Atractus spinalis é uma espécie de serpente da família dos dipsadídeos (Dipsadidae) e do gênero Atractus. Atractus spinalis é uma espécie de serpente da família dos dipsadídeos endêmica do Brasil, conhecida apenas da Serra do Cipó, na porção meridional da Serra do Espinhaço, em Minas Gerais. Descrita cientificamente em 2013, pertence ao gênero Atractus, um dos mais diversos entre as serpentes neotropicais. O nome específico faz referência simultaneamente à espinha dorsal e à Serra do Espinhaço, região onde a espécie foi descoberta durante expedições iniciadas em 2009. Na descrição original, foi incluída no grupo Atractus paraguayensis, juntamente com A. paraguayensis e A. potschi, espécies com as quais compartilha diversas características morfológicas.

Trata-se de uma serpente de pequeno porte, com até cerca de 30 centímetros de comprimento total, caracterizada pela coloração dorsal avermelhada com manchas ou faixas transversais negras e ventre branco-creme. Distingue-se de seus parentes mais próximos por uma combinação de características de coloração, escutelação, dentição e morfologia hemipeniana. Como outras espécies do gênero, possui hábitos criptozoicos e é ovípara. Todos os exemplares conhecidos foram encontrados em campos rupestres, geralmente sob rochas ou no interior de cupinzeiros, entre e metros de altitude.

A espécie apresenta distribuição extremamente restrita e parece ser endêmica da Serra do Cipó, onde ocorre em áreas associadas ao Cerrado e às cabeceiras das bacias dos rios Doce e São Francisco. A região abriga diversos répteis endêmicos e é reconhecida como um importante centro de biodiversidade dos campos rupestres brasileiros. Apesar de ocorrer em unidades de conservação, A. spinalis permanece conhecida por poucos registros e sua biologia é pouco estudada. Por essa razão, foi classificada como dados insuficientes (DD) tanto pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) quanto pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), que consideram insuficientes as informações disponíveis para uma avaliação precisa de seu risco de extinção.

Taxonomia e sistemática

Atractus spinalis é uma espécie de serpente da família dos dipsadídeos, pertencente ao gênero Atractus; algumas bases taxonômicas, como o Sistema Global de Informação sobre Biodiversidade (GBIF), preferem uma abordagem mais conservadora e alocam o gênero da família dos colubrídeos, com os dipsadídeos caracterizando-se como subfamília (dipsadíneos). Foi descrita por Passos et al. em 2013, com base em exemplares coletados na Serra do Cipó, porção meridional da Serra do Espinhaço, no estado de Minas Gerais, sudeste do Brasil. A espécie é morfologicamente semelhante a Atractus paraguayensis e Atractus potschi, distinguindo-se principalmente pelo padrão de coloração, especialmente pelo número e formato das faixas transversais do corpo, pela ausência de ornamentação na face medial dos lobos do hemipênis, além de diferenças merísticas, como o número de escamas ventrais e dentes maxilares, e morfométricas, incluindo o comprimento rostro-cloacal dos adultos. O holótipo é um macho adulto depositado no Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (MZUSP 20760), coletado em 26 de março de 2011 no Alto do Palácio, no Parque Nacional da Serra do Cipó, município de Morro do Pilar, a metros de altitude. A série-tipo inclui ainda cinco parátipos, todos provenientes do Parque Nacional da Serra do Cipó: quatro exemplares da localidade de Currais, em Jaboticatubas, a metros de altitude, e um macho adulto coletado à margem de estrada no limite entre Morro do Pilar e Santana do Riacho, a metros de altitude. Em 2025, os parátipos depositados na coleção herpetológica do Museu Nacional permaneciam preservados e catalogados, estando associados a amostras de DNA, preparações hemipenianas e conjuntos de tomografias computadorizadas tridimensionais (micro-CT scans), recursos potencialmente úteis para estudos morfológicos e sistemáticos futuros.

O nome genérico Atractus deriva do grego antigo átraktos (), "fuso", em referência ao corpo cilíndrico e de largura relativamente uniforme característico das espécies do gênero. O epíteto específico spinalis deriva do latim spina, em referência à espinha dorsal. O nome alude à Serra do Espinhaço, cadeia montanhosa onde a série-tipo foi coletada e à qual a espécie parece ser endêmica. Na descrição original, A. spinalis foi incluída em um novo grupo de espécies, o grupo Atractus paraguayensis, juntamente com A. paraguayensis e A. potschi. Essas espécies compartilham 15 fileiras de escamas dorsais, região occipital branca em juvenis, coloração dorsal avermelhada com manchas, máculas ou faixas transversais negras em alguns indivíduos, sete escamas supralabiais e infralabiais, ventre e subcaudais branco-creme e hemipênis com bilobação muito reduzida. Embora apresente semelhanças com membros do grupo Atractus pantostictus, o grupo A. paraguayensis distingue-se pela ausência de espinhos alares capitulares e pela presença de uma invaginação rasa na região distal do capítulo hemipeniano.

A descrição de Atractus spinalis insere-se em um contexto de revisão taxonômica do gênero Atractus, considerado o gênero de serpentes com maior riqueza específica e um dos colubroides morfologicamente mais diversos. O gênero possui ampla distribuição neotropical, do Panamá à Argentina, e inclui espécies criptozoicas com grande variação de tamanho corporal, coloração, escutelação e morfologia hemipeniana. Revisões anteriores das populações de Atractus da Mata Atlântica reconheceram 13 espécies válidas e propuseram grupos de espécies com base principalmente em caracteres hemipenianos. A descoberta de A. spinalis ocorreu durante expedições iniciadas em 2009 com o objetivo de redescobrir uma espécie de lagarto que não era registrada na Serra do Cipó havia mais de trinta anos. A presença da nova espécie na região reforça a importância biogeográfica da porção meridional da Serra do Espinhaço, área conhecida por abrigar diversos anfíbios e répteis endêmicos. Embora a região tenha sido inventariada desde as primeiras explorações naturalistas em seus campos de altitude, a descoberta da espécie indica que sua diversidade ainda não é completamente conhecida e que a Serra do Cipó pode abrigar número maior de táxons endêmicos do que se reconhecia anteriormente.

Diagnóstico

Atractus spinalis distingue-se dos demais congêneres pela seguinte combinação de caracteres: 15-15-15 fileiras de escamas dorsais lisas; duas pós-oculares; escama loreal moderada; temporais 1+2; sete supralabiais, com a terceira e a quarta em contato com a órbita; sete infralabiais, com as quatro primeiras em contato com os escudos geniais; geralmente nove dentes maxilares; usualmente três fileiras de escamas gulares; três ou quatro preventrais; 149 ventrais na única fêmea conhecida e 136–142 nos machos; 24 subcaudais na fêmea e 27–33 nos machos; dorso vermelho, com a primeira fileira de escamas dorsais avermelhada na porção superior e mais clara em direção ao ventre, podendo formar linhas dorsolaterais conspícuas; ventre branco-creme; pequeno porte, com fêmea de 199 milímetros de comprimento rostro-cloacal e machos com até 268 milímetros; cauda moderada na fêmea, correspondendo a 11,6% do comprimento rostro-cloacal, e moderada a longa nos machos, com 13,6–16,6%; e hemipênis ligeiramente bilobado, semicapitado e semicaliculado.

Entre os congêneres, a espécie mais se aproxima de exemplares faixados de A. paraguayensis e A. potschi. Difere de A. paraguayensis por possuir faixas transversais conspícuas ao longo do corpo, tão longas quanto ou mais longas que os espaços entre elas, hemipênis retraído alcançando a altura da sétima subcaudal, hemipênis evertido sem ornamentação calcária na face mediana dos lobos e menor tamanho corporal médio nos machos. Em A. paraguayensis, as manchas ou faixas e os espaços entre elas são semelhantes anteriormente, mas as marcas tornam-se gradualmente mais curtas posteriormente; o hemipênis retraído alcança a décima subcaudal, há cálices espinulados conspícuos na face medial dos lobos e o tamanho corporal médio dos machos é maior. Difere de A. potschi por apresentar oito a nove dentes maxilares e 136–142 ventrais nos machos, contra sete dentes maxilares e 153–165 ventrais nos machos dessa espécie. A espécie geograficamente mais próxima é A. zebrinus, registrada na Serra do Caraça, cerca de 70 quilômetros ao sul do registro meridional de A. spinalis, mas esta se distingue facilmente por possuir 17 fileiras de escamas dorsais, em vez de 15.

Morfologia

Atractus spinalis é uma serpente de pequeno porte. O holótipo, um macho adulto, possui 236 milímetros de comprimento rostro-cloacal e 38 milímetros de cauda, esta correspondendo a 16,1% do comprimento rostro-cloacal. A cabeça é arredondada em vista dorsal e ligeiramente achatada em vista lateral, com constrição cervical pouco distinta. O focinho é arredondado em vista dorsal e truncado lateralmente. O corpo é subcilíndrico, com ventre achatado, e a cauda é moderadamente longa, terminando em espinho terminal moderadamente longo e acuminado. A escama rostral é subtriangular em vista frontal e visível dorsalmente; as nasais são divididas; a loreal é alongada e contata os olhos, pré-frontais, nasais e segunda e terceira supralabiais; há duas pós-oculares e temporais 1+2. As escamas dorsais são lisas, sem fossetas apicais e sem tubérculos supra-anais. O holótipo apresenta três fileiras gulares, três preventrais, 142 ventrais, placa anal inteira e 31 pares de subcaudais. A maxila é arqueada para cima anteriormente em vista lateral, com a porção ventral curvada na região anterior e quase achatada da região mediana à posterior. O arco maxilar possui nove dentes, angulares em seção transversal, robustos na base, mais estreitos no ápice e curvados posteriormente. Os cinco primeiros dentes são grandes, moderadamente espaçados e de tamanho semelhante, enquanto do sexto ao nono os dentes diminuem gradualmente em tamanho e espaçamento. O diastema maxilar é ausente ou pouco distinto dos espaços entre o sexto e o sétimo dentes, e os dois últimos dentes, topograficamente homólogos aos pós-diastemais, são menores e menos espaçados que os anteriores. O processo lateral da maxila é moderadamente desenvolvido.

A variação merística e morfométrica conhecida baseia-se em uma pequena série de exemplares. O maior macho examinado possui 268 milímetros de comprimento rostro-cloacal e 40 milímetros de cauda, enquanto a única fêmea conhecida mede 199 milímetros de comprimento rostro-cloacal e 23 milímetros de cauda. Nos machos, a cauda corresponde a 13,6–16,6% do comprimento rostro-cloacal, ao passo que na fêmea representa 11,6%. Os machos apresentam 136–142 ventrais e 26–33 subcaudais, enquanto a fêmea possui 149 ventrais e 24 subcaudais. Foram observadas três a quatro preventrais, três a quatro séries gulares, seis a oito fileiras dorsais ao redor da cauda na altura da segunda subcaudal e oito a nove dentes maxilares. O hemipênis retraído bifurca-se e estende-se até a altura da sétima subcaudal. Os autores não confirmaram a existência de dimorfismo sexual invertido em Atractus spinalis, embora a única fêmea adulta conhecida apresente menor comprimento rostro-cloacal que os machos adultos. Como essa fêmea é o menor exemplar adulto da série e apresenta o maior número de escamas ventrais, não foi possível determinar se representa uma condição individual atípica ou um padrão da espécie. Caso o dimorfismo sexual invertido venha a ser confirmado por amostras maiores, A. spinalis constituirá o único congênere conhecido em que os machos são maiores que as fêmeas.

Coloração