A Colonizadora Gaúcha Ltda. foi uma empresa brasileira de colonização fundada em 21 de fevereiro de 1949, na região oeste do estado do Paraná. Surgida no âmbito da Colonizadora Pinho e Terras Ltda., foi responsável pela formação do que viria a se tornar o município de São Miguel do Iguaçu, sendo a única colonizadora mencionada em obras de referência como a de Pagot e Pomorski (2000) como responsável pela colonização da área onde se localiza a sede administrativa do município.ORTIZ, Amanda Paula Nunes. A aplicação da Lei da REURB em São Miguel do Iguaçu/PR: a concretização do direito à moradia em área de fronteira. Dissertação (Mestrado em Sociedade, Cultura e Fronteiras) – Universidade Estadual do Oeste do Paraná, Foz do Iguaçu, 2025.

Seus colonizadores eram em sua maioria oriundos do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina — origem do nome "Gaúcha" adotado pela empresa e pela vila que originou. Em janeiro de 1954, com apenas três anos de colonização efetiva, a Cidade Gaúcha já era descrita pela imprensa como uma grande atração do oeste paranaense, destacando-se pela fertilidade do solo, pela estrutura comercial emergente e pelo crescimento acelerado de sua população.Correio Rio-Grandense, Caxias do Sul, 20 jan. 1954, n. 3 — "Cidade Gaúcha — Uma Grande Atração".

História

Contexto regional

A região de Foz do Iguaçu foi descoberta em 1542 pela expedição de Álvar Núñez Cabeza de Vaca, que se deparou com as Cataratas do Iguaçu. A colonização organizada deu-se em duas etapas: a primeira em 1888, com a instalação da Colônia Militar do Iguaçu; a segunda a partir de 14 de março de 1914, com a criação do município do Iguassu, quando chegaram os primeiros imigrantes europeus — principalmente alemães e italianos — dedicados à produção de erva-mate e ao corte de madeira.Prefeitura de São Miguel do Iguaçu. História do Município. Disponível em: https://saomiguel.pr.gov.br/o-municipio/historia/. Acesso em: maio de 2026.

Na década de 1940, quando as terras pertenciam ao município de Foz do Iguaçu, uma empresa inglesa comandava a exploração madeireira com mão de obra argentina e paraguaia. A espécie mais valiosa era o cedro, transportado em balsas pelo Rio Paraná até Buenos Aires.

Antecedente: Colonizadora Pinho e Terras Ltda.

Em 1948, Alfredo Paschoal Ruaro — com experiência de colonização em Maripá, Céu Azul e Toledo — instalou na região a Colonizadora Pinho e Terras Ltda., abrangendo grandes áreas dos atuais municípios entre Cascavel e Foz do Iguaçu. Dessa estrutura maior surgiu o núcleo denominado Colonizadora Gaúcha Ltda.

Fundação

A Colonizadora Gaúcha Ltda. foi fundada oficialmente em 21 de fevereiro de 1949, dando início ao processo de medição e demarcação das colônias que formavam o então território da Fazenda São Miguel, posteriormente denominada Vila Gaúcha.

Fundadores e dirigentes

Os primeiros sócios da Colonizadora Gaúcha Ltda. foram:

Nome Papel Período Alfredo Paschoal Ruaro Idealizador / Sócio fundador 1948–1949 Alberto Dalcanale Sócio fundador 1949 Luiz Dalcanale Sócio fundador 1949 Luiz Dalcanale Filho Diretor 1949–c.1952 Arlindo Mosé Cavalca Sócio fundador / Diretor 1949; 1956 Benvenuto Verona Sócio fundador / Diretor 1949–1953 Frederico Zilio Diretor (substituiu Dalcanale Filho) c.1952–1953 Henrique Ghellere Diretor / 1.º vereador da vila (1955) 1953–c.1955 Afonso Marin Diretor 1953–c.1955 Nadir Maggi Contador (guarda-livros) 1954–1956

Em 1949, os primeiros diretores foram Benvenuto Verona e Luiz Dalcanale Filho. Após a saída de Dalcanale Filho, assumiu Frederico Zilio. Em 1953, houve nova mudança de direção, passando o comando a Henrique Ghellere e Afonso Marin. Em outubro de 1956, a direção era exercida por Arlindo Mosé Cavalca, um dos sócios fundadores.Correio Rio-Grandense, Caxias do Sul, 24 out. 1956, Ano 47, n. 42 — "Impressões de Viagem pelo Oeste Paranaense", por Pe. Frei Sílvio, gerente do Correio Rio-Grandense.

Território e demarcação

A Colonizadora Gaúcha adquiriu uma área de 9.073 alqueires de João Emílio Matte. Anteriormente, essas terras pertenciam ao município de Foz do Iguaçu, estando também vinculadas ao Banco da Província do Rio Grande do Sul, à Companhia de Viação e Comércio, à Caixa Econômica Federal e à União Popular de Venâncio Ayres.

Os mapas projetados entre 1948 e 1954 compreendiam 907 colônias, medidas em alqueires pelos seguintes profissionais:

Profissional Função Observação Adolpho Strabel Engenheiro — Hercílio Felipe Engenheiro Faleceu em serviço — vítima de picada de cobra Anísio Paim da Rocha Engenheiro Concluiu o trabalho de divisão das colônias João Félix Rolin de Moura Topógrafo — José de Moura Torres Topógrafo — Marciano Batista Topógrafo — Leodato Fernandes Topógrafo — Euclides Felipe Topógrafo —

Processo de colonização

Em 1950 teve início efetivo a colonização com a chegada da família de Vitório De Toni, a primeira a se estabelecer com o objetivo de explorar e cultivar a terra. Os colonizadores provinham principalmente do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, atraídos pela disponibilidade de terras férteis e pela promessa de uma vida nova.

Os homens geralmente chegavam primeiro para avaliar as terras e retornavam para buscar as famílias. As mudanças eram transportadas em caminhões em viagens que, nas épocas de chuva, podiam durar mais de vinte dias. João Ghellere foi um dos primeiros transportadores, responsável por trazer mais de oitenta famílias do sul do país.

Em 1956, o Distrito da Gaúcha contava com 417 famílias e 3.234 habitantes, conforme dados fornecidos pelo contador Nadir Maggi, guarda-livros da Colonizadora Gaúcha Ltda.

Dificuldades enfrentadas

Os pioneiros enfrentaram ausência de estradas, escassez de alimentos e remédios, e o risco constante de picadas de cobras venenosas — cascavéis e urutus — sem disponibilidade de soro antiofídico. O engenheiro Hercílio Felipe faleceu durante os trabalhos de demarcação por conta de uma picada de cobra. Outro incômodo frequente era a presença de mosquitos conhecidos como "borrachudo" e "pólvora", que tornavam o trabalho agrícola extremamente difícil.

Outras colonizadoras do município

Embora a Colonizadora Gaúcha seja a mais citada nas memórias dos munícipes e na literatura de referência sobre São Miguel do Iguaçu, a colonização e formação urbana do município decorreu também da ação de outras empresas loteadoras, que atuaram tanto na área urbana quanto rural. Conforme levantamento acadêmico de 2025, as demais colonizadoras identificadas foram:

Colonizadora Observação Colonizadora Gaúcha Ltda. Responsável pela área da sede administrativa do município Colonizadora Cacic Loteamentos urbanos e rurais Colonizadora Gleba Guairacá Loteamentos urbanos e rurais Colonizadora Venâncio Aires Loteamentos urbanos e rurais Colonizadora Santa Maria Loteamentos (separada da Silva Jardim por um travessão) Colonizadora Silva Jardim Loteamentos (separada da Santa Maria por um travessão)

Atividades da firma

A firma dispunha de dois caminhonetes que transportavam continuamente colonos de todas as partes para a Gaúcha, além de atender às necessidades dos moradores em múltiplas frentes: abastecimento, transporte de enfermos ao médico e outros recursos. Em 1956, a imprensa registrava que a Gaúcha contava com boas indústrias, incluindo:

Serraria Moinho de Trigo Mecânica Usina Elétrica Farmácia Hotéis (2 unidades) Bar e Sorveteria Armazéns (3 unidades) Hospital (construído entre 1954 e 1956)

Economia e agricultura

A região concentrava algumas das terras mais produtivas do oeste paranaense. Os principais cultivos registrados em 1954 eram:

Produto Observação Café Cultura em expansão Algodão Cultura em expansão Milho Base alimentar Trigo Base alimentar (moído no próprio moinho da firma) Feijão Base alimentar Arroz Base alimentar Mandioca Subsistência Amendoim — Banana Abundante como qualquer outra cultura Cebolas e tubérculos diversos Resultados excepcionais registrados Frutas (uvas, pêssegos, laranjas, abacaxis, melancias, maçãs, marmelos) Plantadas desde 1952; ótimos resultados

A pecuária também se desenvolvia de forma crescente com o aumento do custo das terras.

Comunicações e transportes

Em 1954, a Gaúcha era cortada pela Estrada Federal ligando Foz do Iguaçu a Cascavel — no traçado da atual BR-277 —, com acesso a Ponta Grossa, Apucarana e Toledo. Linhas aéreas diárias ligavam Foz do Iguaçu a Curitiba, com escalas em Cascavel, Ponta Grossa e União da Vitória, além de ligações com Erechim e Assunção. A Gaúcha era atendida também por múltiplas linhas de ônibus com destino à capital paranaense, ao Paraguai e a Toledo.

Marcos históricos

Ano Marco 1949 Fundação da Colonizadora Gaúcha Ltda. (21/02); início das medições da Fazenda São Miguel 1950 Chegada da primeira família colonizadora: Vitório De Toni 1951 Abertura de estrada precária ligando Cascavel a Foz do Iguaçu pela Vila Gaúcha 1952 Plantio das primeiras árvores frutíferas nov. 1953 Instalação da Agência dos Correios e Telégrafos (14/11); primeira casa comercial (família Rotava); mudança de diretoria para Ghellere e Marin 6 jan. 1954 Instalação como 4.º Distrito de Foz do Iguaçu; cerimônia com ~100 autoridades 1955 Escola com duas salas; 1.º vereador (Henrique Ghellere); 1.º cartório (Aidicir Ghellere) 1956 Inauguração do hospital; 1.º médico: Dr. Robert Anton Babnigg; Arlindo Mosé Cavalca na direção; 417 famílias e 3.234 habitantes 1958 Elevação a distrito administrativo e judiciário (Lei n.º 3.550, 06/02); criação da paróquia de São Miguel 3 nov. 1959 Decreto n.º 282: nomeação de Flávio Ghellere como subprefeito 25 jan. 1961 Emancipação: criação do município de São Miguel do Iguaçu (Lei Estadual n.º 4.338) 3 out. 1961 Primeiras eleições; eleito Abel Bez Batti como prefeito 28 nov. 1961 Posse dos eleitos; instalação oficial do município de São Miguel do Iguaçu

Emancipação política

Em 6 de fevereiro de 1958, a Vila Gaúcha foi elevada à categoria de distrito administrativo e judiciário de Foz do Iguaçu pela Lei n.º 3.550. Em 3 de novembro de 1959, o prefeito Jacob A. Becker nomeou Flávio Ghellere como subprefeito pelo Decreto n.º 282.

Em 25 de janeiro de 1961, o distrito foi emancipado pela Lei Estadual n.º 4.338, desmembrando-se de Foz do Iguaçu. Em 3 de outubro do mesmo ano foram realizadas as primeiras eleições, sendo eleito Abel Bez Batti como primeiro prefeito, e Francisco Kantorski, Hilário J. Colla, André A. Maggi, Arlindo Mosé Cavalca, Noé Nunes de Medeiros, Flávio Ghellere, João Maria da Rocha, Ângelo Malgarezzi e Hugo Mensch como vereadores. Em 28 de novembro de 1961, com a posse dos eleitos, o município foi instalado oficialmente com o nome de São Miguel do Iguaçu.

Ver também

São Miguel do Iguaçu Foz do Iguaçu Colonização do Paraná Imigração italiana no Brasil Imigração alemã no Brasil BR-277

Ligações externas

História de São Miguel do Iguaçu — Prefeitura Municipal ORTIZ, A. P. N. Dissertação de Mestrado — Unioeste, 2025

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