Pseudo-Empédocles ou Empédocles árabe () é o nome usado por acadêmicos para reunir um (ou mais) escritores desconhecidos cujas obras foram erroneamente atribuídas a Empédocles, as quais apresentam semelhanças em suas doutrinas cosmológicas, com correspondências a alguns conceitos autênticos do filósofo grego (como o fundamento de tudo no cosmos em um Amor primordial), mas com forte elaboração neoplatônica. As referências mais antigas ao corpus pseudoempedocliano se encontram em árabe e não foi encontrado ainda nenhum dos supostos originais gregos de tais obras.

Muitas das referências com essa autoria pseudepígrafa influenciaram pensadores islâmicos medievais que também receberam possíveis influências neoplatônicas gnósticas e cabalísticas. Com isso, houve impacto também sobre alguns escritos posteriores na Europa, inclusive em textos judaicos. Porém, a dimensão desse impacto é questionada por diversos acadêmicos.

A investigação de Pseudo-Empédocles por acadêmicos ocidentais se iniciou no século XIX, mas foi Miguel Asín Palacios que realizou um impactante esforço de reunir o suposto conjunto de seu pensamento. Com base em fontes secundárias, ele elaborou a tese de que a influência pseudoempedocliana se difundiu a partir do que ele chamou de "escola de Ibne Massarra". Nela, alega-se que houve uma ampla repercussão, evidenciada por similaridade de pensamento (alegadamente da doutrina de Pseudo-Empédocles) em árabes neoplatônicos do século X, principalmente a partir de Ibne Massarra, transmitida até a Ibne Gabirol e a textos cabalísticos do século XV, e mesmo ao escolasticismo e neoplatonismo latino. Essa tese, no entanto, foi contestada por diversos acadêmicos posteriores.

Atualmente, os estudiosos concordam que a transmissão foi mais restrita, mas não se sabe ao certo onde e quando a chamada doutrina pseudoempedocliana teria surgido, tendo sido já apontadas diversas possíveis origens e interações intelectuais entre estudiosos da filosofia grega, cristãos, judeus e muçulmanos, seja em contexto abássida no Maxerreque ou omíada e fatímida no Al-Ândalus e Magrebe.

Doutrina Miguel Asín Palacios tentou sistematizar teoremas que ele alegava como sendo pervasivos ao Pseudo-Empédocles, e que detinham ao mesmo tempo, segundo ele, um fundo neoplatônico. Encontram-se, por exemplo, as afirmações de que o Amor ou Esfera divina é a força onipresente, direciona e une a tudo, embora seja dividida pela antagônica Contenda: ambas teriam sido localizadas pelos árabes, em adaptação, na prima matéria criada por Deus. Quanto à psicologia, a alma, em sua origem, era vinculada à Esfera; porém, encarnando devido à força antagônica, deve se espiritualizar e retornar à união. Esse retorno das partes ao todo, transformando-se à essência mais pura, foi chamada por Pseudo-Empédocles de "segundo nascimento" ou "segunda criação", e tal ciclidade foi unanimemente condenada por pensadores islâmicos.

É distinto à doutrina pseudoempedocliana que a matéria prima (ʿunṣur) é a primeira coisa na Criação, não o Intelecto (o que difere do neoplatonismo convencional); a Matéria é coeterna a Deus, carrega todas as formas e a partir dela que Deus extrai o Intelecto. Ela é uma matéria inteligível, não das coisas corpóreas. Todas as criaturas (e não Deus) participariam da matéria primordial espiritual, que é uma das cinco substâncias: as outras sendo Intelecto, Alma, Natureza e Segunda Matéria. Na cadeia do ser, cada essência é uma "casca" ou imagem das entidades precedentes, e também o "coração" ou cerne daquelas descendentes. O Amor puro teria criado as essências primordiais, enquanto a "Vitória" (o termo árabe que se estabeleceu no lugar de Contenda) teria criado a matéria grosseira (o lugar mais baixo da criação), mas a partir da mescla há substâncias compostas nas esferas intermediárias.

Estudos acadêmicos A doutrina de Pseudo-Empédocles, que teria sido exposta, segundo algumas das fontes medievais, numa obra chamada "Livro das Cinco Substâncias", teve o início de seu estudo acadêmico contemporâneo a partir de Salomon Munk (1859) e David Kaufmann (1899). Após eles, que reuniram fragmentos do livro, formou-se um "mito" em torno da influência de Pseudo-Empédocles que ganhou força máxima com Asín Palacios (a partir de sua obra de 1914 Abenmassarra y su Escuela), o qual atribuía inclusive um impacto da transmissão sobre o escolasticismo latino.

Palacios considerava que a transferência pseudoempedocliana se propagou principalmente a partir de Ibne Arabi após Ibne Massarra, porém o acadêmico espanhol confundiu diversas ideias neoplatônicas e herméticas como supostamente sendo pseudoempedoclianas. Muitos estudiosos posteriores ponderaram que esta hipótese conferiu uma proporção indevida à quantidade de fragmentos e da influência. Uma análise crítica feita por Daniel de Smet em 1997 distinguiu o "Anbaduqlis" do contexto islâmico (formado em continuidade com o neoplatonismo), enquanto criticou o Pseudo-Empédocles exagerado por tais acadêmicos iniciais e outros, como Franz Altheim e Ruth Altheim-Stiehl. De Smet desafia as teorias antigas e considera que não houve influência sobre o escolasticismo latino a partir de textos judaicos espanhóis.

De Smet rejeitou o uso do nome "Pseudo-Empédocles" como uma personalidade para se referir a um conjunto filosófico. Samuel Miklos Stern duvidou da existência de um Pseudo-Empédocles.

Especificamente em relação a Ibne Massarra, ele é um pensador original difícil de se classificar, porém a tese palaciana de uma forte difusão de Pseudo-Empédocles sobre este pensador é amplamente contestada por acadêmicos. Stern foi o primeiro que duvidou das conclusões de Palacios quanto a haver um fundo pseudoempedocliano em Ibne Massarra. Poucos autores continuaram defendendo tal influência, dentre eles se incluindo o descobridor dos textos massarrianos, Muḥammad Kamāl Ibrāhīm Jaʿfar, além de Muhammad al-Adluni al-Idrisi. Emilio Tornero considerou que, na obra massarriana, no máximo só se poderia afirmar a possibilidade de terem sido incluídos os cinco princípios da teoria pseudoempedocliana, porém que, supostamente diferente de Pseudo-Empédocles, Ibne Massarra não teria rejeitado o Uno platônico.

Sarah Stroumsa considerou a abordagem iconoclástica de Smet em alguns pontos exagerada e que ela não explicaria todas as questões em torno do corpus pseudoempedocliano. Segundo ela, Ibne Saíde Alandalusi―a fonte secundária que descreveu parte do pensamento de Ibne Massarra e que foi adotada por Palacios―por exemplo, poderia de fato estar informando precisamente a influência de um "Empédocles" sobre o pensamento massarriano a partir de fontes que ele de fato teria tido acesso, mas que agora estão perdidas junto com outros textos de Ibne Massarra.

Além de al-Andalusi, Ibne Alquifti também afirmou que Ibne Massarra desenvolveu ideias pseudoempedoclianas. Como ponderam Stroumsa e Sara Sviri, com a recente descoberta de algumas obras massarrianas originais, pode-se dizer que de fato alguns elementos de Pseudo-Empédocles, a partir de uma possível origem bagdadiana, fizeram parte do pensamento do filósofo andalusino.

Origens e linhas de transmissão A análise crítica recente das fontes indica que, na verdade, a linha de seguidores de Pseudo-Empédocles foi um fenômeno muito mais restrito dentro do mundo islâmico. Dentre os apoiadores de sua doutrina, incluem-se , Abu Solimão Assijistani e .

Muito do material pseudoempedocliano tem origem ibérica, o que pode apontar a um ramo andalusino ou magrebino de neoplatonismo árabe. Pseudo-Empédocles também pode ter sido divulgado em contexto sectarista: o Kitab al-milal wa'l-nihal (principal fonte da doutrina do "Empédocles" islâmico) de Axarastani pode sugerir uma tal tradição sectária, visto que esse próprio autor era seguidor do ismaelismo. De Smet afirma que a origem pode ter sido muçulmana, em um "neoplatonismo desviante" que envolveu Pseudo-Empédocles e outras obras pseudepígrafas que particularmente impactaram sobre autores judeus.

Stroumsa, por sua vez, afirma que a origem pode na verdade ter envolvido trocas intelectuais entre judeus e islâmicos em Al-Ândalus e no Magrebe. Os textos pseudepígrafos de contexto ismailita que chegavam na Península Ibérica eram inclusive guardados pelos judeus e os filósofos judaicos foram os principais transmissores desse tipo de neoplatonismo árabe em Al-Ândalus.

Já outros apontam uma possível origem a partir do contato com cristãos siríacos orientais, como por exemplo a partir do mosteiro de Dayr Qunnā em Bagdá, que influenciou algumas personalidades do círculo de filósofos islâmicos que se encontravam naquela cidade à época. Porém, não há razões para se indicar somente esse mosteiro como o mais relevante em popularizar Pseudo-Empédocles.

Uma outra fonte principal da doutrina de Pseudo-Empédocles é a doxografia neoplatônica Kitāb Amūnīyūs fī ārā ̉ al-falāsifa, escrita por Pseudo-Amônio, por volta de 850. Ele menciona de maneira rica algumas ideias alegadamente de Empédocles que teriam vindo, na verdade, de tratados neoplatônicos pseudepígrafos que já circulavam no período islâmico inicial. Outros fragmentos e referências se encontram nos Kitāb al-Amad ʿalā l-aba de Alamiri, Siwān al-ḥikma de Assijistani, Kitāb ʿAṭf al-alif al-ma ̉lūf ʿalā l-lām al-maʿṭū de Adailami, Kitāb Ṭabaqāt al-umam de Al-Andalusi, ʿUyūn al-anbā ̉ fī ṭabaqāt al-aṭibbā de , Ta ̉rīkh al-ḥukamā de Al-Qifti, Nuzhat al-arwāḥ wa-rawḍat al-afrāḥ de Al-Shahrazuri, Kitāb al-Ghāyat al-ḥakīm de Pseudo-Majriti e no Corpus Gabirianum. Fragmentos em hebraico do Livro das Cinco Substâncias se encontram em três obras medievais judaicas.

Tanja Werthmann considera que a doutrina surgiu em contexto doxográfico, em tentativas de conciliação entre visões pré-socráticas e neoplatônicas, pois muitos dos conceitos como as "cascas" já eram presentes em filósofos antigos e podem ser projeções neoplatônicas. Por exemplo, a antecedência da Matéria inteligível como hipóstase que precede o Intelecto é vista também em Plotino. Ela afirma que a doutrina de Pseudo-Empédocles pode ter advindo da recepção do conceito de arché, derivando-se do entendimento que os doxógrafos tiveram de Tales e Anaxímenes. Embora não seja possível apontar se a origem da doutrina era um texto grego adaptado ou se foram árabes estudando os pré-socráticos sob um olhar neoplatônico, o Pseudo-Empédocles resultante é fruto de uma hibridização intelectual.

Segundo Alexander Altmann, os diversos textos associados à doutrina de Pseudo-Empédocles evidenciam "o encanto do ethos neoplatônico".

Há acadêmicos (incluindo Louis Massignon, Herbert Mason e Saer El-Jaichi) que apontam a influência de Pseudo-Empédocles também na mística do amor apaixonado (ʿishq, maḥabba) de Alhalaje, em que o Desejo (mashī ̉a) é o primeiro modo de Deus, bem como sua fundamentação em matéria prima e secundárias. Foi Louis Massignon quem propôs pela primeira vez o rastreamento da origem a Bagdá e que mapeou uma linha de transmissão das ideias pseudoempedoclianas lá situada: a partir de Abu Bixer Mata ibne Iunus (939) para Assijistani , Atauidi e Adailami. A hipótese de Massignon é de que as fontes oriundas do mosteiro nestoriano poderiam guardar a doutrina de Pseudo-Empédocles e que ela teria tido popularidade entre os mosteiros siríacos.

Ibne Sadique e Maimônides fazem referência a estes livros atribuidamente de Empédocles. Na versão da lenda árabe do Buda (Bilawahar wa-Yudasaf) adaptada por Abraão Ibne Hasdai, há marcas da escola pseudoempedocliana, pois nele se descrevem duas substâncias simples (prima matéria hílica e primeira forma como as primeiras entidades na cadeia de emanação).