A Fundição do Bolhão foi uma fábrica portuguesa de fundição e metalurgia, instalada no centro da cidade do Porto, junto ao antigo Mercado do Bolhão, na área da actual Rua de Fernandes Tomás. Fundada em 1847 por José Vitorino Damásio, Joaquim António da Silva Guimarães e Joaquim Ribeiro de Faria Guimarães, integrou o conjunto de estabelecimentos metalúrgicos que acompanharam a industrialização portuense de meados do século XIX.

A fábrica notabilizou-se pela produção de objectos de ferro fundido, utensílios domésticos, obras decorativas e maquinaria, incluindo aplicações em móveis, portões, varandas, objectos ornamentais e máquinas. Produziu também a primeira draga construída em Portugal e a máquina da primeira cordoaria mecânica instalada no Porto. O seu antigo local foi posteriormente integrado nas operações urbanísticas de prolongamento e regularização da Rua de Sá da Bandeira. Nos terrenos da antiga fundição viria a ser construído o Palácio do Comércio, inaugurado em 1954.

História

Fundação A origem da Fundição do Bolhão está ligada à actividade técnica e industrial de José Vitorino Damásio, professor da Academia Politécnica do Porto e figura central do desenvolvimento do ensino técnico e da engenharia em Portugal no século XIX. Em 1847, pouco depois do fim da Patuleia, Damásio apresentou ao Governo Civil do Porto um pedido de registo de uma invenção para o fabrico de ferro maleável ou coado por novo processo químico. Na mesma ocasião, Joaquim António da Silva Guimarães apresentou pedido relativo a um processo químico de esmaltagem aplicável a objectos de ferro maleável, ferro coado e cobre; Joaquim Ribeiro de Faria Guimarães figurou como fiador dos dois pedidos.

Os três empresários e técnicos constituíram a sociedade que ficaria associada à Fundição do Bolhão. A concessão do privilégio industrial foi atribuída em 16 de novembro de 1847, por catorze anos, permitindo a exploração dos processos registados até 1861. Em estudos sobre a indústria oitocentista portuguesa, a empresa surge também associada à firma Damásio & C.ª, criada em 1847, com Damásio na direcção técnica.

A implantação da fábrica junto ao Bolhão inseria-se numa zona então marcada pela presença de mercados, oficinas e estabelecimentos fabris. A fundição ficava nas proximidades da antiga Praça do Bolhão e da Rua de Fernandes Tomás, área que se transformaria profundamente ao longo dos séculos XIX e XX.

Associativismo industrial A Fundição teve também importância no movimento associativo industrial do Porto. José Vitorino Damásio, então industrial na Fundição do Bolhão e lente da Escola Politécnica do Porto, participou na comissão de artistas e industriais que, em 3 de maio de 1849, apresentou novos estatutos para a Associação Industrial Portuense. A associação reunia industriais, artistas e operários, defendendo a instrução técnica, o ensino do desenho industrial, a criação de uma biblioteca e o aperfeiçoamento das condições de trabalho. Joaquim Ribeiro de Faria Guimarães, proprietário da Fundição do Bolhão e sócio de Damásio, viria a presidir à Associação Industrial Portuense aquando da sua instalação, num contexto de divisão entre diferentes correntes do industrialismo portuense.

Actividade e produção A Fundição do Bolhão aplicou os processos de Damásio na produção de objectos de ferro, incluindo utensílios de uso doméstico, ferragens, elementos ornamentais, aplicações para mobiliário, portões e varandas. A fábrica ficou particularmente associada à introdução da louça de ferro fundido esmaltada e estanhada, uma inovação técnica ligada às experiências químicas e metalúrgicas de Damásio e dos seus sócios.

Além das peças de menor escala, a fundição produziu maquinaria. Entre as obras atribuídas ao estabelecimento encontram-se a primeira draga construída em Portugal e a máquina da primeira cordoaria mecânica instalada no Porto. A sua produção reflectia uma das orientações características do industrialismo portuense de meados de Oitocentos: a conjugação entre ciência aplicada, ensino técnico, saber oficinal e produção mecânica.

Na documentação do Arquivo Municipal do Porto, a fundição aparece associada à firma Costa Basto e Companhia, com estabelecimento na Rua de Fernandes Tomás, n.º 352, pelo menos em 1879. O Gisa conserva várias unidades documentais relativas à Fábrica de Fundição do Bolhão, incluindo processos de concurso, fornecimentos e documentação associada a obras públicas e municipais.

A fábrica surge ainda no contexto da produção portuguesa de ferro fundido para mobiliário urbano e obras ornamentais. Estudos sobre o mobiliário urbano de fundição em Portugal referem a Fundição do Bolhão entre os estabelecimentos portuenses relevantes do sector, ao lado de outras fundições como as de Massarelos, Bicalho, Ouro, Arrábida, Miragaia e Fradelos.

Em 1911, a Fundição do Bolhão foi adjudicatária da obra de ferro do coreto a construir no Jardim de São Lázaro, actual Jardim de Marques de Oliveira, conforme processo existente no Arquivo Municipal do Porto.

Inquérito Industrial de 1881 O Inquérito Industrial de 1881 permite situar a Fundição do Bolhão no panorama metalúrgico do Porto no final do século XIX. Segundo estudos baseados nesse inquérito, a direcção fabril estava então a cargo de João de Sousa Soares, formado no Instituto Industrial do Porto e anteriormente ligado à Fundição do Ouro. A fábrica dispunha de mão-de-obra especializada, incluindo fundidores, serralheiros, forjadores, funileiros, forneiros, carpinteiros e pintores.

O mesmo conjunto de fontes apresenta a Fundição do Bolhão como uma das fundições registadas no Porto até 1881 e documenta a persistência de um sector metalúrgico urbano diversificado, embora sujeito a limitações técnicas, concorrência externa e dificuldades de modernização.

Demolição As instalações históricas da Fundição do Bolhão desapareceram no contexto das transformações urbanas da Baixa portuense. O Arquivo Municipal do Porto conserva documentação relativa a processos de expropriação da Fundição do Bolhão para o prolongamento e regularização da Rua de Sá da Bandeira. Em 1940, David Moreira da Silva iniciou estudos para implantar nos terrenos da antiga Fundição do Bolhão um edifício-quarteirão destinado a habitação, comércio e serviços. O projecto viria a ser concretizado por Delfim Ferreira, proprietário dos terrenos desde 1943, e assinado por Maria José Marques da Silva e David Moreira da Silva. O Palácio do Comércio, inaugurado em 1954, ocupa o quarteirão delimitado pelas ruas de Sá da Bandeira, Fernandes Tomás, Firmeza e Bolhão.

Bibliografia

Ligações externas

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