A Quinta dos Condes de Carnide, também designada como Quinta do Malvar, Quinta do Cónego ou Quinta Grande, é uma quinta situada em Carnide, Lisboa. Edificada no terceiro quartel do século XVIII com risco pombalino e alguns traços românticos, serviu como morada fidalga e local de exploração agrária.
História A propriedade insere-se no limite do antigo eixo de Carnide e Luz, um histórico local de trânsito na via de comunicação entre Lisboa e Belas. A topografia plana, a abundância de recursos hídricos e os "bons ares" revelaram-se propícios à fixação da Coroa, do clero e da nobreza. Originalmente muito mais vasta, a quinta estendia-se, no século XVIII, a Sul até à Quinta da Granja de Baixo, a Poente até à Quinta do Bom Nome e a Nascente até à Azinhaga da Fonte.
Antes de 1719, o terreno era conhecido pelo topónimo de Vale Verde, surgindo a designação Malvar a partir de 1723. No ano a seguir, uma secção do domínio correspondia à Quinta do Conde de Redondo. As estruturas habitacionais mais antigas datam dos finais do século XVII.
O desenvolvimento do morgadio encontra-se intimamente ligado à família burguesa Cruz, cujos irmãos António José, José Francisco e Joaquim Inácio acumularam grande poder económico e a amizade do Marquês de Pombal, que lhes apreciava a visão empreendedora. Um quarto irmão, Anselmo, celebrou o matrimónio da filha no oratório desta casa, cerimónia que contou com a presença do marquês e seu filho, o Conde de Oeiras e então presidente do Senado lisboeta.
A partir de 1737, José Francisco e Joaquim Inácio radicaram-se na Bahia, enriquecendo através de cargos políticos e trocas comerciais, assumindo mais tarde em Portugal as funções de conselheiros e tesoureiros-mores do Real Erário. No regresso à metrópole, em 1763, José Francisco tomou de aforamento aos herdeiros de Diogo Nordes Maia uma vasta extensão de terra que formaria o núcleo da propriedade actual. Nomeado Morgado de Alagoa em 1765, faleceu volvidos três anos, deixando o seu património e avultadas dívidas ao irmão Joaquim Inácio. Simultaneamente, em 1763, o cónego da Sé Patriarcal António José da Cruz mandou reerguer e ampliar o palácio num estilo pombalino sóbrio. O sacerdote habitava a quinta em 1775, motivo pelo qual a propriedade assumiu transitoriamente o nome de Quinta do Cónego.
Joaquim Inácio assumiu o controlo da casa do falecido irmão e procedeu a obras de embelezamento, expandindo a exploração através da compra das parcelas do Malvar Pequeno, Granja, Estardim, Rosais, Espongeiras e Panasqueira. Elevado a Senhor de Sobral de Monte Agraço em 1776, este abastado proprietário destacou-se como um dos maiores construtores da Baixa Pombalina (Rua do Arsenal, Praça do Município, Corpo Santo, Cais do Sodré e Largo de S. Julião) e ergueu o Palácio Sobral no Calhariz. A sua fortuna foi consolidada por dois matrimónios: o primeiro com uma cidadã brasileira popularmente alcunhada de "Monte de Oiro", e o segundo com a herdeira D. Ana Joaquina Inácia da Cunha.
Tendo enviuvado, D. Ana Joaquina casou-se com José Street Arriaga Brum da Silveira, introduzindo a propriedade na linhagem dos detentores actuais. O casal instituiu o vínculo de Carnide em 1784 e, na ausência de filhos, doou-o em 1801 a Guilherme Street, irmão de José, mediante a imposição de D. Ana Joaquina de manter perpetuamente o apelido Cunha na família Arriaga. Em 1805 nasceu no palácio José Street de Arriaga Brum da Silveira, distinguido com o título de primeiro visconde de Carnide em 1871.
No período dos conflitos liberais, em 1833, o edifício foi requisitado para aquartelamento de Bourmont, o comandante-em-chefe do exército miguelista durante o cerco a Lisboa. Mais tarde, no ano de 1865, faleceu no palácio o folhetinista d'A Época António Pedro Lopes de Mendonça, mestre de Júlio César Machado e esposo de D. Margarida Street. Acometido de loucura antes de perecer aos 38 anos, deixou escrita no local a obra Memórias d’um Doido.
Ao longo da segunda metade do século XIX, o primeiro visconde alterou o interior da casa e adicionou um piso na ala Poente para fixar a sua família. Foi também nesta centúria que a quinta atingiu grande notoriedade agrícola, produzindo vinho, azeite, e dedicando-se à criação de ovinos, bovinos, suínos e à apicultura. Os terrenos possuíam um escoamento inovador operado por manilhas porosas enterradas à profundidade de um metro. O pioneirismo destas operações foi amplamente reconhecido:Esta quinta dos condes de Carnide foi em tempo muito nomeada pelas experiências agricolas, adubações, drenagens, emprego de machinismos, que o primeiro conde, homem instruido e grande enthusiasta da agricultura, aqui realisouCom o óbito do primeiro visconde em 1885, a casa transitou para o primogénito Guilherme Street de Arriaga Brum da Silveira e Cunha (1834-1898), que acumulou o título de segundo visconde e primeiro conde de Carnide. Em 1898, o sucessor foi o segundo conde, José Street de Arriaga Brum da Silveira e Cunha, nascido em 1887.
Durante o século XX, a propriedade sofreu um incêndio devastador que arruinou a esmagadora maioria do seu interior. A complexa reconstrução levada a cabo em 1957, sob a direcção do arquitecto Vasco Regaleira, teve como propósito restabelecer a feição simétrica e altiva do século XVIII. Para tal, a estrutura oitocentista do segundo andar foi demolida, a cobertura a tardoz sofreu alteamento para comportar as novas exigências de espaço, e eliminou-se o frontão triangular da capela para homogeneizar o telhado. Substituiu-se a antiga cor rosa das fachadas pelo tom vermelho "sangue de boi", gerando um forte contraste com os elementos pétreos de suporte, tendo-se ainda reajustado a posição de diversos vãos.
Descrição
Exterior O complexo edificado deita a sua longa fachada frontal para o Largo do Jogo da Bola, orientada a Norte e a Nascente, estabelecendo uma relação espacial directa com a praça pública. O edifício conjuga a vocação palaciana com a de um vasto solar rural, exibindo uma planta de formato rectilíneo e alongado com volumetria em paralelepípedo. Contíguos à habitação principal, para o lado esquerdo, estendem-se os antigos armazéns agrícolas e cavalariças, organizados em cinco corpos térreos que rematam superiormente numa platibanda de balaustrada e ostentam telhado a três águas.
O palácio desenvolve-se em dois pisos divididos por faixas horizontais proeminentes, formando um friso saliente, protegido por um telhado a quatro águas que é rasgado por trapeiras e chaminés e sustentado por um beiral, separado do alçado por um entablamento contínuo.
Fachada principal A face principal exibe cinco secções balizadas por pilastras de calcário, assentes em mourões protectores ao nível do solo e rematadas no topo por pináculos em forma de pirâmide. Em consequência das intervenções de 1957, dirigidas pelo arquitecto Vasco Regaleira, a fachada adquiriu uma tonalidade vermelha "sangue de boi", em forte contraste com a brancura das pilastras. Os ângulos laterais do edifício estão firmados por cunhais em cantaria sólida, apresentando tramos idênticos nos extremos compostos pela aglutinação em pedra de um portal e de uma janela, o que confere ao conjunto uma leitura de estrita simetria.
Existem 30 janelas do tipo guilhotina com emolduramentos rectos simples de calcário, sendo 14 no rés-do-chão e 16 no andar nobre. No piso inferior abrem-se duas portas de acesso, localizadas na terceira e quinta secções, intervaladas por janelas de peito dotadas de gradeamentos em ferro fundido. O piso de cima mantém o ritmo regular da fenestração, também de peito, ocorrendo contudo duas aberturas: o segundo pano apresenta um largo janelão protegido e ocluído por estrutura de ferro, e no quinto pano observa-se uma correspondência directa e articulação visual entre o pórtico térreo axial e a janela superior provida de um discreto avental esculpido em cantaria.
Fachada posterior O alçado posterior relaciona-se com o desnível do terreno direccionado a Sul através de uma escadaria exterior barroca curva de formato circular com dois tramos. Composta por duas estátuas mitológicas nos patamares, esta escadaria é guarnecida por azulejos do fim do século XVII simulando pilastras, especulando-se tratar-se de um elemento que constitui o provável testemunho arquitectónico remanescente da primeira habitação fidalga do local.
Os jardins murados desenrolam-se para Sul e Poente, desenhando padrões formais em buxo cujo epicentro é um reservatório de água em formato de tanque circular. A demarcar a fronteira entre os canteiros florais da área de recreio e a mata arborizada subsiste um murete curvo guarnecido de raros painéis azulejares da transição do século XVII para o século XVIII, ilustrando práticas de pesca (piscatórias) e caçada (venatórias), sendo considerado por Norberto de Araújo um dos raríssimos testemunhos deste género em Lisboa. A pontuar pontualmente o recinto exterior encontram-se outras superfícies revestidas a registos cerâmicos de monocromia vitrificada setecentista. O subsolo da propriedade mantinha uma rede de drenagem assente na colocação de manilhas porosas a um metro de profundidade.
Interior A entrada processa-se pelo portal principal que conduz ao átrio principal (historicamente designado de Sala Grande), núcleo de recepção de onde derivam as alas térreas, as circulações para os pisos superiores, e uma porta férrea de cantaria setecentista gradeada a ferro da mesma época que assegura a observação e visibilidade para o exterior meridional. Este espaço é enobrecido por silhares de azulejaria do século XVIII. O percurso interno de cariz barroco organiza-se a partir de um eixo central que se inicia na via pública, fura o átrio e a habitação através da escadaria tardoz, prosseguindo linearmente pelos jardins terminando na alameda da via arborizada a Poente.
No rés-do-chão, a porta lateral do flanco esquerdo revela o arranque das escadas internas compostas de dois lanços. As paredes da caixa de escadas figuram painéis cerâmicos setecentistas, retratando dinâmicas de caça onde intervêm falcões, perdizes e veados, antecedidas por uma figura de convite sob a figuração de um centurião. O andar nobre e piso principal, onde se concentram os salões de maior aparato, conserva divisões cujos tectos alternam entre o madeiramento liso ou à portuguesa e superfícies lisas enriquecidas com estuques, ostentando a Sala das Rosas uma patine dourada com ornamentos em estuque e a Sala dos Retratos pintura a fresco. Ao longo do edifício perfilam-se composições estatuárias em torno de narrativas mitológicas, a par de silhares e rodapés de azulejaria a azul e branco debruçados sobre episódios de lúdicos (pesca) e venatórios. No andar baixo de serviço subsiste intacta a antiga e vasta cozinha, um amplo compartimento inteiramente forrado a azulejos padronizados e refinados do século XVIII, que escapou incólume às intenções de modernização das últimas donas.
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