miniaturadaimagem|Manual de confessores e penitentes (1556), publicado em Salamanca O Manual de Confessores e Penitentes, de Martín de Azpilcueta, foi uma obra de teología moral do século XVI, com um impacto editorial sem precedentes que representou uma virada na história do pensamento ocidental. O seu autor, também conhecido como o "Doutor Navarro", criou um livro que se converteu num dos primeiros e maiores "best-sellers" da produção teológico-moral da época. O Manual teve uma difusão enorme que o levou a ser um referente inevitável em toda a Europa da Contrarreforma e nos vastos territórios dos impérios ibérios. O seu enorme sucesso refletiu-se em sua utilidade, já que entre a sua primeira edição em Coimbra (em 1550) e 1626, publicaram-se nada menos que 81 edições - uma cifra que se eleva a 92 se se incluem os seus compendios (por exemplo o "Compendio del manual de confessores, y penitentes", publicado em 1586), um lucro que muito poucas obras da época puderam igualar. Devido a sua natureza pragmática e a sua capacidade para satisfazer as necessidades mais urgentes de seu tempo, especialmente a formação de confessores no processo de difusão da fé católica, a obra converteu-se num texto fundamental nos seminários tridentinos e na base da educação de ordens como a Companhia de Jesus, além de ser uma ferramenta indispensável em lugares tão remotos como o vice-reino do México ou o Japão das primeiras missões cristãs, de maneira que lha pode considerar o veículo principal para a produção e circulação global do conhecimento normativo na era da imprensa.
Estrutura O Manual de Confessores e Penitentes está organizado em 27 capítulos. A organização do Manual reflete uma lógica prática, indo dos fundamentos do sacramento aos casos mais complexos de consciência, especialmente nas áreas de economia e poder.
Fundamentos (caps. I‑X): Os primeiros capítulos tratam das três partes da penitência – contricão, confissão e satisfação – e das qualidades do confessor (poder, saber, bondade), e a obrigatoriedade do sigilo sacramental.
Os Dez Mandameentos (caps. XI‑XX): Azpilcueta percorre cada mandamento, com especial atenção ao homicídio, à luxúria e ao furto, sendo que neste último se introduz a obrigação de restituição, tema central para a moral econômica da época.
Mandamentos da Igreja, pecados capitais e sacramentos (caps. XXI‑XXIV): Incluem-se os preceitos eclesiásticos, as obras de misericórdia e os cinco sentidos.
O ápice prático (caps. XXV‑XXVII):
Cap. XXV: Aborda "perguntas particulares de alguns estados", começando pelos reis e senhores, e depois entrando em questões de compras, vendas, contratos e rendas – o que permitia aos confessores julgar a moralidade dos negócios mercantis e bem como a usura.
Cap. XXVI: Sobre a absolvicão e a penitência.
Cap. XXVII: Sobre censuras e irregularidades.
Resumindo, o Manual não foi um simples livro de receitas para confessores, pecadores e penitentes. Ele foi uma sofisticada ferramenta para governar as almas em todos os aspectos da vida, desde o ato mais íntimo da confissão até as complexas redes do comércio e o poder político.
Ligações externas Bragagnolo, Manuela, editor. The Production of Knowledge of Normativity in the Age of the Printing Press: Martín de Azpilcueta’s Manual de Confessores from a Global Perspective. Brill, 2024 . Azpilcueta, M. de. (1556). Manual de confessores e penitentes... (A. de Portonariis, Imp.). Impresso em Salamanca: em casa de Andrea de Portonariis .
Categoria:Livros sobre o cristianismo Categoria:Direito canônico