Joaquim do Nascimento Fernandes Távora (Jaguaribemirim, - São Paulo, ) foi um militar, engenheiro civil e revolucionário tenentista brasileiro. Irmão mais velho do também revolucionário Juarez Távora, participou das revoltas em Mato Grosso em 1922 e São Paulo em 1924, morrendo em decorrência de ferimentos em combate nesta última.

Vida civil Nasceu na fazenda Embargo, município de Jaguaribe-Mirim, filho de Joaquim Antônio do Nascimento e de Clara Fernandes da Silva Távora. Entre seus irmãos estão Fernandes Távora e Juarez Távora. Sua família era numerosa e de poucas posses, mas tradicional na política interiorana do Ceará. Os Távora eram opositores à oligarquia da família Nogueira Acioly.

Ainda na adolescência, estudou em Fortaleza e depois seguiu para Porto Alegre, onde ingressou no Exército. Em 1911 já estava casado com Comba Távora, com quem teria três filhos. Em maio daquele ano, aos trinta anos, viu pela primeira vez seu irmão Juarez, que tinha treze anos e vinha ao Rio Grande do Sul para seus estudos secundários. Os irmãos mais velhos financiaram os estudos de Juarez. No ano seguinte formou-se em engenharia civil na Bahia, com especialização em topografia. Mesmo depois de ingressar no Exército, ainda conseguiria licenciar-se e exercer a profissão de engenheiro, com a qual acumulou uma vida confortável de família e uma pequena fortuna de cerca de duzentos contos de réis.

Vida militar-revolucionária Formado na Escola de Guerra em Porto Alegre, já estava no posto de segundo-tenente em 1911, servindo no 19.º Batalhão de Caçadores, em Salvador. Em 1914 ele foi transferido ao 17.º Batalhão de Caçadores (17.º BC), em Corumbá, Mato Grosso. Ainda estava naquela cidade, mas licenciado do serviço ativo, em 1922, quando soube numa viagem da conspiração que se armava contra o governo federal de Epitácio Pessoa e o vencedor da eleição presidencial, Artur Bernardes. Ele procurou o quartel assim que pôde.

Em Mato Grosso, o ressentimento dos militares contra o governo era articulado pelo general Joaquim Inácio Batista Cardoso, comandante da 1.ª Circunscrição Militar. Em 5 de julho o comando foi transferido ao general Clodoaldo da Fonseca, também comprometido com a conspiração. Clodoaldo reuniu seus oficiais, anunciou a revolta e ordenou a concentração de uma "Divisão Provisória Libertadora" na fronteira com São Paulo. Távora comandou interinamente o 17.º BC, principal força da divisão. A revolta terminou sem tiros: com a notícia da derrota da Revolta dos 18 do Forte, no Rio de Janeiro, as tropas retornaram às suas sedes.

Prisão e clandestinidade Távora foi preso, inicialmente na Fortaleza de Santa Cruz, em Niterói, e mais tarde no 1.º Regimento de Cavalaria Divisionário e na Escola de Estado-Maior, no Rio de Janeiro. No cárcere, teve oportunidade de conhecer outros conspiradores. Na Escola de Estado-Maior, era respeitado pelo comandante, que às vezes lhe permitia sair sob palavra de retornar. João Alberto Lins de Barros recorda-se de como, na Fortaleza de Santa Cruz, o "capitão Joaquim Távora tornou-se nosso líder. Alto de porte, calva à mostra, constituição atlética, juntava ao vigor físico a bravura moral. Falava bem e argumentava com fatos novos para nós, oficiais jovens e bisonhos em política". A maturidade de Távora destacava-o num movimento que a historiografia associa à jovem oficialidade.

À Justiça Militar, seu advogado Evaristo de Morais alegou que ele somente obedecia às ordens dos seus superiores. Os revoltosos conseguiram habeas corpus em fevereiro de 1923. Em 26 de dezembro, Joaquim e Juarez Távora foram indiciados pelo artigo 107 do Código Penal Militar, pelo qual poderiam ser condenados à perda da patente e à exclusão do Exército. Eles aguardavam o resultado em Boituva, no interior de São Paulo, onde podiam desertar. Já tinham compromisso com a conspiração que se organizava para uma revolta contra o governo Bernardes. Os irmãos refugiaram-se inicialmente na casa de um antigo colega de Joaquim em Ponta Grossa, no Paraná.

Em sua nova vida de conspirador, sondou apoios à revolta e construiu contatos na oficialidade das guarnições. Por um mês no início de 1924, peregrinou pelas unidades do Exército em Florianópolis e no litoral de Santa Catarina. Em fevereiro esteve em São Paulo: Rio Claro, Itu, Jundiaí, Caçapava, Pirassununga, Santos e Lorena. Por fim, Minas Gerais: Três Corações, Pouso Alegre, Itajubá, Ouro Preto e Juiz de Fora. Voltou a São Paulo, onde manteve contato com a Força Pública através do major Miguel Costa. Quando não viajava pelos quartéis, morava na casa do tenente Custódio de Oliveira, em São Paulo. Na vida clandestina, usava o codinome "J. Fernandes".

No plano dos conspiradores, Távora acompanharia Custódio de Oliveira, Eduardo Gomes, Asdrúbal Gwyer de Azevedo, Luís Cordeiro de Castro Afilhado, Samuel Fernandes e Miguel Costa na sublevação do 4.º Batalhão de Caçadores e do Regimento de Cavalaria da Força Pública, em São Paulo. A capital paulista seria rapidamente dominada e Távora conduziria quinhentos homens pela Estrada de Ferro Central do Brasil até Barra do Piraí, no Rio de Janeiro. No caminho, ampliaria seu efetivo com voluntários e destacamentos policiais, chegando a mil homens ao passar por Pindamonhangaba.

Combate em São Paulo e morte

Na madrugada de 5 de julho, acompanhou Eduardo Gomes numa caminhada de duas horas até o 4.º Batalhão de Caçadores, em Santana. Alguns oficiais já os esperavam. Eles mandaram acordar os praças, reuniram oitenta homens e distribuíram patrulhas pelo bairro da Luz. No quartel do Corpo-Escola da Força Pública, Távora apontou sua pistola e deu ordem de prisão ao comandante da 2.ª Região Militar, o general Abílio de Noronha, que reagia ao levante. Abílio não quis acatar a ordem de um capitão e desafiou-o a puxar o gatilho. Só aceitou a prisão depois da chegada do líder do movimento, o general Isidoro Dias Lopes.

Depois da prisão do general, foi ao quartel do 4.º Batalhão da Força Pública atrás de Juarez e do capitão Índio do Brasil. A dupla fora buscar metralhadoras do arsenal e demorava a voltar., cap. 16. Era uma armadilha: os revoltosos não são sabiam que Abílio de Noronha havia solto os oficiais legalistas e revertido o controle do quartel. Os três foram presos e o alto-comando revolucionário cancelou seus planos de envio de tropas ao Rio de Janeiro. Os prisioneiros aguardaram enquanto seus companheiros do lado de fora bombardeavam o prédio. Eles só foram soltos depois da noite de 8 de julho, quando os legalistas se entregaram.

No dia 15, liderou a ofensiva na Liberdade. O tiroteio foi intenso contra os legalistas que resistiam no quartel do 5.º Batalhão da Força Pública. Aos mais de vinte homens que o acompanhavam pessoalmente, dizia: "vamos tomá-lo de qualquer maneira". Ao final da tarde o inimigo levantou uma bandeira branca. Távora não esperou que se dissipasse a confusão da batalha e prontamente se levantou. De imediato, um tiro de fuzil entrou pela lateral do seu pescoço e saiu pelo ombro, acima da escápula. A posição inimiga se entregou e Távora foi levado ao Hospital da Força Pública., cap. 20. O disparo letal violava as regras de combate e foi objeto de um inquérito. O documento evidencia a atitude racial dos militares ao mencionar que a bandeira branca foi levantada por um soldado negro.

Juarez visitou-o no hospital no dia 16, mas teve que retornar ao combate. Foi a última vez que o veria vivo. O tiro, segundo vários autores, atingiu a coluna e ele já entrou no hospital com quadro extremamente grave, estando no mínimo tetraplégico. Entretanto, Juarez e outras testemunhas no hospital recordam-se de que ele ainda estava animado, aconselhando firmeza a seus amigos. Os vasos sanguíneos mais importantes estavam intactos. Conforme relato do médico Celso Barroso, o paciente teve uma súbita virada de quadro, que não poderia ser explicada pelo dano aos órgãos. Um exame de urina indicou nefrite crônica, que poderia ter provocado congestão de líquido nos pulmões. Ele pediu: "livre-me disso". O médico determinou soro glicosado e sangria. Távora melhorou brevemente e morreu agonizando no dia 19., cap. 21.

Pensamento político Ao contrário de seu irmão Juarez, que seguiria uma trajetória política conservadora,, "Os tenentes e 1964". Joaquim era "socialista ardoroso, explicava-nos os acontecimentos políticos à luz da economia", nas palavras de João Alberto Lins de Barros. Segundo o tenente Luiz Cordeiro de Castro, Távora não escapava à influência ideológica do seu ambiente, onde as ideias políticas, econômicas e sociais não eram bem definidas e havia simpatias ditatoriais. Mas ele em específico "acreditava no povo e consequentemente na democracia". Queria incluir civis na Revolução, e em Corumbá, mantinha contato com fazendeiros, comerciantes, boiadeiros, políticos e populares. Tinha simpatia pelas reivindicações operárias. Miguel Costa recorda-se de uma longa conversa com Távora sobre a questão da jornada de oito horas, sobre a qual teria se inteirado em conversas com Nilo Peçanha desde sua chegada da Europa. No Centenário da Independência, em 1922, afirmou a seus companheiros de prisão que a data era uma farsa: "ficamos, externamente, sob a dependência imperialista dos grandes financistas estrangeiros e, internamente, sob o domínio de umas poucas centenas de senhores nobres".

Legado Para o movimento tenentista, a perda de Joaquim Távora é comparável à morte de Siqueira Campos e ao afastamento de Luís Carlos Prestes em 1930. Isidoro Dias Lopes admirava-o e acatava seus pontos de vista. Lourenço Moreira Lima chamou-o de "propagandista tenaz da Revolução e seu mais ardente organizador". O legado pessoal foi maior para seu irmão Juarez. Segundo o tenentista Nelson Tabajara de Oliveira, "o sacrifício de seu irmão obrigou Juarez, dezoito anos mais moço e já figura inconfundível no campo da revolução, a concentrar um pacto de morte com a memória de Joaquim"., cap. 22. Juarez recorda-se dele como "mais do que um irmão – um segundo pai e um guia".

Seu nome foi dado ao antigo município de Afonso Camargo, no Paraná, e ao antigo bairro de Piedade, em Fortaleza. Em 1924 o povoado de Porto Tibiriçá, em São Paulo, foi batizado de "Porto Joaquim Távora" durante sua ocupação pelos revoltosos.

Fontes Citações

Bibliografia

Ligações externas

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