O Palácio da Mitra é um palácio situado na Rua do Açúcar, em Marvila, Lisboa. Este edifício singular, representativo da arquitectura barroca, assumiu inicialmente funções de residência patriarcal, tendo posteriormente acolhido uma fábrica, um asilo psiquiátrico, uma biblioteca e o Museu da Cidade. O seu programa azulejar, que se estende do interior ao jardim, é dos mais ricos da capital.

História Origens A origem da propriedade onde se insere o palácio remonta a 8 de Dezembro de 1149, data em que D. Afonso Henriques doou à diocese lisboeta as terras de Marvila, local onde anteriormente subsistiam mesquitas de origem mourisca. No ano subsequente, o bispo D. Gilberto fragmentou este território em 31 porções, concedendo-as ao Cabido. Com o passar do tempo, o domínio sofreu mais divisões, dando origem a várias propriedades rurais durante o século XV.

Em 1495, procedeu-se ao aforamento da quinta a D. Catarina de Albuquerque pelo valor de 3$000, transitando este direito, após a sua morte, para a sobrinha D. Helena da Costa, com a prerrogativa de isenção de encargos enquanto o seu tio, D. Martinho da Costa, exercesse as funções de arcebispo. Passados vários anos, a propriedade encontrava-se em 1541 sob a ocupação de João da Costa, morgado de Pancas e de Atalaia, sendo depois aforada perpetuamente ao Morgado do Esporão no ano de 1566. Nos derradeiros anos do século XVI, o contrato de arrendamento foi transferido para as filhas do anterior detentor, D. Jerónima e Helena de Noronha, mediante a quantia de 4$000. Esta última senhora, ao contrair terceiras núpcias com D. Manuel de Vasconcelos, promoveu o desaforamento de determinadas parcelas e a anexação de outras, logrando aumentar o perímetro da herdade. A 26 de Novembro de 1619, D. Helena de Noronha redigiu o seu testamento, legando a propriedade ao enteado, Francisco de Vasconcelos.

De residência de veraneio a sede patriarcal A nomenclatura de Quinta do Arcebispo consolida-se nos registos a partir de 1624, coincidindo com a época em que o arcebispado readquiriu o domínio útil de uma tira rectangular de terreno entre a via de Marvila e a margem ribeirinha, criando uma habitação campestre. Entre 1675 e 1702, período durante o qual o espaço permanecia arrendado, o arcebispo D. Luís de Sousa mandou erguer e remodelar uma casa de características solarengas. A transformação do edifício num opulento palácio e sede patriarcal deu-se no segundo quartel do século XVIII, sob o mecenato do primeiro Cardeal Patriarca de Lisboa, D. Tomás de Almeida. Esta campanha data de algures entre 1716 e 1727-1732, havendo provavelmente paralelismo com as intervenções realizadas no Palácio de Santo Antão do Tojal. A direcção da empreitada é frequentemente atribuída a Giacomo Antonio Canevari, arquitecto italiano ao serviço do rei D. João V, havendo ainda provavelmente envolvimento do arquitecto húngaro Carlos Mardel e do arquitecto da Mitra, o capitão Rodrigo Franco.

O empreendimento contemplou a pavimentação de acessos, o revestimento dos interiores com azulejaria da autoria de Nicolau de Freitas e Bartolomeu Antunes, a aplicação de pinturas decorativas e talha, a construção de amplas cozinhas e a edificação de uma sumptuosa capela consagrada a Nossa Senhora da Conceição. Adicionalmente, concebeu-se um cais privativo no rio Tejo, delimitado por dois obeliscos ornamentados com as armas do prelado e com baixos-relevos alusivos às Alminhas. Estas obras foram relatadas por Fernando António da Costa de Barbosa, no seu tratado Elogio Historico, Vida e Morte do Eminentissimo e Reverendissimo Senhor Cardeal D. Thomás de Almeida de 1754:[...] foram muitas as obras que [D. Tomás de Almeida] levantou de novo e reedificou, socorrendo outros muitos com grossas e copiosíssimas esmolas, tudo monumentos da sua grande piedade e generoso coração. Em S. António do Tojal, antiga casa de campo e palácio dos arcebispos de Lisboa, existindo nele pouco mais que as ruínas, o acrescentou e reformou de maneira que hoje é uma das melhores casas de campo do distrito desta corte... A mesma grandeza, liberalidade e profusão fez na antiga quinta também da Mitra, chamada de Marvila, fazendo-lhe a majestosa calçada da estrada, pondo-lhe dois obeliscos defronte da porta com as suas armas. Fez uma capela, majestosamente ornada, de Nossa Senhora da Conceição, sua grande advogada e protectora, e nela mandava quotidianamente celebrar o santo sacrifício da missa, para que aqueles vizinhos se aproveitassem de tão grande bem espiritual; renovou as casas do palácio, enriqueceu-as de admiráveis pinturas, nobres tapeçarias e primoroso ornato, assim mais a grande copa das cozinhas, que é tudo uma coisa muito importante o que há nestas duas casas de campo, ambas da mesma Mitra.Os sumptuosos salões e os jardins arborizados pontuados por lagos constituíam um cenário idílico que levou o olisipógrafo Júlio de Castilho a descrever assim o complexo:pela sua situação à beira do Tejo, pela sua parte rústica opulentamente arborizada e pelo esplendor do edifício em si mesmo [este é] uma verdadeira pérola dos arredores da CapitalAs obras encontravam-se finalizadas a 23 de Junho de 1744, ocasião em que o Cardeal Patriarca ofereceu um copioso banquete de despedida ao Núncio Apostólico, o cardeal Giacomo Oddi. Onze anos volvidos, em Junho de 1755, o rei D. José I requisitou o palácio por três dias para alojar o novo embaixador de França, o Marquês de Baschi e de Pignan, engalanando os aposentos com opulentas tapeçarias e alfaias do tesouro real, nas quais se incluíam 12 dúzias de pratos de prata lavrada, fausto registado no folheto Relaçam da magnífica, e pomposa entrada que fez nesta Corte de Lisboa no dia 11 de Junho de 1755 o Excelentissimo senhor Marquês de Baschi, Embaixador de el-Rei Cristianissimo. O sismo de 1755 não causou danos de maior na estrutura, pelo que o edifício acolheu dois dias depois, as religiosas do arruinado Mosteiro de Santa Mónica, segundo João Baptista de Castro:Este sucesso [resistência ao terramoto] tão espantoso motivou a toda a comunidade [...] a irem refugiar-se para a cerca [...] ali passaram até ao Domingo pela manhã, cheias de sustos e aflições; daqui se mudaram para a quinta contígua, chamada do Abelha [...] Passaram neste sítio todo aquele dia e noite calamitosamente, sem abrigo algum, até que a mesma necessidade de lhes fez lembrar o refúgio da quinta da Mitra, que o Eminentissimo Patriarca possui em Marvila. Com esta determinação se puseram ao caminho processionalmente, e nele gastaram desde as oito horas da manhã do dia terceiro de Novembro até às cinco horas da tarde do mesmo dia, em que chegaram muito quebrantadas de forças mas não de ânimo. Acomodaram-se em algumas casas do palácio, que lhes mandou franquear Sua Eminência, onde existiram exercitando recta e exemplarmente as suas obrigações religiosas, enquanto se não restituíram para o seu antigo domicílio.Na recta final do século XVIII, entre 1776 e 1786, o Cardeal Patriarca D. Fernando de Sousa e Silva patrocinou a execução de um painel de azulejos armoriado, destinado a revestir o espaldar de um banco situado no jardim superior da propriedade.

Cessação das funções religiosas Fruto das transformações políticas de 1834, o paço e a sua cerca agrícola foram absorvidos pela Fazenda Pública, preservando, contudo, a sua função de retiro patriarcal. Foi nos aposentos deste edifício que D. Frei Francisco de São Luís, sobejamente conhecido como Cardeal Saraiva, faleceu a 7 de Maio de 1845, sendo embalsamado.

O abandono definitivo das instalações por parte dos prelados ocorreu em 1864, altura em que transferiram o recheio artístico, no qual figuravam 13 retratos de arcebispos. O Cardeal D. Manuel Bento Rodrigues procedeu à venda da propriedade ao banqueiro e pioneiro dos caminhos-de-ferro D. José Saldanha, o Marquês de Salamanca, pelo montante de 10.000$000, canalizando os fundos para a aquisição do Palácio dos Condes de Barbacena, no Campo de Santa Clara. Uma década depois, em 1874, o Marquês alienou o imóvel por 54.000$00 a Horatio Justus Perry, diplomata norte-americano em Madrid, e à sua consorte, a escritora espanhola Carolina Coronado, residentes no Hotel Bragança (na Rua do Alecrim, Chiado) desde o ano anterior.

Durante a segunda metade do século XIX, modificou-se o interior do paço, com a instalação de lareiras de mármore nas salas de aparato e a transformação de um oratório elíptico numa divisão regular, perdendo-se muita azulejaria. Após a morte de Perry em 1891, na Quinta do Bessone ou do Relógio em Paço de Arcos, a poetisa fixou-se em permanência na Mitra, retendo o corpo embalsamado do marido no interior da capela até ao seu próprio falecimento em 1911.

A ambiência desta época encontra-se imortalizada nas fotografias captadas por José Artur Leitão Bárcia em 1908, disponíveis no Arquivo Fotográfico municipal, que documentam os luxuosos salões, a capela, um oratório portátil barroco de talha dourada e o lago do jardim onde habitava uma pata de estimação da proprietária. O autor Júlio de Castilho prestaria ainda homenagem a estas figuras, dedicando um capítulo de Lisboa Antiga ao diplomata norte-americano.

A Fábrica Seixas Em 1902, o complexo, já onerado por hipotecas, foi transaccionado a favor do deputado e capitalista António Centeno, salvaguardando-se contratualmente o direito de residência vitalícia de Carolina Coronado. A titularidade passou subsequentemente para uma parceria formada por Francisco de Moura e Sá e Manuel Fuertes Peres. Com a dissolução desta sociedade entre 1909 e 1913, Fuertes Peres associou-se a Ernesto Henriques Seixas para instituir a Fuertes & Comandita, entidade detentora da Fábrica Seixas, dedicada à metalurgia e tanoaria.

A adaptação às novas funções exigiu a destruição das vetustas cocheiras para dar lugar a pavilhões fabris que se estendiam a partir do pátio exterior, sendo os gabinetes administrativos acomodados nos salões oitocentistas. No mesmo período, as dependências do imóvel albergaram transitoriamente uma fábrica de licores cujos escritórios se situavam na Rua do Arco do Bandeira. A Fábrica Seixas viria a suspender a sua actividade fabril em Marvila no ano de 1925.

O Asilo da Mitra O município lisboeta adquiriu o complexo predial à dita sociedade a 15 de Abril de 1930, mediante o pagamento de 4.000 contos e visando a implantação de um matadouro, projecto que viria a ser abandonado em favor de parcelas nos Olivais e nas quintas de São Bento, da Letrada e do Salto, em Beirolas. A autarquia optou por instalar a Estação de Limpeza Oriental nos terrenos de lavoura e converter os barracões industriais da antiga fábrica no Asilo da Mitra, cuja inauguração ocorreu a 4 de Maio de 1933 sob o impulso do coronel Lopes Mateus.

Este albergue de mendicidade, tutelado pela polícia, concentrava cerca de 1300 desvalidos, acabando por degenerar num depósito crónico para as pessoas mais frágeis. Na década de 1950, a instituição focou-se no acolhimento de pacientes do foro psiquiátrico com patologias prolongadas, transferindo para os hospitais Júlio de Matos e Miguel Bombarda estritamente os enfermos aptos a receber novas terapias farmacológicas. O albergue distrital foi oficialmente extinto a 31 de Maio de 1977, sendo reestruturado no ano seguinte como Centro de Apoio Social de Lisboa, englobando valências de terceira idade e triagem.

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