Scamilli inpares é um termo empregado por Vitrúvio em seu tratado De architectura que se refere a um dispositivo de correção ótica da linha horizontal oferecida pelo estilóbata, conceitualmente análogo à êntase aplicada às colunas. O significado do termo, empregado explicitamente em duas passagens (iii, 4.5 ; v, 9.4 ) e indiretamente em outra (iii, 5.8 ) do tratado vitruviano, permaneceu incerto por muito tempo, uma vez que as tábuas ilustrativas anexas ao texto original já haviam se perdido na Idade Média.

A interpretação gerou entre os eruditos um debate que, do século XVI, prolongou-se até meados do século XIX, sobretudo devido à interpretação errônea do termo estilóbata (que indica o plano de assentamento das colunas e não o seu embasamento) e que se resolveu apenas parcialmente com a investigação arqueológica <ref</ref>. Até hoje não existe uma interpretação definitiva.

As primeiras leituras quinhentistas de Vitrúvio entenderam os scamilli como balaustradas recuadas interpostas entre as colunas (Cesare Cesariano, Guillaume Philandrier, Gregorio Cortese, Daniele Barbaro) ou como elementos em relevo a serem aplicados ao dado das colunas (Giovan Battista Bertani); estas definições, embora percebessem que os scamilli tinham uma função ótica, atribuíam a eles o objetivo de equilibrar a percepção da composição arquitetônica no plano horizontal (agindo, portanto, na profundidade). A hipótese das balaustradas, ora maciças, ora perfuradas, não encontrava, porém, respaldo em exemplos concretos, sendo até então a análise baseada apenas na leitura filológica do texto vitruviano.

O pequeno tratado de Bernardino Baldi, Scamilli inpares Vitruviani, A Bernardino Baldo Urbinate Nova ratione explicati (1612), além de resumir e rejeitar as interpretações anteriores, identifica a etimologia do termo e considera os scamilli como pequenos scamni (escabelos ou degraus), ou seja, sapatas de moldura côncava interpostas entre as bases e os pedestais das colunas, com o objetivo de tornar a coluna visível em sua totalidade para um observador posicionado abaixo. Baldi chega a definir como scamilli também os calços na extremidade superior das colunas, situados sob a arquitrave.

É somente com o arquiteto inglês William Wilkins (1812) que se conjetura que a modificação ótica devida aos scamilli seja a do plano de assentamento das colunas, hipótese que é confirmada pela descoberta da curvatura do estilóbata do Partenon nos anos 30 do século XIX. Wilkins teoriza que, para o estilóbata que declina do centro para as extremidades, deve haver uma compensação oferecida por calços colocados sob os plintos das colunas, com altura decrescente em direção ao centro, para efetuar uma correção que anule o efeito de convexidade do plano de circulação do pódio.

Francis Cranmer Penrose (1851) deu uma explicação que foi aceita como definitiva por quase um século: a de que os scamilli seriam os elementos terminais dos fustes das colunas, tendo altura variável entre as diversas colunas com o propósito de nivelar a curvatura do estilóbata nos níveis superiores.

Dois acadêmicos franceses, Émile Burnouf (1875) e Gaspard George (1877), chegaram independentemente a atribuir aos scamilli uma função puramente técnica, ou seja, calços de altura variável e decrescente em direção ao centro do estilóbata, com o puro objetivo operacional de auxiliar a execução material da curvatura do plano.

Outra linha interpretativa, originada por Auguste Choisy (1909) e substanciada por investigações recentes (1974) de Dieter Mertens, sustenta que os scamilli inpares não são elementos arquitetônicos materiais, mas apenas um artifício operacional para realizar materialmente a curvatura do estilóbata: tratar-se-ia de uma série de marcas de altura variável em relação à horizontal, das quais foi encontrado um exemplo na base das colunas do templo de Segesta. As linhas são obtidas espelhando simetricamente à horizontal as ordenadas de uma catenária, curva geométrica facilmente resultante do uso de uma corda.

Hansgeorg Bankel, após investigações realizadas em Cnido (1970), postula, por fim, que a curvatura do estilóbata era obtida colocando cilindros de madeira de espessura variável dentro de furos específicos nas lajes da base, trabalhando-se então o soco até a cota determinada pela espessura.

Ver também Ordem arquitetónica Arquitetura da Grécia Antiga

Categoria:Elementos arquitetónicos