A sífilis no Brasil constitui um dos maiores desafios de saúde pública do país no século XXI. Após décadas de relativo controle, o Brasil vivenciou uma intensa ressurgência da sífilis adquirida a partir de 2010, com notificações crescendo cerca de cem vezes entre 2010 e 2023. O Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN), mantido pelo Ministério da Saúde, registrou mais de 1,5 milhão de casos de sífilis adquirida desde a implementação da notificação compulsória nacional, revelando uma epidemia persistente e crescente que afeta desproporcionalmente adultos jovens, populações negras e pardas e pessoas em situação de vulnerabilidade socioeconômica.

O Brasil dispõe de um sistema de saúde universal, o Sistema Único de Saúde (SUS), que oferece gratuitamente testagem, diagnóstico e tratamento da sífilis, incluindo a penicilina G benzatina, antibiótico de primeira escolha. Apesar dessa estrutura, as taxas de incidência mantiveram trajetória ascendente ao longo de toda a série histórica disponível, com exceção do ano de 2020, quando houve queda atribuída à pandemia de COVID-19.

Histórico e contexto

A sífilis (Treponema pallidum subespécie pallidum) é uma infecção sexualmente transmissível (IST) curável com antibióticos desde a introdução da penicilina na década de 1940. No Brasil, as décadas de 1980 e 1990 foram marcadas pela priorização do combate ao HIV/AIDS, o que levou a uma redução relativa da atenção às outras ISTs, incluindo a sífilis.

A notificação compulsória da sífilis congênita foi estabelecida em 1986 e a da sífilis em gestantes em 2005. A sífilis adquirida tornou-se de notificação compulsória nacional apenas em 2010, o que explica a escassez de dados anteriores e o salto aparente entre 2010 e 2011 — um artefato da expansão do sistema de vigilância, e não necessariamente um aumento real da transmissão nesse intervalo específico.

A partir de 2013, a distribuição de testes rápidos treponêmicos na atenção básica ampliou substancialmente a capacidade diagnóstica, contribuindo parcialmente para o aumento das notificações. Contudo, a magnitude do crescimento observado — superior a dez vezes nas taxas ajustadas pela população — é incompatível com melhorias diagnósticas isoladas e reflete expansão genuína da transmissão.

Epidemiologia

Tendência histórica

Entre 2010 e 2023, o Brasil notificou 1.507.060 casos de sífilis adquirida ao SINAN. Os registros anuais cresceram de 2.543 casos em 2010 para 249.021 casos em 2023, configurando um aumento de quase cem vezes em treze anos. Quando ajustados pela população brasileira, estimada pelo IBGE em projeções intercensitárias, os dados revelam uma taxa de incidência que passou de 1,3 por 100.000 habitantes em 2010 para 115,1 por 100.000 habitantes em 2023 — um crescimento de 13 vezes na taxa, que não pode ser explicado pelo crescimento populacional do período (aproximadamente 13% entre 2010 e 2023).

Tabela 1. Casos notificados de sífilis adquirida e taxa de incidência, Brasil, SINAN, 2010–2023

Ano Casos notificados Variação anual Taxa /100.000 hab 2010 2.543 — 1,3 2011 16.520 +550%* 8,6 2012 26.811 +62% 13,8 2013 38.571 +44% 19,2 2014 49.265 +28% 24,3 2015 68.578 +39% 33,5 2016 90.651 +32% 44,0 2017 121.637 +34% 58,6 2018 160.489 +32% 77,0 2019 166.317 +4% 79,1 2020 127.438 −23% 60,2 2021 171.189 +34% 80,3 2022 219.030 +28% 101,7 2023 249.021 +14% 115,1

*A variação de +550% entre 2010 e 2011 reflete principalmente a implantação do SINAN nacional para sífilis adquirida, e não um aumento epidemiológico real nesse intervalo. Fonte: SINAN/Ministério da Saúde; população: IBGE projeções intercensitárias e Censo 2022.

A trajetória pode ser dividida em três fases distintas: uma fase de crescimento acelerado entre 2011 e 2018, com incremento médio anual superior a 30% nas taxas de incidência; uma interrupção em 2019–2020 — desaceleração antes da pandemia seguida de queda abrupta de 24% em 2020 por efeito COVID-19; e uma fase de crescimento moderado entre 2021 e 2023, com retomada rápida e novos recordes históricos em 2022 e 2023.

Distribuição geográfica

Os casos concentram-se na Região Sudeste, que acumula 50,2% de todas as notificações desde 2010, seguida pelas regiões Sul (21,8%), Nordeste (14,4%), Centro-Oeste (7,3%) e Norte (6,3%). No nível estadual, São Paulo lidera com 433.406 casos (28,2% do total nacional), seguido pelo Rio de Janeiro (149.745), Rio Grande do Sul (144.183), Minas Gerais (136.642) e Santa Catarina (104.010).

Tabela 2. Distribuição regional acumulada de casos, 2010–2023

Região Casos % do total Sudeste 772.662 50,2% Sul 335.425 21,8% Nordeste 222.186 14,4% Centro-Oeste 111.579 7,3% Norte 96.672 6,3%

A concentração no Sudeste reflete tanto maior carga epidemiológica quanto maior capacidade diagnóstica e de notificação. Análises de clusters espaciotemporais identificaram aglomerados de alto risco nos municípios de Diadema, São Caetano do Sul, São Paulo e Taboão da Serra, na Região Metropolitana de São Paulo, onde as formas adquirida, gestacional e congênita da sífilis co-ocorrem em taxas elevadas.Donida GCC et al. Multivariate spatiotemporal risk of syphilis cases in São Paulo, Brazil (2018–2022). BMC Primary Care, 2026. doi:10.1186/s12875-026-03289-3

Em contraste, a mortalidade por sífilis congênita é mais elevada nas regiões Norte (Pará, Acre, Rondônia) e no Rio de Janeiro, sugerindo que a mortalidade é inversamente proporcional à qualidade da infraestrutura de saúde local.Pinheiro YT et al. Spatial analysis of mortality due to congenital syphilis in Brazil from 2008 to 2022. PLoS ONE 21(2):e0326407, 2026. doi:10.1371/journal.pone.0326407

Distribuição por sexo

Homens representam a maioria dos casos em toda a série histórica. Entre 2010 e 2023, 60,8% dos casos (933.952 de 1.537.225 com sexo informado) ocorreram em homens. A proporção masculina oscilou entre 58,6% (2017) e 62,9% (2020), com leve aumento durante e após a pandemia de COVID-19.

Tabela 3. Distribuição de casos por sexo, anos selecionados

Ano Masculino Feminino % Masculino 2010 1.574 969 61,9% 2015 41.423 27.138 60,4% 2018 95.294 65.132 59,4% 2021 107.281 63.668 62,8% 2023 151.465 97.302 60,9%

O predomínio masculino é consistente com maior incidência entre homens que fazem sexo com homens (HSH), grupo identificado em múltiplos estudos de soroprevalência como portador de carga desproporcional de sífilis no Brasil e no mundo.

Distribuição etária

A faixa de 20 a 24 anos concentra a maior carga individual, com 290.620 casos (18,9% do total), seguida pela faixa de 30 a 39 anos (344.030 casos; 22,4%) e de 25 a 29 anos (258.012 casos; 16,8%). Adolescentes de 15 a 19 anos somaram 140.800 casos (9,2%), evidenciando transmissão sustentada em jovens. A idade média na notificação foi de aproximadamente 35 anos ao longo do período, com tendência de redução entre 2011 (média de 38,2 anos) e 2017 (34,7 anos), sugerindo maior incidência em coortes mais jovens durante a fase de expansão acelerada.

Tabela 4. Distribuição acumulada de casos por faixa etária, 2010–2023

Faixa etária Casos % do total 0–9 anos 8.651 0,6% 10–14 anos 7.908 0,5% 15–19 anos 140.800 9,2% 20–24 anos 290.620 18,9% 25–29 anos 258.012 16,8% 30–39 anos 344.030 22,4% 40–49 anos 213.861 13,9% 50–59 anos 146.424 9,5% 60 anos ou mais 128.187 8,3%

Os casos nas faixas de 0–9 e 10–14 anos (totalizando 16.559) devem ser interpretados com cautela, pois podem incluir sífilis congênita classificada indevidamente como adquirida, casos de violência sexual ou erros de digitação no SINAN.

Distribuição por raça/cor

Entre os casos com raça/cor informada (aproximadamente 1.320.071 registros), a distribuição reflete a composição demográfica do Brasil, mas com desigualdades importantes.

Tabela 5. Distribuição de casos por raça/cor (casos com campo preenchido)

Raça/cor Casos % Parda 580.678 44,0% Branca 554.493 42,0% Preta 162.671 12,3% Amarela 14.647 1,1% Indígena 7.582 0,6%

A proporção de casos classificados como pardos cresceu ao longo do tempo: de 38,3% em 2015 para 46,5% em 2023. A população preta, que representa aproximadamente 10,6% da população brasileira segundo o Censo do IBGE, responde por 12,3% dos casos — carga desproporcional compatível com o padrão mais amplo de iniquidades raciais em saúde no Brasil. Estudos qualitativos e quantitativos apontam que mulheres negras e pardas apresentam maior risco de diagnóstico tardio na gestação, menor cobertura de tratamento do parceiro e acesso mais precário ao pré-natal.Fernandes MD et al. The neglected role of partner treatment in congenital syphilis control in Brazil: nationwide evidence from 2007 to 2023. Lancet Regional Health – Americas 56:101434, 2026. doi:10.1016/j.lana.2026.101434

Escolaridade e determinantes sociais

Entre os casos com escolaridade informada (aproximadamente 981.215 registros), o nível mais frequente foi o ensino médio completo (313.993 casos; 32,0%), seguido de ensino fundamental incompleto — 5ª a 8ª série (152.144 casos; 15,5%) e ensino médio incompleto (137.530 casos; 14,0%). O analfabetismo correspondeu a 15.352 casos (1,6% dos com campo preenchido). Aproximadamente 36,2% de todos os registros do SINAN apresentam escolaridade como ignorada ou em branco, limitando as análises socioeconômicas.

Pesquisas com dados vinculados identificaram de forma consistente que menor escolaridade, desemprego e precariedade habitacional associam-se a tratamento inadequado, perda de seguimento e não tratamento do parceiro sexual — fatores que sustentam a cadeia de transmissão.

Sífilis gestacional

A sífilis gestacional é monitorada por formulário próprio no SINAN desde 2005. Dados do Ministério da Saúde indicam aproximadamente 86.111 casos de sífilis em gestantes em 2023, número que não está integralmente capturado na base de sífilis adquirida analisada neste artigo.

A infecção afeta desproporcionalmente mulheres mais jovens, com menor escolaridade, negras e pardas, e aquelas com acesso tardio ou ausente ao pré-natal. Estudos no Rio de Janeiro e em Minas Gerais documentaram que o diagnóstico no terceiro trimestre — situação associada ao maior risco de transmissão vertical — é mais frequente entre mulheres em situação de vulnerabilidade social e estrutural.Sarefino AO et al. Gestational syphilis and prenatal care: a study in light of individual, social, and programmatic vulnerabilities. Revista da Escola de Enfermagem da USP 60:e20250270, 2026. doi:10.1590/1980-220X-REEUSP-2025-0270enSilva PT et al. Epidemiological profile, completeness of notifications, and factors associated with the adequacy of treatment for syphilis during pregnancy. Epidemiologia e Serviços de Saúde 35:e20250056, 2026. doi:10.1590/S2237-96222026v35e20250056.en

A taxa de detecção de sífilis em gestantes aumentou de 2,4 por 1.000 nascidos vivos em 2010 para 28,0 por 1.000 nascidos vivos em 2023, segundo os Boletins Epidemiológicos do Ministério da Saúde.

Sífilis congênita

A sífilis congênita resulta da transmissão do Treponema pallidum da gestante infectada para o feto durante a gravidez ou o parto. No Brasil, sua incidência cresceu de aproximadamente 1,3 caso por 1.000 nascidos vivos em 2001 para 10,3 por 1.000 nascidos vivos em 2022.Araujo TKA et al. Trend and prediction of congenital syphilis in Brazil in the 21st century: A time series study. Revista Gaúcha de Enfermagem 47:e20250112, 2026. doi:10.1590/1983-1447.2026.20250112.en Entre 2007 e 2023, foram notificados 297.062 casos de sífilis congênita ao SINAN, com 51% deles concentrados no período de 2017 a 2022.