A Lavação das Escadarias da Igreja do Rosário dos Homens Pretos de São Benedito é uma celebração inter-religiosa que acontece em Curitiba, no Paraná, Brasil. É considerada uma das mais fortes manifestações em defesa da igualdade racial do sul do Brasil. O evento é o parte da Festa do Rosário, realizada no mês de novembro, em alusão ao Mês da Consciência Negra.

Origens thumb|200px|esquerda|Igreja do Rosário - Santuário das Almas, em Curitiba, Paraná. A Lavação das Escadarias da Igreja do Rosário dos Homens Pretos de São Benedito, realizada em Curitiba, busca resgatar a história do povo negro na cidade de Curitiba. O evento é inspirado na Lavagem de Nosso Senhor do Bonfim das escadarias da Igreja do Bonfim, em Salvador, Bahia.

A lavação constitui como o principal evento da programação do Mês da Consciência Negra no município. Inserida na tradicional Festa do Rosário, a celebração tem como elemento central o ritual de lavagem das escadarias da igreja, prática de forte simbolismo religioso e cultural vinculada às tradições afro-brasileiras.

A programação teve origens no interior do templo e se inicia com um ato inter-religioso, reunindo representantes de diferentes denominações religiosas em um momento de partilha de valores como fé, paz e respeito. Nesse contexto, o evento se configura como espaço de diálogo e de valorização da diversidade cultural e espiritual, além de reafirmar a relevância histórica da igreja como marco da presença e organização da população negra na cidade.

Os primeiros negros já se faziam presentes na cidade de Curitiba desde a década de 1670, antes mesmo da chegada de outros imigrantes europeus. Em 24 de setembro de 1829, em Curitiba, sob a justificativa de controlar a ordem pública, os folguedos, a exemplo dos batuques e fandangos, foram proibidos por normas municipais, restringindo práticas culturais da população negra, como danças e celebrações ligadas às congadas.

A devoção dos negros a Nossa Senhora do Rosário e a São Benedito em Curitiba sempre foi marcante. De acordo com a pesquisadora Pamela Beltramin Fabris, a tradição desde 1877 envolvia a festividade com congadas, música e danças, onde somente escravos autorizados pelos seus senhores podiam participar. A atual Igreja de Nossa Senhora do Rosário de São Benedito, inaugurada em 1946, foi erguida no local onde anteriormente se encontrava a antiga Igreja dos Pretos, inaugurada em 1737.

História A Lavação das Escadarias da Igreja do Rosário dos Homens Pretos de São Benedito, tornou-se um evento tradicional e é realizada anualmente na Igreja do Rosário, no Largo da Ordem, no centro histórico de Curitiba, desde 2009, sempre no período da manhã. As primeiras edições reunia cerca de 300 pessoas e as últimas observou-se um aumento significativo no número de participantes.

thumb|200px|mulheres lavando as escadas da igreja, em Curitiba. A festa constitui uma manifestação religiosa e cultural de matriz afro-brasileira marcada por simbolismo, memória e ação comunitária. O evento combina elementos rituais, como a lavagem com flores e perfumes, a práticas artísticas e musicais, promovendo a valorização da ancestralidade afrocuritibana e a ressignificação desse espaço histórico, tradicionalmente associado à presença e organização da população negra na cidade. De acordo com a tradição, as mulheres mais velhas, representadas pelas anciãs, reconhecidas por sua idade e experiência como detentoras de saberes, são as primeiras a realizar a lavagem das escadarias.

De caráter histórico, a celebração rememora a antiga função da igreja, construída por e para pessoas negras ainda no período escravista, quando abrigava irmandades religiosas, como a de São Benedito, e manifestações culturais como as congadas. Nesse sentido, o evento atua como instrumento de recuperação de memórias historicamente marginalizadas, contrapondo-se a processos de apagamento associados a ideologias eugenistas e políticas excludentes.

A programação inclui um ato inter-religioso, que reúne lideranças de diferentes tradições, artistas e agentes culturais, enfatizando valores como paz, respeito e liberdade religiosa. Tal momento configura-se também como espaço de denúncia contra o racismo religioso e de afirmação pública das tradições de matriz africana. Ademais, a iniciativa dialoga com a implementação da Lei nº 10.639/2003, ao oferecer subsídios pedagógicos para o ensino da história e cultura afro-brasileira local, valorizando a cultura negra na formação regional, bem como, tornando obrigatório o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana nas escolas.

Após a lavagem ritual das escadarias da Igreja do Rosário dos Homens Pretos de São Benedito, tem início o cortejo com grupos de batuqueiros pelo centro histórico de Curitiba, partindo da Fonte da Memória, na Praça Garibaldi, em direção ao marco do antigo pelourinho, com passagem pelas gameleiras da Praça Tiradentes, reconhecidas por seu simbolismo sagrado.

Na sequência, no Memorial de Curitiba, realiza-se o festival Vozes do Sagrado, que reúne corais de diferentes tradições religiosas. O conjunto das atividades, que pode incluir manifestações culturais contemporâneas, como desfiles e campanhas antirracistas, evidencia o caráter plural da celebração, orientado pelo resgate da memória afro-brasileira, pela promoção do diálogo inter-religioso, especialmente com religiões de matriz africana, como a Umbanda e o Candomblé, e pela afirmação identitária e resistência cultural no contexto urbano curitibano.

Reconhecimento A Lavação, bem como a Festa do Rosário, passou a compor o calendário oficial de eventos do município de Curitiba, o que representa um reconhecimento institucional de sua importância cultural e social pelo poder público. A Câmara Municipal de Curitiba ressaltou também a atuação do Centro Cultural Humaitá (Centro de Estudos e Pesquisa da Arte e Cultura Afro-Brasileira), entidade responsável por impulsionar a valorização da manifestação e por mobilizar esforços contínuos para sua consolidação na cidade.

De acordo com turismóloga Larisse Oliveira, a Lavação das escadarias ressignifica o centro histórico de Curitiba ao transformá-lo em espaço de memória e afirmação da presença negra por meio de práticas rituais e culturais. O evento reforça o turismo que combina patrimônio, religiosidade e manifestações afro-brasileiras em Curitiba, bem como, intensificando o roteiro turístico Linha Preta, implantado para promover espaços simbólicos e valorização da presença negra na cidade.

A Fundação Cultural Palmares (FCP) estuda a formalização de um termo de cooperação que garanta a preservação e visibilidade das tradições afro-brasileiras em Curitiba e no Paraná, incluindo o evento, com o objetivo dar ênfase à contribuição de negras e negros à construção de Curitiba e região, bem como apoiar toda iniciativa que contribua para o destaque do negro e de sua cultura como parte na identidade nacional

Ver também Lavagem do Bonfim Congada da Lapa

Ligações externas A presença da população negra na paisagem urbana : roteiros histórico-turísticos de Curitiba. Oliveira, Andrea Vanessa Borges Festa do Bonfim torna-se patrimônio imaterial do Brasil. Festa do Bonfim, no site da Fundação Gregório de Mattos

Categoria:Eventos em Curitiba Categoria:Eventos do Paraná Categoria:Religião no Paraná Categoria:Festividades religiosas Categoria:Sincretismo religioso