Couronnement de la rosière (em português: Coroação da roseira) é um curta-metragem francês de filme mudo e documentário de 1896, dirigido e produzido por Georges Méliès. Distribuído pela Star Film, o filme é registrado com o número 13 em seu catálogo. Documenta a cerimônia tradicional de coroação de uma rosière — termo francês sem equivalente direto em português, traduzido aproximadamente como "donzela virtuosa", designando a jovem eleita pela comunidade e coroada com rosas como símbolo de conduta exemplar —, registrada em localidade francesa não identificada, com aproximadamente 20 metros de película, equivalentes a cerca de um minuto de projeção. O filme é considerado perdido.

A tradição da rosière

A rosière é uma jovem designada pelos habitantes de uma aldeia ou cidade francesa como símbolo de virtude e conduta irrepreensível. A cerimônia de couronnement consistia em uma procissão festiva na qual a jovem eleita recebia uma coroa de rosas, recompensa simbólica pela sua reputação exemplar. A tradição remonta à Idade Média francesa, sendo especialmente popular nas comunidades rurais das regiões próximas a Paris ao longo do século XIX e início do século XX.

O costume ganhou expressão crescente durante a segunda metade do século XIX. A cerimônia era realizada em diversas localidades da Île-de-France, funcionando como festa cívica com participação da comunidade, imprensa local e autoridades municipais. O tema encontrou espaço também na literatura: em 1887, Guy de Maupassant o satirizou na novela Le Rosier de Madame Husson, atestando a relevância cultural da tradição na época em que Méliès a filmou. Em 1896, a cerimônia ainda era suficientemente popular para figurar entre os temas selecionados pelo cineasta em sua primeira temporada de produções.

Produção

Georges Méliès iniciou sua carreira cinematográfica em maio de 1896, após adquirir e modificar um projetor do inventor britânico Robert W. Paul para utilizá-lo como câmera improvisada. Influenciado pelo modelo dos Irmãos Lumière — pioneiros do cinema que estabeleceram o padrão do filme de atualidade —, dedicou-se nos primeiros meses a registrar cenas cotidianas e eventos públicos ao ar livre: ruas de Paris, paisagens da Normandia, jardins e praias. Couronnement de la rosière é característico dessa fase: capta um evento do cotidiano francês sem recorrer aos truques de substituição de corte e efeitos de câmera que, a partir do mesmo ano de 1896, começariam a transformar o estilo do cineasta.

O filme recebeu o número 13 no catálogo da Star Film (oficialmente denominada Manufacture de Films pour Cinématographes), empresa cujos filmes eram listados em ordem de produção, com cada número de catálogo correspondendo a aproximadamente 20 metros de película. O catálogo foi inaugurado com Une partie de cartes (n.º 1), o primeiro filme de Méliès, realizado também em 1896. Os filmes imediatamente vizinhos no catálogo — Un petit diable (n.º 12) e Bébé et Fillettes (n.º 14) — pertencem ao mesmo período e igualmente não sobreviveram.

A marca registrada Star Film, com o slogan The Whole World Within Reach (O mundo inteiro ao alcance), foi patenteada por Méliès em 2 de dezembro de 1896, formalizando uma estrutura de produção e distribuição internacional que chegaria a comercializar mais de 500 títulos até o encerramento das atividades em 1913.

Contexto na filmografia de Méliès

Couronnement de la rosière integra o conjunto de filmes de atualidade que Méliès produziu entre 1896 e 1900, correspondendo a 93 títulos — 18% de toda sua obra — filmados em exteriores como registros documentais de eventos reais. Esse grupo contrastava com as scènes composées (cenas compostas), as produções ficcionais e de truques filmadas no estúdio de Montreuil a partir de 1897, gênero no qual Méliès alcançaria reconhecimento internacional com obras como Escamotage d'une dame chez Robert-Houdin (1896), Le Manoir du diable (1896) e, mais tarde, Voyage dans la Lune (1902).

Dos 77 filmes produzidos por Méliès em 1896, a esmagadora maioria é considerada perdida, e os poucos sobreviventes — como Une partie de cartes (n.º 1), Défense d'afficher (n.º 15) e Une nuit terrible (n.º 26) — encontram-se preservados em arquivos cinematográficos na Europa e nos Estados Unidos. Couronnement de la rosière (n.º 13) está entre os títulos que não superaram esse período de deterioração e descarte massivo.

Preservação

O filme é classificado como filme perdido, status compartilhado pela maioria dos filmes de atualidade de Méliès do mesmo período. Diversas causas contribuíram para essa perda generalizada. O suporte em nitrato de celulose utilizado nos filmes de 1896 era altamente inflamável e quimicamente instável, deteriorando-se com facilidade ao longo das décadas. Além disso, o próprio Méliès, ao enfrentar grave crise financeira durante a Primeira Guerra Mundial e nos anos subsequentes, descartou deliberadamente grande parte de sua coleção de negativos e cópias positivas — material que poderia ter preservado centenas de títulos. A compra e fundição de seus rolos de nitrato para extração da prata foi uma prática comum no período.

O estado de conservação da obra de Méliès foi sistematicamente catalogado pelo pesquisador Jacques Malthête na filmografia publicada em 2008, revisando e ampliando levantamentos anteriores realizados por Paul Hammond (1974) e John Frazer (1979). Estima-se que, dos aproximadamente 520 filmes realizados por Méliès entre 1896 e 1912, apenas cerca de 200 tenham sobrevivido.

Ver também Georges Méliès Star Film Filme perdido Filme mudo Filme de atualidade

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