A Sé, também chamada historicamente São Salvador da Sé ou freguesia da Sé, foi a mais antiga freguesia urbana de Salvador, na Bahia, correspondendo ao núcleo primitivo da cidade fundada em 1549 por Tomé de Sousa. Situava-se na Cidade Alta, em torno da antiga Sé da Bahia, da Praça da Sé, da Praça Municipal, do Terreiro de Jesus e das áreas vizinhas da Misericórdia, Rua Chile, Pelourinho e São Francisco.

Criada em 1552, no início da organização eclesiástica da cidade, a freguesia da Sé tornou-se o centro religioso, administrativo, judicial, político e social de Salvador durante o período colonial e imperial. Por se localizar no coração da antiga capital do Estado do Brasil, a Sé concentrou algumas das principais instituições da cidade, como a catedral primacial, a Santa Casa de Misericórdia da Bahia, o antigo paço municipal, casas de governo, edifícios religiosos, sobrados nobres, lojas, oficinas e espaços de circulação de trabalhadores livres, libertos e escravos.

O nome da freguesia deriva da antiga catedral ou sé episcopal de Salvador, erguida a partir do século XVI e demolida em 1933. A memória do templo permaneceu na denominação da praça e da região, sendo actualmente evocada, entre outros elementos, pelo monumento da Cruz Caída, de Mário Cravo Júnior, instalado junto ao local da antiga igreja.

História Fundação e formação da freguesia esquerda|miniaturadaimagem|260x260px|No centro, intramuralhas, a área da freguesia da Sé, na Cidade Alta, em 1630 Salvador foi fundada em 1549 para servir de sede do Governo-geral do Brasil, numa posição defensiva sobre a escarpa da Baía de Todos-os-Santos. O centro inicial da cidade formou-se na Cidade Alta, onde se estabeleceram os edifícios de governo, a câmara, a cadeia, os primeiros templos e as casas dos principais moradores. A UNESCO descreve o Centro Histórico de Salvador como exemplo eminente de estruturação urbana renascentista adaptada ao sítio colonial, com a Cidade Alta funcionando como bairro defensivo, administrativo e residencial sobre uma escarpa de cerca de 85 metros.

A freguesia da Sé foi instituída em 1552 por D. Pedro Fernandes Sardinha, primeiro bispo do Brasil, recebendo o nome da catedral que ali se estabeleceu. A freguesia constituía o núcleo primitivo da antiga cidade do Salvador, começando nas portas de São Bento e estendendo-se até ao beco do Ferrão, onde se limitava com a freguesia do Passo. A leste e oeste, articulava-se com a orla da montanha e com as ladeiras que desciam para a Conceição da Praia.

Durante os séculos XVI e XVII, a freguesia concentrou o poder eclesiástico e civil da capital colonial. Nela se localizavam a antiga Sé, a Santa Casa de Misericórdia, a área do paço, os caminhos para o colégio dos jesuítas e os acessos entre a Cidade Alta e a Cidade Baixa. Com o crescimento de Salvador, novas freguesias foram sendo desmembradas ou organizadas em torno de outros templos, como Vitória, Conceição da Praia, Santo Antônio Além do Carmo, São Pedro Velho, Santana e Passo, mas a Sé continuou a ocupar posição central na vida urbana. Centro religioso, político e administrativo

A antiga Sé da Bahia foi uma das principais igrejas da América portuguesa. A primeira catedral provisória funcionou na capela de Nossa Senhora da Ajuda, até que se erguesse a sé definitiva. Ao longo do período colonial, a catedral foi espaço de solenidades religiosas e políticas, cerimónias públicas, festas litúrgicas, procissões, funerais de autoridades e ritos que reforçavam a posição de Salvador como sede episcopal e capital do Brasil colonial. esquerda|miniaturadaimagem|284x284px|Desenhos e planta da antiga Sé da Bahia, por Luís dos Santos Vilhena. A freguesia reunia ainda edifícios civis e religiosos de grande importância. Nas suas proximidades ficavam o antigo paço, a casa de câmara e cadeia, a Santa Casa de Misericórdia, o colégio e igreja dos jesuítas — actual Catedral-Basílica Primacial de São Salvador —, igrejas de irmandades, conventos, sobrados, lojas e ruas comerciais. A proximidade entre poder religioso, governo, justiça, comércio e residências de elite tornou a Sé uma das áreas mais densas e simbólicas da Salvador colonial.

O Terreiro de Jesus, contíguo à área da Sé, desenvolveu-se em torno do antigo colégio jesuíta e tornou-se um dos principais espaços públicos da Cidade Alta. A UNESCO inclui o Terreiro de Jesus, a Praça Municipal e o Largo de São Francisco entre os espaços públicos de origem quinhentista preservados no Centro Histórico de Salvador.

Sociedade urbana e população

No século XIX, a Sé continuou a ser uma freguesia de forte densidade social. A freguesia apresenta-se como um espaço urbano complexo, onde conviviam elites políticas e eclesiásticas, comerciantes, oficiais mecânicos, trabalhadores de ganho, libertos, escravos, pobres urbanos, mulheres chefes de domicílio, irmandades religiosas e população ligada aos serviços da cidade.

A Sé teve papel relevante na história da população africana e afrodescendente de Salvador, com estudos sobre baptismos, inventários, trabalho urbano e comércio de escravos indicando que foi um dos espaços centrais de circulação, moradia, baptismo, compra, venda e contratação de pessoas negras livres, libertas e escravas na cidade. Cecília Moreira Soares, ao estudar os baptismos de africanos na Sé no século XVIII, assinala a importância da freguesia para a construção de identidades africanas e católicas na Bahia. Valney Mascarenhas de Lima Filho, por sua vez, analisou escrituras de compra e venda, procurações, passaportes de escravos e outros documentos da segunda metade do século XIX, com ênfase na actuação de negociantes de escravos na freguesia da Sé.

A região também foi marcada por formas específicas de moradia e trabalho urbano. Ana de Lourdes Ribeiro da Costa estudou os chamados "cantos" e "lojas" de Salvador no século XIX, associados à presença de trabalhadores negros, carregadores, ganhadores e moradores pobres em áreas de grande circulação, incluindo pontos da freguesia da Sé e das ladeiras que articulavam a Cidade Alta e a Cidade Baixa.

Transformações urbanas e demolições thumb|260px|A antiga Sé da Bahia no início da década de 1930, pouco antes da sua demolição

Entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX, a freguesia da Sé foi profundamente afectada por projectos de modernização urbana. A área central de Salvador passou a ser alvo de reformas que procuravam alargar ruas, melhorar a circulação, instalar linhas de bonde, reorganizar praças e adaptar a cidade a novos padrões higienistas, viários e administrativos.

A mais simbólica dessas intervenções foi a demolição da antiga Sé da Bahia, concluída em 1933, após longa controvérsia. O templo, que já se encontrava descaracterizado e em mau estado, foi destruído juntamente com quarteirões antigos para permitir a abertura de espaço urbano e a passagem de linhas de bonde. A demolição tornou-se um dos episódios mais citados da história da perda patrimonial em Salvador.

Para efeitos administrativos civis, a antiga freguesia da Sé foi convertida em distrito pela Lei Municipal de 5 de agosto de 1892. O distrito de Sé continuou a figurar nas divisões administrativas de Salvador nas primeiras décadas do século XX, aparecendo nas divisões de 1911, 1933, 1936 e 1937. Pelo Decreto-Lei Estadual n.º 10.724, de 30 de março de 1938, os distritos de Salvador foram reduzidos à categoria de zonas, passando a Sé a figurar, no quadro territorial de 1939–1943, como uma das zonas do distrito-sede de Salvador.

Embora tenha continuado a existir como referência histórica, religiosa e urbana, a Sé deixou de corresponder a uma freguesia administrativa no século XX, no contexto da substituição das antigas freguesias e distritos por zonas, subdistritos e bairros. Pelo Decreto-Lei Estadual n.º 10.724, de 30 de março de 1938, os distritos de Salvador foram reduzidos à categoria de zonas, figurando a Sé como uma das zonas do distrito-sede. A posterior Lei Municipal n.º 1.038, de 15 de junho de 1960, redefiniu a organização urbana de Salvador por subdistritos e bairros, consagrando uma nova divisão territorial distinta das antigas freguesias históricas.

A criação da actual Praça da Sé resultou desse processo de demolições e remodelações. O vazio urbano aberto no local da antiga catedral alterou a paisagem histórica da freguesia, mas preservou, pelo nome e por monumentos posteriores, a memória da antiga igreja e da freguesia primitiva.

Patrimonialização e situação contemporânea

O antigo território da Sé integra actualmente o Centro Histórico de Salvador, inscrito em 1985 na lista do Património Mundial da UNESCO. O conjunto foi reconhecido pelos seus valores urbanísticos, arquitectónicos e históricos, pela preservação de traçados coloniais, pela concentração de igrejas, edifícios civis e espaços públicos dos séculos XVI a XIX, e pela sua relação com a convergência de culturas europeias, africanas e ameríndias.

Na descrição da UNESCO, os principais sectores do Centro Histórico incluem a Sé, o Pelourinho, a Misericórdia, São Bento, Taboão, Carmo e Santo Antônio, destacando a conservação de espaços públicos de origem quinhentista, como a Praça Municipal, o Terreiro de Jesus e o Largo de São Francisco, todos associados à antiga centralidade da freguesia da Sé.

Do ponto de vista administrativo contemporâneo, a Sé deve ser entendida sobretudo como uma área histórica e antiga freguesia, e não necessariamente como bairro autónomo nos limites actuais da legislação municipal. A legislação recente de Salvador reorganizou a cidade em bairros, absorvendo a antiga área central em categorias urbanas contemporâneas como Centro Histórico e zonas adjacentes.

Arruamentos e praças Em meados do século XIX, a freguesia da Sé era subdividida em 26 quarteirões. A sua malha urbana compreendia algumas das ruas, largos, becos, ladeiras e praças mais antigos de Salvador, articulando a área da antiga Sé, do Terreiro de Jesus, do Pelourinho, de São Francisco, da Misericórdia, do Palácio e das ligações entre a Cidade Alta e a Cidade Baixa.

Uma "Nova divisão dos quarteirões da subdelegacia do Curato da Sé", de 1851, transcrita por Anna Amélia Vieira Nascimento, permite reconstituir os principais arruamentos então associados à freguesia. A divisão incluía, entre outros, os seguintes espaços:

toda a rua Direita, desde as Portas do Carmo até ao Terreiro; o largo do Pelourinho, o Maciel de Baixo e o Maciel de Cima; o beco do Mota, a ladeira do Ferrão e a área de São Domingos; a ladeira e a rua de São Miguel, até aos limites com a freguesia de Santana; o beco do Açouguinho e o Cruzeiro de São Francisco; a rua da Laranjeira e a área do hospital da Ordem Terceira de São Francisco; a ladeira da Ordem Terceira de São Francisco, o convento e largo de São Francisco; a ladeira de São Francisco das Verônicas; a rua do Bispo e o Palácio do Arcebispo; o largo do Terreiro, a rua Direita do Colégio e a área do antigo colégio jesuíta; a rua da Oração, a rua do Tijolo e a ladeira do Saldanha; o beco do Seminário, a rua dos Ossos e o beco dos Campelos; a rua do Paço de José Pires e a rua do Saldanha; a rua Direita da Misericórdia, a antiga Sé, a rua de D. José e a ladeira do Saboeiro; a ladeira do Tijolo e o Caminho Novo; a ladeira da Praça, até Guadalupe; a rua do Saboeiro, a área do Saldanha e a roça dos Carvoeiros; o largo da Praça, com a Casa da Câmara, o Palácio, a Relação, a Casa da Moeda, a escadinha da Relação e a ladeira da Misericórdia; a rua Direita do Palácio, actual rua Chile; a rua de Nossa Senhora da Ajuda, a ladeira do Aljube e a área detrás da Sé; a rua do Pão de Ló e a rua do Ximenes; a ladeira do Galvão, Vassouras, Tira-Chapéu, Valongo, Escadinha do Vidal e a ladeira detrás do Palácio; a rua dos Carvoeiros, o beco do Chagas e a ladeira do Guadalupe; a rua dos Capitães, o beco de Santa Clara, o beco do Galeão e a área da botica do Aduce;