O SS Jura foi um navio transatlântico britânico, construído em 1854 pela J. & G. Thomson & Co., e operado pela Cunard Line entre 1854 e 1860. Foi lançado em 27 de junho de 1854, e realizou sua viagem inaugural em maio de 1855, pois durante todo esse tempo operou na Guerra da Crimeia.
O Jura acabou sendo vendido em 1860 para a Allan Line, e começou a fazer rota de Liverpool a Quebec (durante o verão) e de Liverpool a Portland (quando o Rio São Lourenço congelava, geralmente no inverno).
Na madrugada de 3 de novembro de 1864, o Jura estava navegando pelo Rio Mersey, mas, no entanto, por prováveis erros de cálculo de distância, ele encalhou no banco de areia Crosby Spit.
Esperava-se que o navio fosse se recuperar rápido, mais alguns minutos depois do encalhe, o navio partiu-se no meio na altura de sua chaminé, sendo declarado uma perda total.
Construção O Jura foi construído em Glasgow, na Escócia, pelo estaleiro J. & G. Thomson & Co., recebendo o número de construção 11. O navio foi projetado com um casco de ferro e propulsão por hélice (em vez das tradicionais rodas de pás da época), movido por um motor a vapor de dois cilindros.
A embarcação possuía uma arqueação bruta de aproximadamente 2 241 toneladas (GRT). As suas dimensões principais registravam cerca de 95,7 metros de comprimento (314 pés) e 11 metros de boca (36 pés). O navio foi encomendado originalmente para reforçar o serviço transatlântico de passageiros e cargas da Cunard Line, integrando uma nova geração de navios de ferro movidos a hélice da companhia.
Carreira Serviço na Guerra da Crimeia (1854–1855) Logo após a sua conclusão no final de 1854, o Jura não foi imediatamente colocado na rota comercial planejada. Devido às demandas logísticas da Guerra da Crimeia, a embarcação foi um dos onze navios a vapor da Cunard requisitados pelo Almirantado Britânico para atuar como transporte de tropas e cavalos para o fronte de batalha. O navio auxiliou no deslocamento de contingentes militares britânicos até o Mar Negro antes de ser devolvido ao serviço comercial no ano seguinte.
Serviço Transatlântico Livre das obrigações militares, o Jura realizou a sua viagem inaugural comercial em 31 de maio de 1855, partindo de Liverpool com destino a Nova Iorque. Pelos cinco anos seguintes, serviu estavelmente nas rotas transatlânticas da Cunard, conectando o Reino Unido aos portos de Nova Iorque e Boston, transportando passageiros de diversas classes, cargas gerais e correspondências reais sob o contrato de correio marítimo britânico.
Transferência para a Allan Line (1860–1864) Em 1860, buscando renovar a sua frota com navios maiores, a Cunard Line vendeu o Jura para a Montreal Ocean Steamship Company (popularmente conhecida como Allan Line), uma companhia de navegação escocesa-canadense. Sob a nova bandeira, o navio passou a cobrir as rotas que ligavam Liverpool a Quebec (durante o verão) e a Portland, no Maine (durante os meses de inverno, quando o Rio São Lourenço congelava), tornando-se uma peça importante no transporte de imigrantes europeus rumo ao Canadá.
Naufrágio Na madrugada de 3 de novembro de 1864, o Jura estava completando mais uma travessia rumo a Liverpool, vindo de Quebec. Ao se aproximar da entrada do Rio Mersey sob densa neblina, o navio recolheu um piloto local para orientar a entrada no rio através do canal de Formby.
Devido a um erro de cálculo de distância ou à confusão com as luzes de sinalização dos portos, a embarcação acabou saindo do canal navegável em velocidade de cruzeiro e encalhou violentamente no banco de areia conhecido como Crosby Spit (ou Crosby Point). Rebocadores, barcaças e barcos de resgate foram enviados imediatamente ao local, conseguindo evacuar com segurança todas as malas de correio, valores monetários, passageiros e grande parte da carga de grãos.
Apesar dos esforços mecânicos para desalojá-lo na maré cheia seguinte, a seção dianteira da quilha ficou presa à areia enquanto a popa ficou suspensa. Sob a pressão estrutural não só do navio mais também das correntes marítimas, o casco de ferro do Jura partiu-se ao meio na altura da chaminé algumas horas depois, resultando na perda total da embarcação. A seção de proa acabou sendo reflutuada em 6 de fevereiro de 1865 e encalhada em Egremont, Lancashire."Ship News". The Times. No. 25102. Londres. 7 de fevereiro de 1865. col. E, p. 7.
Incidentes notáveis Relato histórico de maus-tratos a bordo (1855) Em novembro de 1855, durante uma de suas primeiras viagens transatlânticas de Liverpool para Nova Iorque, o Jura enfrentou fortes tempestades que prolongaram a viagem por semanas. Um dos passageiros da terceira classe, o carpinteiro Thomas Parkin, escreveu um diário detalhado que se tornou um dos documentos históricos mais famosos sobre a imigração oitocentista. No relato, Parkin denunciou que a tripulação do Jura tratava os imigrantes "pior do que gado", racionando água potável estragada e fornecendo comida crua ou podre, o que gerou um surto de doenças a bordo e quase causou uma revolta dos passageiros antes da chegada aos Estados Unidos.
Coincidência jornalística e o caso Müller (1864) O naufrágio do Jura dividiu violentamente as manchetes dos jornais britânicos e americanos de novembro de 1864 com um dos crimes mais famosos da era vitoriana: o julgamento de Franz Müller, o primeiro homem a cometer um assassinato dentro de um trem em movimento no Reino Unido. Coincidentemente, Müller havia fugido anteriormente para a América a bordo de outro navio a vapor, e as correspondências jurídicas urgentes sobre a sua extradição e os detalhes finais do seu enforcamento estavam sendo transportadas justamente nas malas postais resgatadas às pressas do Jura enquanto o navio afundava no Rio Mersey.
Instalações O Jura foi projetado para operar como um navio de transporte misto, dividindo estritamente as suas acomodações internas para atender às diferentes classes sociais que cruzavam o Atlântico na metade do século XIX. A embarcação tinha capacidade para transportar cerca de 100 passageiros de primeira classe (conhecida como classe de cabine) e mais de 400 passageiros na terceira classe (o entreponte ou steerage).
As instalações da primeira classe ficavam localizadas na seção central e superior do navio, onde o balanço do mar era menos sentido. Os bilhetes davam direito a cabines privadas decoradas com painéis de madeira polida, iluminação a óleo e beliches estofados. Os passageiros desta classe tinham acesso exclusivo a um salão de jantar principal, salas de fumo para os homens e uma biblioteca, além de uma área reservada no convés superior para caminhadas ao ar livre. O cardápio incluía carnes frescas (mantidas em iceboxes ou abatidas a bordo), vinhos e atendimento por mordomos dedicados.
A grande maioria das pessoas que viajavam no Jura, especialmente após a venda do navio para a Allan Line, eram imigrantes e colonos de origem escocesa, irlandesa e inglesa que buscavam uma nova vida no Canadá. Estes passageiros eram acomodados no entreponte, um grande galpão corrido e mal ventilado localizado abaixo do convés principal.
As condições no entreponte eram severas: os passageiros dormiam em grandes fileiras de beliches de madeira comunitários e precisavam levar os seus próprios colchões de palha e utensílios de cozinha. A alimentação fornecida pelo navio consistia basicamente em rações diárias de farinha de aveia, biscoitos duros de marinheiro, arroz e carne salgada, que muitas vezes os próprios imigrantes precisavam cozinhar em fogões coletivos sob a supervisão da tripulação. A superlotação e a falta de higiene adequada tornavam o entreponte propício à propagação de doenças em viagens de tempestade.
Ver também
Cunard Line
Categoria:Navios de passageiros do Reino Unido Categoria:Navios de 1854 Categoria:Navios da Cunard Line Categoria:Navios construídos pela John Brown & Company Categoria:Navios construídos na Escócia