miniatura|200px|direita|Danos ao interior do Mercado Público Congolês de Quinxassa após os tumultos Os protestos e tumultos no Congo Belga em 1958 e 1959, também chamados de tumultos de Léopoldville, foram enormes protestos civis ocorridos entre dezembro de 1958 e janeiro de 1959, concentrados em Léopoldville (atual Quinxassa) e cidades próximas, no Congo Belga, e que representaram um momento importante para o movimento de independência quinxassa-congolês. Os tumultos ocorreram quando partidos nacionalistas protestaram pela autonomia política do Congo, e as autoridades coloniais reagiram com violência. O número exato de mortos é desconhecido, mas pelo menos 49 pessoas foram mortas e o total de vítimas pode ter chegado a 500. Após esses tumultos, uma Conferência de Partes foi organizada em Bruxelas para negociar os termos da independência do Congo. O Congo conquistou sua independência em 30 de junho de 1960, tornando-se a República do Congo.
Antecedentes Durante os estágios finais da Segunda Guerra Mundial, surgiu no Congo um novo estrato social, conhecido como os évolués. Formando uma classe média africana na colônia, eles ocupavam posições qualificadas (como escriturários e enfermeiros) disponibilizadas pelo cresciemnto econômico. Embora não houvesse critérios universais para determinar o estatuto de évolué, era geralmente aceito que um indivíduo deveria ter "um bom conhecimento de francês, aderir ao cristianismo e ter algum tipo de educação pós-primária". Até a década de 1950, a maioria dos évolués se preocupava apenas com as desigualdades sociais e o tratamento que recebiam dos belgas. O nacionalismo cresceu em 1958, à medida que mais évolués começaram a interagir com pessoas de fora de suas localidades e a discutir as futuras estruturas de um Estado quinxassa-congolês pós-colonial.
Uma série de novos partidos políticos competiram pelo apoio popular, incluindo a Associação dos Bacongos para a Unificação, a Conservação e o Desenvolvimento da Língua Congo (ABAKO), liderada por Joseph Kasa-Vubu, e o Movimento Nacional Congolês (MNC), liderado por Patrice Lumumba. Olhando para a descolonização francesa da África, a administração colonial belga tentou se preparar para uma possível descolonização, mas queria mais tempo para, no processo, garantir o controle de um Estado neocolonial quinxassa-congolês voltado aos seus interesses, pelo que tentou isolar politicamente e economicamente o Congo tanto de África como da Europa, e suprimir a organização política. Isto tornou-se cada vez mais difícil à medida que o nacionalismo quinxassa-congolês ganhava popularidade, pelo que, em julho de 1958, o governo belga criou um grupo de estudo para considerar possíveis reformas na colónia. Em resposta às conclusões do grupo de estudo, a administração colonial decidiu anunciar alterações políticas no Congo para os anos seguintes.
Outro aspecto fundamental que levou aos protestos e tumultos no Congo Belga em 1958 e 1959 foram a crise do preço dos minérios, a redução dos investimentos em equipamentos sociais, o aumento do desemprego entre as camadas do operariado urbano e da classe camponesa do Congo, bem com uma crescente consciência política dos povos africanos acerca dos aspectos da luta de classes.
Revolta popular e tumultos miniatura|200px|direita|Danos ao exterior do Mercado Público Congolês de Quinxassa após os tumultos Em 28 de dezembro de 1958, Lumumba organizou um grande comício e protesto público encabeçado pelo Movimento Nacional Congolês em Quinxassa, onde relatou sua participação na Conferência de Todos os Povos Africanos em Acra, Gana, no início daquele mês. O protesto público foi um grande sucesso e contou com a participação de, ao menos, 10 mil pessoas.
Ao longo da semana seguinte, várias organizações políticas com interesses similares buscaram replicar a manifestação de Lumumba. Um desses nomes que buscou organizar seu próprio evento foi Kasa-Vubu, marcando outro comício e protesto público para o final de semana seguinte, um domingo, 4 de janeiro de 1959, com a temática do nacionalismo. A ABAKO solicitou permissão para realizar a manifestação em um local fechado, no prédio da Associação Cristã de Moços de Quinxassa (ACM-Q), mas o governo municipal, tendo sido avisado com pouco tempo de antecedência, comunicou que apenas uma "reunião privada" seria autorizada. Autoridades belgas também alertaram que, se o evento se tornasse político, os líderes da ABAKO seriam responsabilizados.
Interpretando os avisos da administração como uma proibição da reunião, a liderança da ABAKO tentou adiar o evento em 3 de janeiro, mas no domingo, 4 de janeiro, uma grande multidão se reuniu no prédio da ACM-Q mesmo assim. Kasa-Vubu e outros funcionários da ABAKO chegaram para mandar os manifestantes para casa. Eles não conseguiram acalmar a multidão, e a violência começou após a recusa dos manifestantes em se dispersarem.
A multidão começou a atirar pedras contra a polícia e a atacar motoristas brancos. O grupo inicial de manifestantes foi logo acompanhado por 20.000 quinxassa-congoleses que saíam de um estádio de futebol próximo. Na época, relatos da imprensa estimaram que 35.000 africanos estavam envolvidos na violência, que se espalhou rapidamente à medida que os manifestantes tentavam entrar na parte europeia da capital. Os manifestantes alegadamente quebraram e saquearam vitrines, incendiaram missões católicas e agrediram padres católicos. Muitos manifestantes gritavam "indépendance immédiate".
Os tumultos se seguiram por 10 dias, ganhando ainda mais apoiadores e se espalhando por cidades próximas, como Quicuíte, Boma e Matadi, principalmente engrossados por militantes do Movimento Nacional Congolês, mas também com participação de elementos do Partido da Solidariedade Africana (PSA) e da União das Populações de Angola (UPA), seguindo os bloqueios, destruições e confrontos até dia 11 de janeiro de 1959. Até o dia final dos protestos, os nacionalistas buscaram depredar patrimônio, não havendo registro de mortes associadas aos seus protestos.
A repressão colonial aos protestos, porém, foi mais violenta, sendo empregados os temidos soldados da Força Pública Belga-Congolesa com carros blindados, sob a direção do General Émile Janssens. As estimativas do número final de mortos nos tumultos variam, com total de vítimas chegando até a 500. As vítimas oficiais foram contabilizadas como 49 africanos mortos e 241 feridos. Temendo a prisão, muitos africanos não procuraram tratamento em hospitais e muitos dos que morreram foram enterrados em valas comuns, não sendo contabilizados como vítimas. As autoridades coloniais prenderam até 300 quinxassa-congoleses, incluindo Kasa-Vubu, que mais tarde se tornaria o primeiro presidente do Congo recém-independente, Simon Mzeza e o vice-presidente da ABAKO, Daniel Kanza, e os acusaram de incitar o tumulto.
Os protestos e tumultos passaram a ser reprimidos com mais força a partir do dia 6 de janeiro de 1959, mas somente foram totalmente debelados em 12 de janeiro de 1959.
Consequências Os protestos e tumultos entre dezembro de 1958 a janeiro de 1959 marcaram um ponto de virada no movimento de libertação quinxassa-congolês, forçando as autoridades coloniais belgas a reconhecerem que existiam problemas sérios na colônia. Ao contrário das expressões anteriores de descontentamento, as queixas foram transmitidas principalmente por moradores urbanos sem instrução, não por évolués. Muitos évolués, assim como os europeus, ficaram perturbados com a destruição.
Imediatamente após os acontecimentos, as autoridades belgas tentaram atribuir os danos aos africanos desempregados, tentando remover qualquer menção ao fortíssimo caráter nacionalista e anticolonial dos protestos e tumultos. O Parlamento belga criou uma comissão de inquérito para investigar a causa do acontecimento. O relatório da comissão concluiu que os distúrbios foram o culminar do descontentamento com a discriminação racial, a superlotação dos bairros pobres e o desemprego. Concluiu também que eventos políticos externos, como a decisão da França de conceder autogoverno ao Congo Francês vizinho, foram um fator contribuinte e criticou a resposta da administração colonial aos tumultos.
Em 13 de janeiro, a administração prosseguiu com o anúncio das reformas previstas, incluindo novas eleições locais em dezembro, a instituição de um novo estatuto para a função pública que não fazia distinções raciais e a nomeação de mais africanos para órgãos consultivos. Nesse mesmo dia o rei belga, Balduíno, também declarou pela primeira vez que a independência seria concedida ao Congo no futuro. A imprensa internacional e analistas políticos são unânimes em afirmar que as reformas foram feitas em resposta aos tumultos.
Legado O dia 4 de janeiro é agora celebrado como feriado nacional na República Democrática do Congo, conhecido como Dia dos Mártires. Os eventos marcaram a radicalização do movimento de independência e são frequentemente considerados o "golpe final" para o controle belga do Congo. Essa radicalização ocorreu em ambos os lados, com um grupo quinxassa-congolês sinalizando pela primeira vez a disposição de utilizar todos os meios possíveis para alcançar a independência, enquanto a burguesia reacionária belga/europeia começou a planejar um golpe de Estado ou intervenção política se um governo de maioria negra ou de viés nacionalista de esquerda assumisse o poder.
Os tumultos também marcaram um período de crescente tensão e uma ruptura para o MNC, e seu então principal rival político, a ABAKO. A partir dos distúrbios de janeiro, a influência de ambos os partidos nacionalistas expandiu-se para fora das grandes cidades pela primeira vez, e as manifestações e tumultos nacionalistas tornaram-se uma ocorrência regular ao longo do ano seguinte, trazendo um grande número de negros de fora da classe évolué para o movimento nacionalista e anticolonial. Com a maior parte da liderança do ABAKO presa, o MNC ficou numa posição política vantajosa.
Categoria:História da República Democrática do Congo