulamentada pelo Estado czarista.
As exportações russas para a Alemanha caíram drasticamente após a Primeira Guerra Mundial. Além disso, após a Revolução Russa de 1917, o jovem Estado comunista assumiu a propriedade de toda a indústria pesada, do setor bancário e das ferrovias, enquanto a Nova Política Econômica de 1921 deixou quase toda a produção em pequena escala e a agricultura no setor privado. A economia alemã, devastada pela guerra, lutou para retornar aos níveis pré-guerra, com a inflação também cobrando seu preço em 1923.
Na União Soviética, a produção industrial só atingiu, aproximadamente, os níveis de 1913, sob o regime czarista, em 1927, mas as exportações soviéticas para a Alemanha aumentaram para 433 milhões de Reichsmarks anualmente em 1927, após a assinatura de acordos comerciais entre os dois países em meados da década de 1920.
O economista Nikolai Kondratiev foi incumbido de estudar a economia soviética e defendeu um crescimento lento e prudente que preservasse os resquícios da economia de mercado da Nova Política Econômica. No final da década de 1920, Josef Stalin levou a economia na direção oposta, iniciando um período bem-sucedido de industrialização socialista em larga escala em seu primeiro plano quinquenal para uma economia soviética que ainda era composta em mais de 80% pelo setor privado, com planos de eliminar todos os vestígios do livre mercado. Kondratiev foi acusado de defender uma teoria de equilíbrio "contrarrevolucionária", sendo posteriormente demitido e preso por ser um "professor cúlaque". No final de sua sentença de 8 anos, foi levado a julgamento novamente e executado por um pelotão de fuzilamento no campo de fuzilamento de Kommunarka, no mesmo dia em que sua sentença de morte foi proferida.
Início da década de 1930 No início da década de 1930, as importações soviéticas diminuíram à medida que o modelo comunista alcançava maior autossuficiência. O órgão de planejamento econômico soviético apresentou grandes melhorias, apesar da hostilidade de potências estrangeiras. O que se seguiu foi um sistema que incluía a revisão mais adequada das contas nacionais e das medições econômicas. As alterações subsequentes do Gosplan melhoraram seu funcionamento.
Embora a produção industrial soviética tivesse aumentado significativamente em relação aos níveis anteriores, as exportações soviéticas para a Alemanha caíram para 223 milhões de Reichsmarks em 1934 devido à desconfiança dos soviéticos em relação ao regime alemão. Embora a União Soviética tivesse quase o dobro da população da Alemanha, sua produção industrial ainda ficava atrás devido à natureza atrasada do antigo regime czarista e às invasões da União Soviética pelas potências ocidentais e outros países que se seguiram à sua criação. Sua produção de aço quase alcançou a da Alemanha em 1933, durante o colapso econômico do país na Grande Depressão. A seguir, apresentamos as importações alemãs da Rússia Imperial e da União Soviética entre 1912 e 1933:
{| class=wikitable |- ! Ano ||Importações daRússia/URSS* ||rowspan=8| ||Ano || Importações daRússia/URSS* |- style="text-align:center;" | align="left"|1912||1,528||1928||379 |- style="text-align:center;" | align="left"|1913||1,425||1929||426 |- style="text-align:center;" | align="left"|1923||147||1930||436 |- style="text-align:center;" | align="left"|1924||141||1931||304 |- style="text-align:center;" | align="left"|1925||230||1932||271 |- style="text-align:center;" | align="left"|1926||323||1933||194 |- style="text-align:center;" | align="left"|1927||433|||| |- |colspan="6"|*em milhões de Reichsmarks
As exportações soviéticas para a Alemanha representavam uma pequena porcentagem das importações alemãs, devido ao grande volume de comércio que o regime nazista mantinha com os EUA e o Reino Unido. Naquela época, os soviéticos tinham pouco de interesse para compradores estrangeiros em geral.
Era nazista e deterioração das relações Ascensão dos nazistas ao poder
A ascensão de Hitler ao poder aumentou as tensões entre a Alemanha e a União Soviética, com a ideologia racial nazista retratando a URSS povoada por "sub-humanos" de etnia eslava, governados por seus mestres "judeus bolcheviques". Em 1934, Hitler falou de uma batalha inescapável contra os "ideais pan-eslavos", cuja vitória levaria ao "domínio permanente do mundo", embora tenha afirmado que "percorreriam parte do caminho com os russos, se isso nos ajudasse". O sentimento ecoava, em linhas gerais, os escritos do líder nazista em Mein Kampf, de 1925, nos quais ele afirmava que o destino da Alemanha era voltar-se "para o Oriente", como fizera "seiscentos anos atrás", e que "o fim da dominação judaica na Rússia será também o fim da Rússia como Estado".
Segundo Valentin Berezhkov, intérprete de Josef Stalin, o líder soviético elogiou bastante a Noite das Facas Longas em 1934 e considerava Hitler um "grande homem!" que havia demonstrado "como lidar com seus oponentes políticos". Berezhkov também sugeriu paralelos entre o expurgo interno do partido de Hitler e a repressão em massa de Stalin contra os antigos bolcheviques, comandantes militares e intelectuais.
A ideologia nazista focava na luta racial, em vez da luta de classes que estava no centro da ideologia marxista. Embora a ideologia nazista se opusesse tanto ao comunismo da União Soviética quanto ao capitalismo, associando os judeus a ambos os sistemas, a crítica nazista ao capitalismo compartilhava semelhanças com a dos marxistas, pois ambas se concentravam na excessiva concentração financeira, na queda das exportações, na retração dos mercados e na superprodução. Hitler gabou-se mais tarde de que o melhor meio de combater a inflação "deveria ser procurado nos nossos campos de concentração". Enquanto os marxistas viam a revolução como a solução, Hitler enxergava a conquista como a única solução possível — a expropriação de recursos, como o Lebensraum, por meio de guerras que não poderiam ser vencidas através de sistemas capitalistas falidos. Contudo, a sobrevivência do setor privado não era incompatível com o amplo planejamento econômico estatal nazista.
Tanto a economia soviética quanto a alemã haviam crescido após as graves crises econômicas do final da década de 1920, que se seguiram à Primeira Guerra Mundial e à Revolução Russa. A economia alemã registrou um crescimento real superior a 70% entre 1933 e 1938, enquanto a economia soviética apresentou um crescimento semelhante entre 1928 e 1938. No entanto, com a forte intervenção estatal, ambas as economias também se tornaram mais isoladas e expandiram-se em condições de autarquia excepcional. O comércio exterior e o investimento de capital externo diminuíram consideravelmente em ambas as economias durante a década de 1930.
Em meados da década de 1930, a União Soviética fez repetidos esforços para restabelecer contatos mais estreitos com a Alemanha. Os soviéticos procuravam principalmente pagar dívidas contraídas anteriormente em troca de matérias-primas, enquanto a Alemanha buscava rearmar-se, e os países assinaram um acordo de crédito em 1935. Em 1936, os soviéticos tentaram estreitar os laços políticos com a Alemanha, juntamente com um acordo de crédito adicional, propostas que foram rejeitadas por Hitler, que desejava manter-se afastado de tais relações políticas. Em resposta às esperanças de Stalin de concluir um acordo econômico com Hitler, a seção de assuntos externos da NKVD o advertiu de que "todas as tentativas soviéticas de apaziguar e conciliar Hitler estão fadadas ao fracasso. O principal obstáculo para um entendimento com Moscou é o próprio Hitler." Stalin discordou, respondendo à NKVD: "Ora, como Hitler pode nos declarar guerra se concedeu tais empréstimos? É impossível. Os círculos empresariais na Alemanha são muito poderosos e estão no controle."
Deterioração das relações em meados da década de 1930 Em 1936, a Alemanha e a Itália fascista apoiaram os nacionalistas espanhóis na Guerra Civil Espanhola, enquanto os soviéticos apoiaram a oposição da República Espanhola, liderada em parte por socialistas. Nesse mesmo ano, a Alemanha e o Japão aderiram ao Pacto Anticomintern, e a Itália juntou-se a eles no ano seguinte.
Naquele ano, a Alemanha também enfrentou uma grande crise de alimentos e matérias-primas, decorrente das crescentes dificuldades que os órgãos estatais encontravam para controlar os preços e o fornecimento de produtos diante da resistência das forças de mercado. Assim como o economista soviético Nikolai Kondratiev, o economista alemão Hjalmar Schacht foi demitido e duramente criticado. A crise levou Hitler a escrever um dos poucos documentos de alguma extensão que redigiu em seus 12 anos como líder do Reich — um memorando de seis páginas que se concentrava na construção de um exército maior do que todas as possíveis combinações inimigas e em impor à economia seu dever racial de evitar todas as tarefas não essenciais em favor da guerra em larga escala. Disso surgiu seu Plano Quadrienal para o rearme "sem levar em conta os custos", transformando a economia em uma Wehrwirtschaft (economia baseada na defesa). Seus conselheiros sugeriram um Plano Quinquenal, mas Hitler recusou, optando pelo Plano Quadrienal, que soava menos marxista.