Carlota de Chipre (; Nicósia, 28 de junho de 1444 – Roma, 16 de julho de 1487) foi rainha do Chipre de 1458 a 1464, como única herdeira legítima do pai, João II. Seu reinado foi marcado por conflitos com seu meio-irmão, Jaime. Com o apoio militar dos egípcios, ele forçou Carlota a fugir da ilha e tomou o trono sob o nome de Jaime II. Suas tentativas de recuperar o trono no exílio foram infrutíferas e ela morreu em Roma, onde foi enterrada.

Família Carlota era a filha primogênita do rei João II de Chipre e de sua segunda esposa, Helena Paleóloga.

Os seus avós paternos eram o rei Januário de Chipre e Carlota de Bourbon. Os seus avós paternos eram Teodoro II Paleólogo, déspota de Moreia, filho do imperador bizantino, Manuel II Paleólogo, e Cleofa Malatesta.

Ela apenas teve uma irmã mais nova, Cleofa, que morreu na infância. Seu meio-irmão, Jaime II, era fruto do relacionamento do rei João II com sua amante grega, Marieta de Patras.

Biografia Carlota foi criada segundo a tradição bizantina e falava grego fluente, tendo aprendido com sua mãe, Helena Paleóloga, neta do imperador bizantino Manuell II. Ela escrevia em francês, italiano, e possivelmente em latim, porém, sua língua principal durante toda a vida foi o grego. Devido à sua personalidade sincera, o Papa Pio II apelidou a futura rainha de "torrente grega".

thumb|left|Pintura da rainha Helena com as filhas, Carlota e Cleofa, por artista desconhecido.

Carlota foi nomeada princesa de Antioquia em 1456, como herdeira do pai. Ainda em 1456, no dia 21 de dezembro, a princesa se casou com o infante João de Coimbra, neto do rei João I de Portugal. A união pode ter sido arranjada pela tia de João, Isabel de Portugal, Duquesa da Borgonha, com o intuito de adquirir uma base naval no mar mediterrâneo para a passagem segura de grupos de cruzados advindos da Borgonha em direção à Terra Santa. A noiva tinha 12 anos, e o noivo tinha cerca de 25.

João tentou contrabalancear o influência grega ortodoxa da sogra, que passou a desaprovar do genro que antes apoiara. João demitiu o camareiro da rainha Helena, o grego Tomás, que apoiava os interesses ocidentais. Após um tempo, o relacionamento entre Helena e João se tornou tão tenso, que Carlota e João se mudaram para a casa de Pedro de Lusinhão, ex-regente de Chipre, conde de Trípoli e padrinho de Carlota.

Logo, João faleceu em 1457, segundo crônicos do Chipre, após ter sido envenenado pela rainha. Em seguida, o próprio camareiro da rainha foi assassinado pelo enteado de Helena, Jaime. Anos antes, ao se tornar rainha, Helena tinha ordenado que o nariz de Marieta, a mãe de Jaime, fosse cortado.

Não se sabe o motivo exato pelo qual Jaime matou o camareiro; na época, ele tinha recentemente sido nomeado pelo pai como arcebispo de Nicósia, com apenas 17 anos de idade. Segundo especulações, Carlota teria pedido ao meio-irmão que vingasse a morte de seu marido através da morte de Tomás. Porém, também é possível que Jaime tenha cometido o crime como parte de sua conspiração para tomar o trono. Seja como for, o rei João II, como resposta, removeu o filho ilegítimo de sua posição como bispo, o que o levou a fugir para a ilha de Rodes.

thumb|Carlota com o segundo marido, Luís, por autor desconhecido.

Agora que a princesa estava viúva, o seu pai escolheu outro marido para a filha: Luís de Saboia, filho de Luís, Duque de Saboia. Helena se opôs ao casamento, devido ao fato deles serem primos, mas João II não ouviu a esposa. Logo, a rainha faleceu em 11 de abril de 1458. O contrato de casamento foi assinado em 10 de outubro de 1458.Porém, devido às dificuldades financeiras de Luís, ele só chegou no Chipre em meados de 1459, portanto, o cerimônia só aconteceu em 4 de outubro de 1459, na Catedral de Santa Sofia, em Nicósia.

Reinado e exílio O funeral da rainha Helena trouxe Jaime de volta para o Chipre, e ele voltou a desfrutar da graça do pai. Assim, ele usou essa oportunidade para convencer o rei a torná-lo seu herdeiro legítimo. João chegou a pedir que a corte nobre do reino reconhecesse Jaime como seu herdeiro, antes de sua morte em 28 de julho de 1458. No entanto, os nobres apoiaram o direito de Carlota como herdeira, e ela se tornou a sucessora do pai. Ela foi coroada em 7 de outubro de 1458, na Catedral de Santa Sofia.

thumb|Moedas da rainha contendo o brasão da Casa de Lusinhão, e a cruz de Jerusalém no lado de trás, datando de 1458 a 1460.

Jaime, determinado a usurpar o trono, deixou o Chipre e foi buscar ajuda militar no Egito, com o sultão Sayf al-Din Inal. Ao saber disso, a rainha Carlota enviou embaixadores para o sultão, lhe oferecendo pagar mais impostos, porém, os soldados egípcios ficaram ao lado de Jaime, e o sultão enviou uma frota naval de 80 navios com 650 de seus guardas reais para atacar o Chipre.

No fim do verão de 1460, Jaime e seu exército desembarcaram perto da cidade de Famagusta, onde ele se autoproclamou rei Jaime II. Os soldados conseguiram capturar com rapidez as principais cidades do país, mas a rainha e seu marido conseguiram se refugiar na cidade de Cirénia, na fortaleza real. Em seguida, Jaime e suas forças cercam a fortaleza. Segundo o cronista cipriota, Georges Boustronios:

"Lá, Jaime posicionou uma bombarda, a qual eles tinham trazido de Sigouri (Castelo de Sigouri), e a colocaram no barbacã. E no lado da igreja grega, dois emires acampavam, e lá eles colocaram duas bombardas, que tinham devastado a região de Camuza. E no lado do Spiruni, outro emir montou o seu acampamento, e lá eles colocaram duas bombardas. E, em cima de uma igreja grega, o rei colocou um canhão em formato de serpentina, e o canhão causou grandes danos e matou vinte e três homens em Cirénia. E o rei colocou uma enorme bombarda na Casa Piphani, a qual foi manejada por um homem sarraceno. E, com essa bombarda, ele destruiu quinhentas oliveiras e muitas outras árvores na Casa Piphani; por fim, terminou. Em seguida, escadas foram usadas, e muitas máquinas de guerra. E, Cirénia era forte, e também possuía bastante artilharia; foi difícil de capturar."

Durante certo ponto durante o cerco, a rainha conseguiu sair do castelo, zarpar até Rodes, e convencer os Cavaleiros da Ordem de São João a ajudá-la, antes de voltar para a fortaleza. Ela foi apoiada pelo grão-mestre da Ordem, Jacques de Milly.

O cerco durou três anos, quando, em 1463, Carlota e Luís foram forçados ao exílio, após a queda da fortaleza. Atacada durante a viagem pelos venezianos, que mais tarde alegaram ter sido enganados pelas circunstâncias, Carlota, despojada de todos os seus bens, foi resgatada em Rodes, de onde logo seguiu para Roma.

Primeiro a rainha foi até Roma, buscar o apoio do Papa, e depois formou uma corte na ilha de Rodes, onde tentou, sem sucesso, recuperar o trono. Em Roma, ela morou no Palácio Convertendi, em Trastevere. O Papa Pio II a descreveu como:

"uma mulher de cerca de vinte e quatro anos, de altura média, olhos brilhantes, pele entre escura e pálida; de fala tranquila e de torrente fluída à maneira dos gregos; com roupas francesas; maneiras condizentes ao seu sangue real."

Pio II, "que tinha tão pouco a elogiar no comportamento da Casa de Saboia quanto na fidelidade dogmática de Chipre", enviou o Cardeal d'Estouteville a Óstia para dissuadir a rainha da ideia de desembarcar; mas, mesmo assim, ela desembarcou na Basílica de São Paulo Extramuros, em 14 de outubro de 1461 e, no dia seguinte, entrou em Roma, onde foi recebida com todas as honras. Recebida pelo pontífice, recebeu dele promessas de ajuda e permaneceu sua hóspede até 29 de outubro. Tendo partido na manhã daquele dia, provida pelo Papa com dinheiro para a viagem e uma escolta de cinquenta cavaleiros, dirigiu-se para Saboia.

Em San Quirico d'Orcia, em 5 de novembro, solicitou salvo-conduto para Florença, e entrou nessa cidade no dia 10. No dia 20, estava em Bolonha, onde vários enviados venezianos se apresentaram a ela, enviados para lhe oferecer compensação pelas perdas sofridas durante o ataque ao seu navio. Ao passar por Milão, em Vercelli, no dia 16 de dezembro, foi recebida em todos os lugares com cordialidade e hospedada com a generosidade condizente com a sua posição; mas não encontrou ninguém que realmente ouvisse os seus urgentes apelos por ajuda.

Nem mesmo a Casa de Saboia, agora em quase completa ruína financeira, conseguiu atender plenamente às suas expectativas. Alguns anos depois, em 1466, Luís seria acusado por seu irmão, o duque Amadeu IX, de ter sido uma das causas da crise financeira do ducado. Carlota permaneceu na corte de Saboia até meados de junho de 1462, transitando entre as residências ducais, especialmente Lausanne e Thonon, e engajando-se, em comum acordo com o duque, em intensa atividade diplomática com a Ordem de Rodes, Gênova e o rei de Aragão, solicitando-lhes auxílio militar e prometendo pagamentos que, mais uma vez, sobrecarregariam as finanças de Saboia.

Em troca do que havia recebido, em 18 de junho de 1462, a rainha assinou um acordo com a Casa de Saboia no qual, reconhecendo sua extensa dívida, reafirmou e ampliou os direitos dos duques de Saboia sobre o reino de Chipre.

Tendo partido para a corte da Família Gonzaga, onde já se encontrava em 18 de julho, permaneceu lá até 14 de agosto, quando se mudou para Veneza, atraída também pela questão da compensação. De lá, embarcou no outono e chegou a Rodes, onde, pouco depois, antes de 23 de fevereiro de 1463, foi acompanhada pelo marido, que nessa ocasião deixou Chipre definitivamente e retornaria à sua terra natal no final de 1463. Carlota permaneceu por vários anos em Rodes, como hóspede da Ordem, que lhe assegurava uma renda de 30 florins por mês.

Em julho de 1464, Carlota deu a luz à um filho que morreu no mesmo mês. O bebê foi sepultado no túmulo de Jacques de Milly, em 4 de julho.

Após a morte de Jaime II, em 1473, a sua viúva, Catarina Cornaro, passou a governar como regente em nome do filho, Jaime III. Carlota tentou depor Catarina, mas falhou. No entanto, Catarina acabou por ser a última rainha do Chipre, pois, em 1489, foi forçada a vender a ilha para a República de Veneza.

Em 1475, ela passou a morar numa residência na Praça Scossacavalli, onde a rainha Catarina da Bósnia, já havia sido recebida. Constantemente vigiada por Veneza, foi provavelmente durante esse período que Carlota recebeu a primeira oferta de uma renda substancial da República de São Marcos, sob a condição de renunciar a todas as reivindicações sobre Chipre. Em setembro de 1476, e em 9 de agosto de 1478, a oferta foi renovada, mas novamente rejeitada.

Em novembro de 1483, Carlota foi recebida pelo Papa Sisto IV no Palácio Apostólico, onde sentou-se numa poltrona da mesma "altura e dignidade" do que a do Papa.

Sucessão e morte Apesar de não ter tido filhos biológicos, Carlota adotou Afonso de Aragão, filho ilegítimo do rei Fernando I de Nápoles, que esteve casado ou noivo da filha ilegítima de Jaime II, Carlota de Lusinhão.

A rainha deposta tinha a intenção de manter a continuidade da sua dinastia através da sobrinha, e, em 1473, acompanhada por Afonso, visitou o sultão Axerafe Calil, no Cairo, para discutir uma possível restauração ao trono. O sultão apoiou a causa, mas o plano só poderia ser executado quando Carlota tivesse a guarda da sobrinha.

Porém, para a infelicidade de ambas as Carlotas, os oponentes da rainha prenderam a filha do rei em Pádua, onde ela morreu antes de fazer 12 anos, em 1480.Em seguida, um casamento também foi sugerido entre Afonso e Catarina Cornaro, o que falhou devido a interferência de Veneza.

thumb|left|Tumba da rainha Carlota no Vaticano.

Por fim, em 25 de fevereiro de 1485, Carlota cedeu os seus direitos ao trono cipriota ao seu primo, Carlos I, Duque de Saboia, o próximo na linha de sucessão, em troca de uma pensão anual no valor de 4.300 florins.