A expulsão dos jesuítas do Maranhão em 1661, foi uma revolta colonial iniciada em São Luís que, em pouco tempo, se estendeu também à capitania do Pará. O movimento contou com a participação ativa dos moradores locais e com o apoio das Câmaras Municipais, tendo como principal alvo os missionários da Companhia de Jesus, criticados por concentrarem o controle sobre a mão de obra indígena. O conflito ocorreu em meio a disputas econômicas e sociais relacionadas ao uso do trabalho indígena e às formas de administração colonial portuguesa na região amazônica.CHAMBOULEYRON, Rafael. "Duplicados clamores": queixas e rebeliões na Amazônia colonial (século XVII). Projeto História: Revista do Programa de Estudos Pós-Graduados de História, São Paulo, v. 33, n. 1, p. 159-178, dez. 2006. Disponível em: https://revistas.pucsp.br/index.php/revph/article/view/2289. Acesso em: 13 maio 2026.

Precedentes miniaturadaimagem|Padre Antônio vieira pregando aos indígenas O Estado do Maranhão, instituído na década de 1620, reunia as capitanias do Maranhão e do Pará em uma estrutura administrativa própria, separada do Estado do Brasil e dotada de certa autonomia. A região, que correspondia em grande parte ao território da atual Amazônia brasileira, possuía características econômicas e sociais específicas, destacando-se pela intensa utilização da mão de obra indígena.BERREDO, Bernardo Pereira de. Annaes historicos do Estado do Maranhaõ, em que se dá notícia de seu descobrimento, e tudo o que mais nelle tem succedido desde o anno em que foy descuberto até o de 1718. Iquitos: Ceta; Abya-Yala; IIAP, 1989. p. 448-513.

Sua economia combinava atividades extrativistas — principalmente a coleta das chamadas drogas do sertão. Nesse cenário, a disputa pela obtenção e pelo controle do trabalho indígena, tanto de indígenas livres quanto escravizados, tornou-se uma das principais causas de conflito, ocupando posição central nas tensões que desencadearam os levantes coloniais na região.

A disputa pelo controle dos indígenas no Maranhão do século XVII evidencia um intenso conflito de interesses entre os colonos e os religiosos, dentro do contexto da administração colonial portuguesa. SOUSA, Jane Cléa da Cunha. Antônio Vieira versus Camaristas: conflitos e disputas pelo poder temporal dos indígenas (Maranhão, 1653-1661). 2025. 121 f. Dissertação (Mestrado em História) – Centro de Ciências Humanas, Universidade Federal do Maranhão, São Luís, 2025. Disponível em: https://tedebc.ufma.br/jspui/handle/tede/6656. Acesso em: 13 maio 2026.

Entre 1653 e 1661, esse confronto tornou-se ainda mais acentuado. A chegada de uma nova missão jesuítica liderada pelo padre Antônio Vieira ocorreu ao mesmo tempo em que foram adotadas medidas legais que modificaram as relações de poder na colônia. A legislação de 1653 determinava que religiosos acompanhassem os processos de descimentos — expedição organizada por colonos para o interior com o objetivo de fornecer mão de obra escravizada —, enquanto a Lei de 9 de abril de 1655 transferiu para a Companhia de Jesus a autoridade espiritual e também temporal sobre os indígenas.

Essas decisões geraram grande insatisfação entre os colonos, que dependiam fortemente do trabalho indígena para sustentar suas atividades econômicas. Além disso, a criação de uma junta encarregada de verificar a legalidade da posse de indígenas aumentou ainda mais as tensões, pois ameaçava a permanência de muitos cativos obtidos de maneira ilegal ou irregular.

Lei de 9 de abril de 1655 miniaturadaimagem|Sermão da Sexagésima, Padre António Vieira (in Sermoens, Lisboa, 1679) miniaturadaimagem|Capela Real (Paço da Ribeira), Lisboa Em 1655, o Padre Antônio Vieira retorna a Lisboa após enfrentar dificuldades no Maranhão. O jesuíta procura apoio político e jurídico junto à Corte portuguesa para garantir a continuidade das missões religiosas e da proteção dos indígenas. Vieira demonstra suas motivações através do Sermão da Sexagésima, pregado na Capela Real. Nesse sermão, ele compara a situação dos missionários à parábola bíblica do semeador, afirmando que os pregadores do Evangelho enfrentam inúmeros obstáculos ao tentar “semear” a fé cristã entre os povos indígenas. miniaturadaimagem|D. João IV de Portugal A partir de sua influência junto à monarquia portuguesa e da proximidade que possuía com o rei D. João IV, consegue aprovar uma legislação extremamente favorável aos jesuítas. A lei de 1655 concedia à Companhia de Jesus grande autoridade sobre os indígenas aldeados, fortalecendo o chamado “poder temporal” dos missionários sobre essas populações.

Após obter a aprovação da lei, Vieira retorna rapidamente ao Maranhão, chegando em 1655 já munido de amplos poderes. Ele imediatamente iniciou a reorganização das aldeias indígenas e das missões jesuíticas. Os jesuítas passaram a controlar aldeamentos em São Luís, Belém, Gurupi, Cametá, Amazonas e outras regiões, abrangendo centenas de léguas e milhares de indígenas.

Esse fortalecimento do poder jesuítico provocou grande insatisfação entre os colonos do Maranhão. Até então, muitos moradores dependiam diretamente da exploração do trabalho indígena para suas atividades econômicas, principalmente nas lavouras, no transporte fluvial e em serviços gerais. Com a nova legislação, os colonos perderam autonomia sobre os indígenas e deixaram de controlar o acesso à mão de obra, passando a enxergar Vieira como alguém que desejava construir no Maranhão uma influência política semelhante à que possuía na Corte portuguesa.

A aplicação da lei enfrentou enormes dificuldades práticas. A grande distância entre as regiões do Maranhão e do Pará, além da quantidade de indígenas envolvidos nos processos de resgate e escravização, dificultava a fiscalização. Para resolver a questão, foi organizada uma junta responsável por examinar a legalidade dos cativeiros indígenas. O objetivo era verificar se os indígenas haviam sido escravizados legitimamente segundo as normas da Coroa.

Entretanto, Vieira denuncia que os colonos frequentemente desrespeitavam as determinações da lei, que exigia a presença de autoridades específicas e religiosos responsáveis por fiscalizar os cativeiros, mas, na prática, muitos colonos organizavam expedições clandestinas ou manipulavam os processos para capturar indígenas livremente. Além disso, Vieira também acusa alguns membros de outras ordens religiosas de colaborarem diretamente com os interesses dos colonos.

Grande parte dos cativeiros realizados no Maranhão era ilegal. Em seus sermões, o padre Antônio Vieira critica duramente os colonos, acusando-os de tratarem os indígenas de maneira desumana e de ignorarem completamente os princípios cristãos.

Sendo assim, é possível admitir que a lei de 1655 alterou profundamente as relações de poder no Maranhão. Ao transferir para os jesuítas o controle temporal dos indígenas, a Coroa fortaleceu a Companhia de Jesus e enfraqueceu os colonos locais. Esse processo gerou uma intensa disputa política, econômica e religiosa, que mais tarde culminaria na revolta dos moradores contra Vieira e na expulsão dos jesuítas da do Maranhão em 1661.

Maranhão miniaturadaimagem|Catedral de São Luís do Maranhão Diante da aplicação das novas medidas legais, os moradores da região afirmavam que os inacianos monopolizavam os aldeamentos indígenas e impediam os portugueses de utilizar essa mão de obra, o que estaria levando a capitania à miséria. Além disso, afirmavam que não conseguiam mais manter suas propriedades, pagar impostos ou sustentar as próprias famílias. Muitos moradores alegavam não possuir sequer tecidos adequados para se vestir, usando panos simples de algodão tingidos. Também alegavam que mulheres viúvas e donzelas estavam abandonadas e desamparadas pela pobreza generalizada.

Ao mesmo tempo, os moradores acusavam os jesuítas de governarem os indígenas de forma autoritária e violenta. Em 1661, os procuradores da Câmara de São Luís elaboraram um requerimento extremamente crítico contra os religiosos. Nesse documento, afirmavam que os indígenas não queriam mais permanecer sob o domínio dos padres, pois eram obrigados a trabalhar sem remuneração e impedidos de manter relações comerciais com os portugueses. Segundo os colonos, os jesuítas proibiam que os indígenas circulassem livremente, servissem aos moradores mediante pagamento ou realizassem trocas econômicas com a população colonial, argumentando que, antes do controle jesuítico, os indígenas conseguiam adquirir roupas e bens por meio de relações comerciais com os colonos, e depois da implantação do poder temporal dos jesuítas, segundo eles, os aldeamentos passaram a funcionar quase como espaços fechados, submetidos exclusivamente à administração inaciana. Assim, os colonos interpretavam o crescimento do poder da Companhia de Jesus como uma ameaça direta à autoridade civil e econômica da elite local.

Mesmo assim, Antônio Vieira continuava denunciando os abusos dos colonos e acusando-os de escravizar ilegalmente indígenas livres. Em seus sermões e cartas, afirmava que os moradores do Maranhão eram guiados pela cobiça e pela ambição, tratando os indígenas de forma brutal e ignorando as determinações da Coroa portuguesa. miniaturadaimagem|D. Luísa de Gusmão Entretanto, o cenário político português começou a mudar profundamente, e isso enfraqueceu a posição de Vieira. Durante boa parte de sua atuação, ele contou com o apoio de D. João IV e de setores influentes da Corte portuguesa. Porém, com a morte do rei, a situação mudou drasticamente. A rainha regente D. Luísa de Gusmão assumiu o governo em meio a intensas disputas políticas envolvendo facções da nobreza portuguesa e conflitos em torno da sucessão dinástica. Assim, os adversários políticos do Padre Antônio Vieira aproveitaram a morte de D. João IV e o momento de instabilidade do reino para atacar a Companhia de Jesus e reduzir seu poder nas colônias portuguesas.

Ao mesmo tempo, os colonos maranhenses perceberam que aquele era o momento ideal para agir contra os jesuítas. Sem a proteção política que antes possuíam, Vieira e seus companheiros tornaram-se muito mais vulneráveis. As tensões acumuladas ao longo dos anos explodiram em 1661, quando os moradores passaram a organizar um movimento direto contra os religiosos, e em pouco tempo a situação evoluiu para uma ação violenta.

A revolta que resultou na expulsão dos jesuítas do Maranhão, em 1661, começou no dia de Espírito Santo, na cidade de São Luís. Na ocasião, moradores invadiram o colégio jesuíta de Nossa Senhora da Luz (atual Catedral de São Luís do Maranhão), retiraram os religiosos de suas celas e os mantiveram presos na casa de um habitante da cidade. Antes disso, havia ocorrido uma reunião entre os moradores e os vereadores na Câmara municipal. Durante o encontro, o reitor do colégio, o padre irlandês Ricardo Carew, foi pressionado a assinar um documento no qual os jesuítas abriam mão do poder temporal exercido sobre as aldeias indígenas livres. Diante da forte pressão popular e das autoridades locais, Carew aceitou o acordo, renunciando oficialmente aos direitos e à autoridade que a Companhia de Jesus mantinha sobre essas comunidades indígenas.

Os colonos decidiram expulsar os jesuítas do Maranhão e retirar deles o controle dos aldeamentos indígenas. Vieira foi então preso pelos revoltosos e, pós ser capturado, foi enviado para São Luís, onde permaneceu separado dos demais padres, em situação de isolamento e aguardando o envio para Lisboa. O afastamento dos outros religiosos demonstra o objetivo dos revoltosos de neutralizar sua liderança e impedir qualquer reorganização dos jesuítas.

Em aproximadamente dois meses, a revolta alcançou a capitania do Pará, fortalecida por iniciativas de articulação política promovidas por membros da Câmara do Maranhão.

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