Guilherme II (c. 1056 – ), também conhecido como Guilherme, o Ruivo, foi o Rei da Inglaterra de 1087 até sua morte, com influência e poder indo até a Escócia e a Normandia. Era o filho de Guilherme I e Matilde de Flandres.
Guilherme II, o Ruivo, nasceu na Normandia, antes da subida do pai ao trono de Inglaterra. Era o preferido de Guilherme I, talvez devido à personalidade agressiva dos irmãos. Quando Guilherme, o Conquistador morreu, deixou a Normandia a Roberto, mas a Inglaterra ficou para Guilherme II. Esta decisão desagradou tanto a Roberto, privado de parte substancial da herança, como aos nobres que tinham terras em ambas as margens do Canal. O resultado foi uma longa e crescente animosidade entre Roberto e Guilherme II que resultou em invasões mútuas e revoltas das populações. No ano de 1091, o Duque da Normandia e o Rei de Inglaterra fizeram as pazes, assinaram o tratado de Caen e acordaram mutuamente nomear-se como sucessor. O reinado de Guilherme foi difícil. Impopular junto do povo, teve de lidar com revoltas dos Condes da Nortúmbria e de Eu, com ataques do Rei da Escócia e com conflitos com a Igreja.
Guilherme morreu em Agosto de 1100, atingido por uma seta enquanto caçava em New Forest acompanhado por um grupo de nobres, e encontra-se sepultado na Catedral de Winchester. Se foi um acidente ou não, permanece por explicar, mas ninguém foi acusado ou perseguido por regicídio. Guilherme nunca casou nem teve descendência ilegítima e algumas fontes sugerem a sua homossexualidade. De qualquer forma, sem filhos o seu sucessor seria o irmão Roberto II da Normandia, de acordo com os tratados de 90. No entanto Roberto encontrava-se na altura em Cruzada na Terra Santa e não pode reclamar o trono de Guilherme II. Houve quem o fizesse por ele. Henrique, o irmão mais novo dos dois não perdeu tempo e apropriou-se da coroa.
Os historiadores do século XII (todos eles eclesiastas), deixaram uma imagem negativa do rei, lembrando sobretudo a sua moral duvidosa, os seus maus costumes e a sua morte dramática.Christopher Tyerman, « William II », em Who's Who in Early Medieval England, 1066-1272, Ed. Shepheard-Walwyn, 1996, p. 47-54. (ISBN 0856831328). Os historiadores atuais reconhecem que Guilherme conseguiu manter a ordem na Inglaterra, e restaurou a paz na Normandia. Morto com apenas 40 anos de idade, não pôde mostrar a totalidade das suas capacidades.Frank Barlow, « William II (c.1060–1100) », em Oxford Dictionary of National Biography, Oxford University Press, 2004 Ler online.
Juventude Nascido por volta de 1060 no ducado da Normandia, ele é o terceiro filho de Guilherme o Conquistador (morto em 1087) e de Matilde de Flandres (morta em 1083). É portanto mais novo que Roberto Courteheuse e Ricardo (morto antes de 1074), e mais velho que Henrique. O sobrenome de "Ruivo" vem ou da cor dos seus cabelos ou do seu tom avermelhado.Frank Barlow, William Rufus, University of California Press, 1983, p.11-12. Embora esse sobrenome pouco fosse usado enquanto vivo, serve para os historiadores o distinguirem de outros Guilhermes de sua época. O monge-historiador Orderico Vital, algumas centenas de anos mais tarde, nomeia-o dessa forma ao longo de todo a sua História Eclesiástica.
Guilherme o Ruivo é, tal como os seus irmãos, um aventureiro, caçador e soldado. Segundo o historiador britânico Frank Barlow, apesar de menos inteligente que seus irmãos, ele é perseverante. Durante a sua infância, leva uma educação através do monge erudita Lanfranco de Cantuária, na época abade da Abadia aux Hommes em Caen. Como terceiro filho do duque, poderá ter recebido um apanágio, mas confiando-o a Lanfranco, os seus pais talvez o tenham destinado à ordem. A morte de Ricardo entre 1069 e 1074, o segundo filho, transtorna os projetos do casal real: Guilherme volta para o seu pai e é nomeado cavaleiro. Observadores descrevem-no como um rapaz respeitador e bom, leal e fiel ao seu pai.
As relações entre os três irmãos não são particularmente boas. Um incidente entre eles (por volta de 1078), leva a uma revolta de Roberto, frustrado por falta de dinheiro e de independência de seu pai. Enquanto que o duque de Normandia está instalado em L'Aigle, Guilherme e Henrique fazem uma visita ao seu irmão Roberto que vive numa outra casa com a sua própria comitiva. Após um jogo de dados, eles urinam de um andar acima sobre a cabeça de Roberto e de seus amigos.Para François Neveux, Roberto e os seus companheiros foram apenas molhados com água. François Neveux, la Normandie des ducs aux rois, Ouest-France, Rennes, 1998, p.430. Segue-se uma briga tão barulhenta que o duque teve de intervir e obriga os seus filhos a fazerem a paz. Na noite seguinte, Roberto, humilhado, dirige-se com os seus companheiros para Rouen onde tentam tomar o castelo. Falham e o duque ordena a sua prisão.Kathleen Thompson, « Robert, duke of Normandy (b. in or after 1050, d. 1134) », Oxford Dictionary of National Biography, Oxford University Press, 2004. Roberto e os seus companheiros fogem então da Normandia. Em 1079, Roberto está na fortaleza de Gerberoy. Guilherme o Conquistador sitia o local, e é ferido pelo próprio filho. Mesmo que os dois homens se tenham reconciliado, este ato dramático provavelmente alterou o destino do jovem Guilherme frente a seu irmão.
Em 1080, Guilherme acompanha o seu pai e o seu irmão Roberto para a Inglaterra. Muito provavelmente participa em algumas campanhas na Escócia e no País de Gales. Nos anos seguintes, fica com seu pai em Inglaterra e nada sugere uma longa separação entre eles. Pelo contrário, desde 1083 que Roberto Courteheuse deixara a corte para procurar fortuna no Reino de França.
Em agosto de 1087, o Conquistador morre devido a uma ferida no abdómen, quando atacava Mantes. A sua sucessão é muito discutida e é muito provável que a sua primeira intenção fosse em deserdar completamente Roberto. Mas é dissuadido pelos barões do ducado, que tinham prestado homenagem a Roberto em 1066, antes mesmo da invasão da Inglaterra. O conquistador decide mesmo assim recompensar Guilherme pela sua lealdade: moribundo, envia-o para a Inglaterra para subir ao trono.
Ascensão ao trono (1087–1088) Tomada do reino thumb|Grande Selo de Guilherme o Ruivo no seu reinado, extraído de The pictorial history of England, por George Lillie Craik e outros (1846). Guilherme provavelmente embarca em Touques em direção à costa inglesa. Dirige-se para Winchester onde se assegura do tesouro real. Depois junta-se ao arcebispo de Cantuária, o seu antigo tutor Lanfranco de Cantuária, que praticamente assume o papel de vice-rei. Este respeita os votos do Conquistador e coroa Guilherme a 26 de setembro de 1087, na abadia de Westminster, dezassete dias após a morte do rei. Para o historiador Frank Barlow, é um "golpe de Estado". Quando Guilherme o Ruivo sobe ao trono, não tem nenhuma experiência de governo nem conhece muito bem o país. Mas é ajudado por Lanfranco e assegura-se sem grandes dificuldades da submissão da administração real, dos xerifes e da nobreza ministerial. Num primeiro tempo, os barões anglo-normandos não reagem, talvez porque a maioria está na Normandia ou porque esperam pela reação de Roberto Courteheuse. Este último voltou para a Normandia desde que soubera da morte do pai, e faz-se reconhecer como duque da Normandia e conde do Maine.
Rebelião de 1088
Guilherme o Ruivo não hesita em distribuir o tesouro real às igrejas e xerifes dos condados, e escolhe comprar os serviços de conselheiro de Guilherme de Saint-Calais, bispo de Durham. Rapidamente, ganha o apoio da Igreja e dos barões anglo-normandos. Comete então um erro: entregar ao seu tio Odo, libertado da prisão por um moribundo Guilherme I, as suas posses na Inglaterra. Pouco agradecido, Odo organiza uma conspiração para unir a Normandia e a Inglaterra sob o único governo de seu sobrinho Roberto Courteheuse. A obrigação de obedecer a dois suseranos diferentes, e ainda por cima inimigos, colocava problemas de lealdade nos aristocratas anglo-normandos.Frank Barlow, William Rufus, Yale University Press, 1983, p.74–84. Odo reuniu à sua volta grandes barões do reino, tais como Rogério II de Montgommery, Geoffroy de Montbray e Roberto de Mortain. Os rebeldes fortificaram os castelos de Rochester, Pevensey e Tonbridge. Na primavera de 1088, lançaram uma campanha militar saqueando terras do rei e de seus aliados, e aguardam o desembarque do duque Roberto. Mas este demora a embarcar, e Guilherme o Ruivo aproveita para mobilizar todas as forças disponíveis, e responde em triplicado.Robert Bartlett, England Under the Norman and Angevin Kings, 1075–1225, Oxford University Press, 2002, p. 52.
Primeiro tenta dividir os seus adversários mostrando-se pronto para recompensar quem abandonar a conspiração. Rogério de Montgommery é o primeiro a aceitar. Depois, Guilherme promete ao povo inglês, no geral, restaurar as melhores leis que já conhecera, de abolir os impostos injustos e de reconsiderar os direitos à caça. Finalmente ele passa à ação militar sitiando e tomando os castelos rebeldes. A partir do fim do mês de julho, a rebelião é esmagada. O rei decide perdoar os rebeldes de forma maciça, à exceção de Odo de Bayeux, que é banido do reino. Após o conflito, ele tem de resolver o caso de Guilherme de Saint-Calais, o seu principal conselheiro que o abandonara durante a rebelião, e que se refugiara em Durham. Segue-se um debate entre o rei e o rebelde para saber se ele deveria ser julgado segundo as leis feudais ou como bispo segundo as leis canônicas. Finalmente, o rei decide retirar as posses do bispo e bani-lo do reino.Frank Barlow, « St Calais, William of (c.1030–1096) », Oxford Dictionary of National Biography, Oxford University Press, 2004.
Com a ordem restabelecida no seu reino, é-lhe permitido recompensar os seus principais apoiantes na revolta. Henrique de Beaumont recebe o título de conde de Warwick, Guilherme de Warenne recebe o título de conde de Surrey, e Roberto FitzHamon recebe a honra de Gloucester.
Relações com o ducado da Normandia (1088–1096) Após a derrota da rebelião, as relações entre os dois irmãos ficaram ainda mais tensas. Henrique, o irmão mais novo, decidido a herdar de pelo menos um dos dois irmãos, tenta tirar alguma vantagem da situação. A sua preferência vai para Guilherme, mas o fraco e dispendioso Roberto é o mais fácil de explorar. Assim, em 1087-1088 ele compra, com o dinheiro da herança, Avranchin e Cotentin. Por seu lado, Guilherme o Ruivo compra os serviços dos vassalos de Roberto Courteheuse e prepara a invasão da Normandia.Frank Barlow, William Rufus, Yale University Press, 1983, p.276-277. No decorrer do verão de 1090, já corrompeu a maioria dos barões da Alta Normandia, com fiéis centralizados em Eu. A situação no ducado começa a deteriorar-se, e apoiantes do rei iniciam uma revolta em Rouen, a capital. Henrique aproveita para se aproximar de Roberto indo ao seu socorro, e a revolta em Rouen é eliminada sem que Guilherme pudesse entrar em ação.
O tratado de Caen de 1091
Em fevereiro de 1091 Guilherme prepara a última fase do seu plano para reunir os territórios paternos. Desembarca na Normandia e instala-se em Eu. Contudo, não há nenhum confronto sério entre os exércitos. Este status quo termina no tratado de Caen que Guilherme de Saint-Calais, acabado de se reconciliar com o rei, aparentemente negocia entre os dois irmãos. Com esse tratado, fazem as pazes e designam-se herdeiros um do outro. Guilherme mantém o condado d'Eu e o porto de Cherbourg. Em troca, Guilherme ajuda o seu irmão na recuperação dos territórios do ducado que tivera de conceder para comprar fidelidade. Os dois irmãos atacam então Henrique, senhor de Avranchin e de Cotentin, sitiam-no no Monte Saint-Michel. Derrotado, Henrique acaba por se exilar em França.C. Warren Hollister, « Henry I (1068 ou 1069–1135) », Oxford Dictionary of National Biography, Oxford University Press, 2004.