Bois de Boulogne (Touring Club) (em português: Bois de Boulogne (Clube de Turismo)) é um curta-metragem francês de filme mudo e documentário de 1896, dirigido e produzido por Georges Méliès. Distribuído pela Star Film, o filme é registrado com o número 20 em seu catálogo. Com aproximadamente 20 metros de película, equivalentes a cerca de um minuto de projeção, registra ciclistas do Touring Club de France em passeio pelo Bois de Boulogne, o grande parque público a oeste de Paris. É o primeiro de dois curtas que Méliès dedicou ao Bois de Boulogne em 1896, seguido imediatamente por Bois de Boulogne (Porte de Madrid) (n.º 21), filmado em outra entrada do mesmo parque. O filme é considerado perdido.
O Bois de Boulogne e o ciclismo em 1896
O Bois de Boulogne é um parque de 873 hectares situado a oeste de Paris, na margem direita do Sena. Antiga floresta real de caça, foi cedido à cidade de Paris em 1852 pelo imperador Napoleão III e remodelado pelo barão Haussmann nos moldes dos parques ingleses, tornando-se o principal espaço de lazer da burguesia parisiense na segunda metade do século XIX. Em 1896, o parque era também o epicentro da chamada *vélomania* — a febre das bicicletas que tomou conta das classes médias e altas francesas na década de 1890. Suas alamedas e caminhos arborizados eram frequentados diariamente por ciclistas em passeio, tornando-o cenário natural para o registro documental da nova cultura do lazer sobre duas rodas.
O Touring Club de France (1890–1983) foi fundado em 26 de janeiro de 1890, em Neuilly-sur-Seine, por um grupo de amantes de bicicletas liderados por Édouard Bruel, inspirados no modelo do *Cyclists' Touring Club* britânico. Seu objetivo estatutário era "o desenvolvimento do turismo sob todas as suas formas", tendo sido reconhecido de utilidade pública por decreto em 30 de novembro de 1907. Frequentada predominantemente pela classe média-alta, a associação viu sua filiação crescer de forma acelerada a partir de 1893, chegando a contar com mais de 70 000 membros ao final da década — reflexo direto da popularização da bicicleta como símbolo de modernidade e liberdade de movimento. O Bois de Boulogne era o destino predileto dos membros do clube nos passeios dominicais, e cenas de ciclistas em suas alamedas tornaram-se um tema recorrente na imprensa ilustrada e nas artes visuais da Belle Époque.
Produção
Georges Méliès realizou Bois de Boulogne (Touring Club) em 1896, inserindo-o na série de filmes de atualidade que produziu naquele ano ao registrar cenas do cotidiano parisiense sem recorrer a truques de câmera ou narrativa ficcional. A escolha do Bois de Boulogne como locação reflete a lógica de documentação da vida moderna que guiava Méliès nessa fase inicial: ao lado de bulevares, praças e estabelecimentos de ensino, o grande parque do oeste de Paris e seus frequentadores abastados compunham o repertório visual de uma cidade em transformação.
O interesse cinematográfico pelo ciclismo no Bois de Boulogne não era exclusivo de Méliès. Os Irmãos Lumière haviam registrado cenas similares em seus próprios filmes de atualidade, e o tema dos ciclistas em passeio era considerado de apelo garantido junto ao público burguês que frequentava as primeiras sessões de cinema — o mesmo público que pedalava no parque aos fins de semana. A decisão de identificar explicitamente o Touring Club de France no título do filme sugere que a associação e seus membros eram suficientemente reconhecíveis pelo público para funcionar como elemento de identificação e atração.
Méliès filmou o Bois de Boulogne em dois ângulos distintos na mesma temporada, resultando em dois títulos separados no catálogo da Star Film: o n.º 20, focado nos ciclistas do Touring Club, e o n.º 21, Bois de Boulogne (Porte de Madrid), filmado na Porte de Madrid — uma das entradas monumentais do parque, no limite com Neuilly-sur-Seine. Essa prática de filmar o mesmo local sob ângulos ou aspectos diferentes era comum em Méliès nesse período, como demonstra também a série de três vistas da Place de l'Opéra (n.º 10, 17) produzidas no mesmo ano.
Contexto no catálogo Star Film
Bois de Boulogne (Touring Club) ocupa o número 20 no catálogo da Star Film, empresa fundada por Méliès em 2 de dezembro de 1896. Ambos os filmes do Bois de Boulogne — n.º 20 e n.º 21 — são considerados perdidos, assim como o filme imediatamente anterior no catálogo, O liceu de moças (n.º 19). Este trecho do catálogo Star Film é, portanto, inteiramente inacessível ao pesquisador contemporâneo.
Preservação
O filme é classificado como filme perdido. As causas da perda generalizada da produção inicial de Méliès incluem a instabilidade química do suporte em nitrato de celulose, a destruição deliberada de parte do acervo pelo próprio cineasta durante a crise financeira que se seguiu à Primeira Guerra Mundial, e a requisição de negativos pelo exército francês durante o conflito. Estima-se que, dos aproximadamente 520 filmes realizados por Méliès entre 1896 e 1912, apenas cerca de 200 tenham sobrevivido.
Ver também Georges Méliès Star Film Company Bois de Boulogne Touring Club de France Bois de Boulogne (Porte de Madrid) Filme perdido Filme mudo Filme de atualidade
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