Almas e Angola (também referida como Almas de Angola ou Almas em Angola) é um ritual afro-brasileiro, centrado na devoção às Almas e aos Orixás. Com forte presença na região da Grande Florianópolis, no estado de Santa Catarina. A manifestação religiosa possui fronteiras fluidas com outras religiões de terreiro. É categorizada na literatura ora como um ritual, ora como uma denominação religiosa, ora uma nação afro-religiosa, ou ainda um segmento de Umbanda.
Do ponto de vista ritualístico, o Almas e Angola apresenta uma complexidade estrutural que mescla elementos da Umbanda e do Candomblé. A trajetória iniciática e a ascensão hierárquica dos praticantes iniciam-se com o ingresso como médium de anjo da guarda, progredindo pelos estágios de Borí, Mãe Pequena ou Pai Pequeno, até atingir o grau de Ialorixá (Mãe de Santo) ou Babalorixá (Pai de Santo). Uma vez alcançado esse título, os líderes passam por rituais de recolhimento específicos chamados de reforços, realizados aos 7, 14 e 21 anos de feitura — ocasião em que o sacerdote recebe a titulação de Tatalorixá. As práticas do segmento envolvem a utilização do jogo de búzios como sistema oracular e a confecção de assentamentos, que consistem na sacralização de um conjunto de elementos fundamentais para a fundação e a fixação de forças espirituais de um terreiro. Embora adote rituais de reclusão para iniciação e a imolação animal (com o uso litúrgico do sangue, nomeado como menga), a vertente diferencia-se do Candomblé pela adoção de pontos cantados em português, pela tipologia dos seres que se manifestam no transe e pela centralidade do princípio da caridade. Essa hibridização estética e teológica gera dinâmicas internas diversas: enquanto algumas linhagens adotam mudanças rituais modernas e reformas doutrinárias, outros terreiros mantêm intocadas as práticas tradicionais e fundacionais do segmento. Na literatura especializada, tais variações permitem identificar no Almas e Angola tanto componentes de uma "Umbanda Preta" — focada no culto aos ancestrais com assentamento de Babá Egun — quanto elementos associados à "Umbanda Branca", tais como a influência do mito de origem ligado a Zélio de Moraes, a ausência de divisão dos Orixás em qualidades, a restrição do sacrifício a aves e um horizonte temporal de progresso metafísico.
Espacialmente, o terreiro organiza-se em torno de uma tríade no congá em formato triangular, composta por Oxalá no topo (representando a vida), Beijadas à esquerda (o nascimento) e Obaluaê à direita (a morte), além de um ponto central riscado no chão onde uma estrela de cinco pontas, simbolizando os Orixás, circunda uma cruz branca dedicada às Almas. Externamente, a estrutura física é delimitada pela Canjira (ou Casa dos Guardiões, destinada a Exus e Pombagiras) e pela Casa das Almas (espaço de culto aos ancestrais e Pretos-velhos), caracterizando o que a literatura acadêmica define como uma síntese bantu-nagô, devido à profunda hibridização de elementos da Umbanda com o rigor e o culto às divindades típicos do Candomblé. A organização do espaço físico no Ritual de Almas e Angola transcende a mera infraestrutura material, sendo concebida como um território do axé onde a dimensão do "ser" e do "ter" se fundem para manifestar a cosmologia da religião. O terreiro (também chamado de casa, centro ou tenda) é o símbolo maior da materialidade espiritual, onde cada elemento, desde o solo até o teto, é sacralizado para servir de mediador com o sagrado.
História A reconstrução histórica do Almas e Angola baseia-se tanto na tradição oral de seus praticantes quanto em pesquisas historiográficas e antropológicas, que apontam para um processo de codificação ritualística e posterior expansão regional, sobretudo no estado de Santa Catarina. Segundo a narrativa tradicional da vertente, a codificação do Almas e Angola remonta à atuação de Pai Luiz d’Ângelo no Rio de Janeiro na década de 1930. Sob a orientação espiritual do Caboclo Lamparina, Pai Luiz teria desenvolvido as bases do ritual a partir de contatos com o Candomblé Angola. Uma narrativa sobre o babalorixá Pai Luiz D’Ângelo aponta suas divergências em relação às práticas da Umbanda no Rio de Janeiro da época, especificamente quanto ao tratamento ritualístico dispensado ao Orixá Obaluaê. Na vertente predominante na época — influenciada por um processo de sincretismo e embranquecimento cultural —, Obaluaê não era plenamente reconhecido como uma divindade autônoma, sendo frequentemente associado ao culto das Almas e aos eguns (espíritos de mortos). Sob essa perspectiva, a incorporação direta da divindade não era amplamente aceita; durante as manifestações espirituais, o médium costumava ser coberto com um pano branco, acompanhado pelo acendimento de uma vela, sendo comum o prostramento do iniciado ao solo. Outra narrativa defende que Pai Luiz d'Ângelo fundou um terreiro com um irmão de santo angolano. Em 1951, ele teria se mudado para Florianópolis, deixando a liderança para sua filha de santo Mãe Dulce de Oxum e, assim, a continuidade do Almas e Angola no Rio de Janeiro
A expansão do Almas e Angola para a Região Metropolitana de Florianópolis é marcada por divergências e complementaridades nas narrativas de suas lideranças pioneiras. Mãe Ida de Xangô (Guilhermina Barcelos) é frequentemente citada na memória coletiva como a responsável por trazer formalmente o Almas e Angola do Rio de Janeiro para a capital catarinense na década de 1950. Outra versão aponta que Mãe Ida acolheu Pai Luiz D'Ângelo no terreiro dela quando ele se mudou para Florianópolis, onde ele deu continuidade ao Almas e Angola a partir da feitura de novos filhos. Pai Evaldo de Oxalá atuou em conjunto com Mãe Ida após incentivá-la a retornar do Candomblé para o Almas e Angola. Ambos introduziram inovações rituais significativas na vertente local, tais como os "reforços" de obrigações de 7, 14 e 21 anos para Babalorixás e Yalorixás, a implementação de assentamentos para os Orixás, a adoção do jogo de búzios como oráculo e o sacrifício ritual (imolação) de galinhas-d'angola brancas. Há alguma evidência de que tenha existido um terreiro do segmento em Laguna entre os anos 1970 e 1980.
A historiografia das religiões de matriz africana na Grande Florianópolis também destaca o papel de outras lideranças na consolidação e difusão do Almas e Angola e outras religiões afro-brasileiras, tais como Pai Leco, Mãe Maria Tereza Martins, Mãe Hilca d’Iansã, Mãe Kátia d’Omolu, Pai Orlando e Pai Giovani. O último, inclusive, foi responsável pela publicação de uma obra de circulação nacional sobre a dinâmica da religião. apud A periodização da história das religiões afro-brasileiras foi proposta pela pesquisadora Cristiane Tramonte e retomada pelos pesquisadores do Núcleo de Estudos de Identidades e Relações Interétnicas da Universidade Federal de Santa Catarina: +Cronologia da história das religiões afro-brasileiras na Grande FlorianópolisRecorteCaracterísticas PrincipaisSéculo XIX – 1940Fase anterior à fundação dos terreiros formais. A possibilidade de uma relação histórica entre as práticas de benzedeiras locais e os primeiros terreiros é uma hipótese debatida.1940 – 1970Período de afirmação identitária e luta pela aceitação social e religiosa. Os pesquisadores do NUER situam o período de visibilidade dos terreiros como instituições a partir da década de 1950.Década de 1970Auge do crescimento e reconhecimento público das principais casas da região, articulada como luta pela democratização.Década de 1980Fase de consolidação institucional e comunitária. Conflitos nas relações de vizinhança, incorporação de setores médios e da elite e surgimento de práticas assistencialistas.Década de 1990Fragmentação das entidades organizativas, enfraquecimento de algumas das antigas lideranças e novos valores entre os novos praticantes.A partir dos anos 2000Emergência de dilemas éticos e práticos contemporâneos, que incluem as tensões entre mercantilização e caridade, ostentação e humildade, tradição e modernidade, além do debate sobre o manejo ritual e a relação com a natureza. Processo de embranquecimento (retirada de traços africanizados) Dados estatísticos levantados pelo NUER demonstram que, apesar dos dilemas do século XXI, a vertente apresentou um crescimento quantitativo na virada do milênio. Entre os períodos de 2000–2010 e 2011–2016, a taxa média de abertura de novos terreiros na região metropolitana acelerou de 6,72 para 8,33 templos por ano. Mapeamentos recentes confirmam a predominância quantitativa e o expressivo impacto demográfico dos terreiros de Almas e Angola no cenário religioso regional. A produção etnográfica aponta um processo de embranquecimento (retirada dos traços africanizados) da cena umbandista da região nas duas primeiras décadas do século XXI.
Variações de Nome Das 70 denominações de religiões de matriz afro-brasileira registradas na Grande Florianópolis, existem 11 variações referentes ao Almas e Angola:
Almas e Angola Almas e Angola Linha Branca Almas e Angola/Espiritismo Linha Branca do Ritual Almas e Angola Nação Omolokô de Raiz Banto Segmento Almas e Angola Nação Omolokô de Raiz Banto Umbanda Ritual de Almas e Angola Ritual Almas e Angola Umbanda Almas e Angola Umbanda Linha Almas e Angola Umbanda Ritual Almas e Angola Umbanda Segmento Almas e Angola
Notas A historiadora Beatriz Pereira da Silva (2016) havia afirmado a extinção do Almas e Angola no Rio de Janeiro, porém Rodrigues (2026) afirma sua presença no estado. A descrição do Ritual elaborada pelo líder religioso, contudo, difere bastante daquela presente na produção etnográfica da Grande Florianópolis. Segundo os antropólogos Vânia Z. Cardoso e Scott C. Head (2015, p. 190) alguns umbandistas criticam as mudanças ritualísticas introduzidas no Almas e Angola a partir da aproximação com o Candomblé como "umbandomblé".
Referências
Bibliografia
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. . . . . ESPINDOLA, Lucas Denir. (2024) A voz de Exú na umbanda de Florianópolis: Uma análise do léxico em pontos cantados. Dissertação (Mestrado em Linguística) – Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2024. .
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Ligações externas
Projeto Memórias de Terreiros - AYA Laboratório de Estudos Pós-Coloniais e Decoloniais (Universidade do Estado de Santa Catarina).
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