A cobrinha-de-duas-cabeças-da-serra (nome científico: Amphisbaena metallurga) é uma espécie de anfisbena da família dos anfisbenídeos (Amphisbaenidae). Coletivamente, todas as anfisbenas são reconhecidas no Brasil pelos nomes populares adicionais de ibijara, ibicara, ubijara, licranço, mãe-de-saúva e rei-das-formigas. Essa espécie é endêmica do Brasil e restrita a áreas serranas do Planalto Meridional da Serra do Espinhaço e do Quadrilátero Ferrífero, em Minas Gerais. Foi descrita em 2015 a partir de exemplares coletados em Conceição do Mato Dentro, durante estudos ambientais associados à implantação de um mineroduto. O epíteto específico metallurga deriva do grego metallourgós (), "mineiro", em referência aos hábitos fossoriais das anfisbenas, à descoberta da espécie em área impactada por mineração e aos naturais de Minas Gerais.
Trata-se de uma espécie pequena e delgada, de cabeça curta e arredondada, olhos reduzidos e corpo anelado, adaptado à vida subterrânea. Possui geralmente dois ou três poros pré-cloacais, embora alguns exemplares apresentem quatro, além de 190–205 anéis corporais conhecidos, 19–25 anéis caudais e plano de autotomia entre o sétimo e o nono anel da cauda. A identificação da espécie baseia-se em uma combinação de caracteres morfológicos, incluindo o número reduzido de segmentos dorsais e ventrais no meio do corpo, a presença frequente de fileira pós-malar, a coloração clara e a morfologia da cauda. Reavaliações de material histórico invalidaram registros anteriores atribuídos a A. prunicolor em Minas Gerais e ampliaram o conhecimento sobre a variação morfológica da espécie.
A espécie ocorre em ambientes florestais de média altitude associados à Mata Atlântica, na sub-bacia do rio Doce, especialmente em florestas estacionais semideciduais sobre cambissolos de regiões montanhosas ricas em minério de ferro. Sua extensão de ocorrência e área de ocupação foram estimadas em quilômetros quadrados, e a espécie é considerada de encontro raro na natureza. Inicialmente sugerida como dados insuficientes, foi posteriormente avaliada nacionalmente como em perigo (EN), em razão da distribuição restrita e do declínio contínuo da qualidade do habitat. A mineração constitui a principal ameaça conhecida, por promover supressão da vegetação, revolvimento do solo, fragmentação populacional e perda de formações florestais dentro de sua área de ocorrência.
Nome
Anfisbena deriva do latim amphisbaena, que por sua vez originou-se no grega amphísbaina (), de amphís, "de ambos os lados", e baínō, "andar". Na mitologia grega, designava uma serpente gigante capaz de andar para frente e para trás. Foi registrado, em referência ao animal, como asibenes no e amphisbena em 1599. No Brasil, as anfisbenas são referidas por uma série de nomes populares. O mais comum deles, cobra-de-duas-cabeças, teve seu primeiro registro em 1712. Outros nomes incluem ibijara (registrado como hebijára em 1576, ubojara em 1587, jbigyara em ca. 1594 e ebijara em 1605), ibicara (registrado como ibicára em 1858) e ubijara, que derivaram do tupi tupi ïmbï'yara (de ï'mbï, no sentido de "terra, chão", yara, no sentido de "senhor, senhora"); licranço, registrado pela primeira vez em 1647 e que, segundo José Pedro Machado, derivou de alicanço, que por sua vez derivou de alicrã, que derivou de lacrau, cuja origem é o árabe al-a'qrab (, lit. "escorpião, lacrau"); mãe-de-saúva; e rei-das-formigas. O epíteto específico metallurga deriva de uma transliteração do grego metallourgós (), termo que significa "mineiro". O nome foi empregado como adjetivo em concordância de gênero com o nome genérico e faz referência aos hábitos fossoriais característicos das anfisbenas, que utilizam a cabeça para escavar galerias subterrâneas, à maneira de um mineiro. O nome também alude ao fato de a espécie ter sido descoberta em uma área afetada pela implantação de um mineroduto, além de remeter aos naturais de Minas Gerais.
Taxonomia e sistemática
A cobrinha-de-duas-cabeças-da-serra é uma espécie de anfisbena da família dos anfisbenídeos, descrita em 2015 a partir de exemplares coletados em Conceição do Mato Dentro, no sul da Serra do Espinhaço, em Minas Gerais. Foi descrita por Flávia C. Resende, Cinara A. Clemente, Mauro Teixeira Júnior, Francisco Dal Vechio e Henrique C. Costa. Os espécimes foram obtidos entre 2009 e 2010 durante estudos de impacto ambiental associados à implantação de um mineroduto. O holótipo corresponde ao exemplar FUNED 2943, sendo acompanhado por vinte parátipos provenientes da mesma localidade. Posteriormente, o exame de novos exemplares depositados em coleções regionais brasileiras permitiu ampliar o conhecimento sobre a variação morfológica da espécie e revisar sua diagnose. Até então, a cobrinha-de-duas-cabeças-da-serra era conhecida apenas pelo material-tipo.
Além dos exemplares-tipo e dos espécimes posteriormente estudados, um exemplar histórico coletado por John Casper Branner em São Ciríaco, atual município de Alvorada de Minas, foi originalmente referido por Samuel Garman como A. darwinii e posteriormente identificado por Carl Gans como A. prunicolor. A reavaliação desse material demonstrou, contudo, que o exemplar corresponde à cobrinha-de-duas-cabeças-da-serra, invalidando o registro de A. prunicolor para São Ciríaco. O espécime apresentou coloração creme uniforme e caracteres compatíveis com a diagnose da espécie, incluindo 205 anéis corporais, três anéis laterais, 19 anéis caudais, plano de autotomia no oitavo anel da cauda, presença de sulco lateral, ausência de sulcos dorsal e ventral, 12 segmentos dorsais e 14 ventrais no meio do corpo, quatro poros pré-cloacais alinhados em sequência, três supralabiais, três infralabiais e ausência de fileira pós-malar. Esse exemplar ampliou a variação conhecida da espécie, elevando a amplitude do número de anéis corporais para 190–205 e a dos anéis caudais para 19–25.
Com base em características morfológicas, a cobrinha-de-duas-cabeças-da-serra apresenta maior semelhança com A. darwinii, A. heterozonata, A. prunicolor, A. silvestrii e A. trachura. Os autores da descrição original consideraram possível que essas semelhanças reflitam relações filogenéticas próximas, mas ressaltaram que muitos caracteres morfológicos das anfisbenas podem resultar de evolução convergente, tornando prematuras conclusões sobre o parentesco entre essas espécies. A revisão posterior demonstrou que algumas características anteriormente consideradas diagnósticas não eram exclusivas da espécie. Embora a cobrinha-de-duas-cabeças-da-serra apresente geralmente dois ou três poros pré-cloacais, indivíduos com quatro poros foram posteriormente registrados, correspondendo a cerca de 10,5% dos exemplares conhecidos. Em consequência, a identificação da espécie passou a basear-se em uma combinação mais ampla de caracteres, incluindo o número modal reduzido de segmentos dorsais e ventrais no meio do corpo, a presença frequente de fileira pós-malar, o padrão de coloração e a morfologia da cauda. Estudos posteriores ressaltaram que a cobrinha-de-duas-cabeças-da-serra integra um conjunto de espécies associadas às áreas elevadas da Serra do Espinhaço, reconhecidas como um importante centro de endemismo para anfisbenas. Embora análises moleculares tenham recuperado relações próximas entre A. bahiana, A. longinqua, A. mongoyo e A. uroxena, a posição filogenética da cobrinha-de-duas-cabeças-da-serra permanece indefinida em razão da ausência de amostras moleculares disponíveis.
Um novo estudo reavaliou ainda um exemplar histórico coletado por Johannes Theodor Reinhardt em Juiz de Fora, originalmente catalogado como a cobra-de-duas-cabeças-cinza (A. vermicularis) e posteriormente atribuído por Carl Gans a A. prunicolor. Embora o espécime compartilhe diversos caracteres com a cobrinha-de-duas-cabeças-da-serra, como quatro poros pré-cloacais alinhados, plano de autotomia no oitavo anel caudal e contagens semelhantes de segmentos dorsais e ventrais, ele apresenta 183 anéis corporais e 20 anéis caudais, valores inferiores aos então conhecidos para a cobrinha-de-duas-cabeças-da-serra. Em conjunto com sua procedência, situada cerca de 240 quilômetros ao sul das localidades conhecidas da espécie, esses dados levaram à interpretação de que o exemplar corresponde mais provavelmente a A. hogei, invalidando mais um registro histórico de A. prunicolor em Minas Gerais e reforçando a delimitação taxonômica atualmente aceita para a cobrinha-de-duas-cabeças-da-serra.
Descrição
A cobrinha-de-duas-cabeças-da-serra é uma espécie pequena e delgada, com proporção corporal entre 32,6 e 38,3. A cabeça é curta, arredondada e pouco distinta do pescoço, com o rostro projetado além da mandíbula inferior. Possui dois ou três poros pré-cloacais alinhados em sequência, embora cerca de 10,5% dos exemplares conhecidos apresentem quatro poros. A espécie possui 190–199 anéis corporais, dois ou três anéis laterais e 23–25 anéis caudais. O plano de autotomia situa-se entre o sétimo e o nono anéis da cauda. Os anéis medianos possuem 12–14 segmentos dorsais e 14–16 ventrais. A espécie apresenta três escamas supralabiais, três infralabiais e, na maioria dos exemplares, uma fileira pós-malar bem desenvolvida, presente em cerca de 93% dos indivíduos conhecidos. O holótipo, um macho, possui comprimento rostro-cloacal de 178 milímetros e cauda com 30 milímetros de comprimento. A cabeça mede sete milímetros, correspondendo a aproximadamente 3,9% do comprimento corporal. O exemplar apresenta 192 anéis corporais, três anéis laterais, 25 anéis caudais, seis escamas pré-cloacais e 14 pós-cloacais, além de dois poros pré-cloacais e plano de autotomia situado no nono anel caudal. A extremidade da cauda é arredondada, sem quilha terminal. Os olhos são extremamente reduzidos e visíveis apenas na porção anterior da escama ocular. Os sulcos dorsal e ventral estão ausentes, enquanto os sulcos laterais tornam-se evidentes a partir do 17.º anel corporal. A cabeça apresenta escama rostral triangular, um par de nasais, um par de pré-frontais, um par de frontais, dois parietais, três supralabiais, três infralabiais, escama mental trapezoidal, pós-mental alongada, oito escamas pós-geniais e sete escamas na fileira pós-malar. Foram observadas pequenas variações individuais, incluindo ausência de contato entre as escamas temporal e ocular, fusão da temporal ao primeiro anel corporal e presença de um pequeno par adicional de escamas entre as frontais e os pré-frontais, aparentemente resultante da divisão parcial das escamas frontais. Em vida, a cabeça apresenta coloração rosa-clara uniforme, enquanto o dorso é castanho com suturas intersegmentares rosadas e a região ventral uniformemente rosada. Em preservativo, a região dorsal torna-se castanho-clara, com o centro dos segmentos mais escuro e suturas intersegmentares creme; cabeça e ventre apresentam coloração creme uniforme.